Bíblia em Contos

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O Grito que Abalou Exércitos

O ar pesava como manta úmida sobre as colinas de Zemaraim. Abias, rei de Judá, sentiu o fio da espada contra sua coxa, um lembrete metálico e frio da insensatez que parecia ser aquele dia. Diante dele, espalhando-se pelo vale como uma praga de gafanhotos, estava o exército de Israel. O dobro de homens. Experiência de batalha. E Jeroboão, seu próprio sangue, seu inimigo, apostando tudo em um só golpe para esmagar a linhagem de Davi.

Os sacerdotes, em seus mantos de linho, pareciam flores pálidas e trêmulas diante de um campo de aço enferrujado. Abias respirou fundo. O cheiro era de terra revolvida, suor de animal e medo. Ele não era um guerreiro como seu avô, nem um rei de grandes conquistas. Era um administrador, um homem que contabilizava portas do Templo e medidas de azeite. Mas naquele momento, uma chama quieta se acendeu em seu peito, não de bravura, mas de memória. A memória de uma promessa.

Subiu em um rochedo, sua voz não ecoou com a força bruta de um comandante, mas carregada de uma urgência seca, cortante. “Jeroboão! Israel! Ouçam!” O grito foi engolido em parte pelo vasto anfiteatro de colinas, mas uma calma súbita, tensa, desceu sobre as primeiras fileiras inimigas. Era um contra-senso, um rei discursando antes da carnificina. Eles esperavam o ruído dos escudos batendo, o urro coletivo. Receberam palavras.

“Não vos é dado saber que o Senhor, o Deus de Israel, deu para sempre a realeza sobre Israel a Davi, a ele e a seus filhos, por uma aliança de sal?” A voz de Abias falhava em alguns pontos, rouca pela poeira e pela emoção contida. Ele apontou para trás, na direção de Jerusalém, invisível além das montanhas. “Contudo, Jeroboão, servo de Salomão, filho de Davi, se levantou e se rebelou contra seu senhor.”

Era uma acusação histórica, um desenrolar do processo diante do próprio tribunal dos céus. Ele descreveu os homens ociosos, aventureiros e vil que se ajuntaram a Jeroboão. A traição. E então, o cerne da questão, aquilo que transformava aquele conflito de uma briga dinástica em guerra santa: a apostasia.

“E vós tendes conosco os bezerros de ouro que Jeroboão vos fez para deuses!” A palavra “deuses” saiu como um cuspe. “Não lançastes fora os sacerdotes do Senhor, os filhos de Arão, e os levitas? E não fizestes para vós sacerdotes, como os povos das outras terras? Qualquer que vem a consagrar-se, trazendo um novilho e sete carneiros, logo se faz sacerdote daqueles que não são deuses.”

Enquanto falava, Abias observava os rostos à distância. Viu alguns baixarem a cabeça. Outros murmuravam. Jeroboão, no centro, impaciente, fazia um gesto brusco para seus capitães. Mas a narrativa continuava, implacável.

“Mas, quanto a nós, o Senhor é nosso Deus, e não o abandonamos.” Sua voz ganhou uma firmeza nova. “Temos sacerdotes que ministram ao Senhor, filhos de Arão, e levitas na sua obra. Queimam para o Senhor holocaustos cada manhã e cada tarde, e o incenso aromático; e os pães da proposição estão sobre a mesa de ouro puro… Porque guardamos a ordem do Senhor, nosso Deus; mas vós o deixastes.”

Fez uma pausa. O silêncio era agora opressivo, carregado de uma verdade inconveniente que pairou sobre o exército de Israel como uma névoa. Então, a conclusão, não como um grito de guerra, mas como um aviso solene e quase lamentoso:

“Eis que Deus está conosco, à nossa frente, e os seus sacerdotes, com trombetas retinintes, para tocá-las contra vós. Ó filhos de Israel, não pelejeis contra o Senhor, Deus de vossos pais, porque não prosperareis.”

Terminou. O som de sua própria respiração ofegante era alto em seus ouvidos. Por um instante, nada aconteceu. Foi um instante de eternidade, onde a história pareceu suspensa entre a obediência e a ruína.

Então, de trás das linhas israelitas, veio o som agudo e estridente de uma corneta. Era a resposta de Jeroboão. Não com palavras, mas com movimento. A imensa massa de guerreiros começou a avançar, lenta no início, depois ganhando velocidade, um rolo compressor de ferro e ódio. A estratégia era clara: um cerco, uma pinça para envolver as forças menores de Judá. O discurso teológico não importava. Apenas a matemática da força importava.

Abias desceu do rochedo. Seus homens, com os rostos pálidos mas determinados, se apertaram em formação. O tempo das palavras acabara. Mas algo acontecera. Um assentimento silencioso havia se firmado no coração daqueles soldados de Judá. Eles não estavam apenas defendendo um rei. Estavam defendendo um altar. Um altar verdadeiro.

A batalha se engalfinhou com um estrondo que abalou os ossos da terra. O metal raspou contra o metal, os gritos eram de fúria e de agonia. Por um tempo, parecia que a previsão humana se confirmaria: a aliança de Jeroboão era maior, mais experiente. As linhas de Judá recuaram um passo, depois outro. O cheiro agora era de sangue e ferros quentes.

Foi então, no momento em que a aliança de ferro parecia prestes a se fechar completamente ao redor do exército de Abias, que os sacerdotes, aquelas figuras pálidas e frágeis, levantaram as trombetas. Não era um toque de ordem, de comando militar. Era o shofar, um som rouco, ancestral, que falava de sacrifício e de intervenção. Era o som da aliança.

E aconteceu uma coisa que nenhum manual de guerra, nenhum general experiente poderia prever. Um pânico que não nasceu de uma carga de cavalaria ou de uma chuva de flechas, mas do próprio espírito, tomou conta do exército de Israel. Não foi uma retirada ordenada. Foi um desmoronar da alma. Homens jogavam suas espadas, viravam as costas para os próprios irmãos, tropeçavam e caíam sob os pés da debandada geral. O medo de Deus, aquele temor antigo que seus avós sentiram diante do Sinai, caiu sobre eles como uma mão gigantesca.

Jeroboão, vendo o inexplicável, gritou, ordenou, ameaçou. Mas sua voz foi perdida no caos. O cerco se desfez não pela força, mas pelo terror. E Abias, compreendendo, ordenou o avanço. Não foi mais uma batalha, foi um cumprimento. Judá avançou, e Israel fugiu. A perseguição foi longa e dura, de Betei até as proximidades de Zererá. Cidades foram tomadas, não por saque, mas como testemunho: Betel, Jesana, Efom e seus arredores. A vitória foi absoluta, esmagadora.

Na volta, Abias caminhava pelo campo ainda fumegante. A vitória não tinha o gosto doce que imaginara. Tinha o gosto de sal, o sal da aliança. Ele olhou para os corpos caídos, israelitas em sua maioria, e entendeu que a verdade, quando rejeitada, torna-se um juiz implacável. Jeroboão não morrera naquele dia, mas sua força foi quebrada. A mão do Senhor estava contra ele, e ele nunca mais recuperou o poderio.

Abias entrou em Jerusalém não como um herói triunfante, mas como um homem solene. A narrativa estava completa. As palavras ditas no vale tinham sido validadas pelo silêncio estrondoso da ação divina. A aliança de sal permanecia. E ele, o rei administrador, o contador de portas, soubera, por um momento crucial, levantar a voz para proclamá-la. O resto era silêncio, e a memória daquele som rouco de shofar que havia partido os céus e quebrado exércitos.

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