O sol da tarde lançava uma luz âmbar e poeirenta sobre a planície de Moabe. O calor do dia começava a ceder, mas um peso mais espesso, mais profundo que o calor, pairava sobre o acampamento de Israel. Era um peso de silêncio. O luto pelos trinta dias da morte de Moisés ainda impregnava as tendas, a fumaça das fogueiras e o olhar das pessoas. Um capítulo inteiro havia se fechado com aquele homem subindo o Nebo para nunca mais voltar. E agora, o que seria deles?
Na entrada de uma tenda um pouco afastada, Josué, filho de Num, observava o vai e vem sem realmente ver. Seus olhos, calejados por décadas de deserto, estavam fixos num ponto distante, além do Jordão, onde as sombras começavam a engrossar nas colinas de uma terra que ele conhecia apenas de histórias e espiões. A responsabilidade assentara-se sobre seus ombros como um manto de ferro. Não era uma sensação nova – servir a Moisés como braço direito exigia vigor – mas esta era diferente. Era solitária. Antes, ele carregava ordens. Agora, carregaria o destino.
Dentro da tenda, o cheiro de lã envelhecida e pergaminho era familiar. Sobre um cobertor grosseiro, repousava um rolo de couro, os dizeres sagrados que Moisés deixara. Josué passou os dedos, ásperos e marcados por calos, sobre a superfície. Lembrou-se da voz rouca do profeta, da intensidade daqueles olhos quando transmitia os estatutos. “Seja forte e corajoso”, Moisés dissera a ele, em frente a todo o povo, antes da partida final. A frase ecoava, mas soava distante, como uma promessa feita a outro homem, em outro tempo.
A noite caiu de repente, como costuma acontecer naquela região. Um vento frio desceu das montanhas, fazendo as laterais da tenda estremecer. Josué não acendeu a lamparina. Permaneceu na escuridão, ouvindo os ruídos do acampamento adormecer: o balir esporádico de ovelhas, o murmúrio baixo de sentinelas, o choro sufocado de uma criança. Sua mente revirava os obstáculos: o Jordão transbordando na época da colheita, as muralhas de Jericó que pareciam brotar da própria rocha, os exércitos de reis cananeus unidos pelo medo. E o povo… um povo teimoso, de memória curta, que no deserto ansiava pelas panelas de carne do Egito. Como conduzi-los? Como não falhar?
Foi então, no auge daquele silêncio atordoado, que a Palavra veio. Não como um trovão, não como uma visão espetacular. Veio como uma certeza que se instalou no centro do seu ser, preenchendo os espaços vazios que a dúvida havia cavado. Era uma voz que não soava nos ouvidos, mas na alma, clara e inconfundível como se alguém estivesse ali, na penumbra, sentado à sua frente.
“Meu servo Moisés está morto. Agora, pois, levanta-te, atravessa este Jordão, tu e todo este povo, para a terra que eu lhes dou.”
Josué sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A voz era ao mesmo tempo estranha e mais familiar que a sua própria respiração. Era a voz do Sinai, a voz que falara face a face com Moisés. E agora falava com ele. O peso na tenda mudou; não era mais o peso da ansiedade, mas uma presença tangível, opressiva e fortalecedora.
“Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como prometi a Moisés.”
A promessa desenrolou-se diante de sua mente como um mapa vivo. Do deserto ao Líbano, do grande rio Eufrates até o mar Mediterrâneo, toda a terra dos hititas. Nenhum exército humano poderia se opor ao dono legítimo daquela terra. A promessa era antiga, remontava a Abraão, mas naquela noite, naquela tenda, era nova, fresca, endereçada a ele, Josué.
A voz continuou, e agora havia um tom de comando direto, um alicerce sendo lançado: “Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida. Como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei.”
Aqui estava o cerne de tudo. Não era sobre a habilidade estratégica de Josué, ou sua coragem inata. Era sobre uma presença. A mesma coluna de nuvem e fogo, a mesma glória que habitava no Tabernáculo, estaria com ele. A solidão que o asfixiava dissipou-se como neblina ao sol. Ele não estava herdando apenas uma missão, mas um Companheiro.
“Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que jurei a seus pais dar-lhes.”
A ordem ecoava, mas agora impregnada de um poder novo. A mesma frase dita por Moisés ganhava uma autoridade celestial. A força não viria de seus músculos, mas da fidelidade dAquele que ordenava. A coragem não brotaria da ausência de medo, mas da certeza de que o Deus dos exércitos marcharia à frente.
A voz então fez uma exigência fundamental, o segredo para que a presença permanecesse e o sucesso fosse real: “Tão-somente sê forte e mui corajoso para teres o cuidado de fazer conforme toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; não te desvies dela, nem para a direita nem para a esquerda, para que sejas bem-sucedido por onde quer que andares.”
A lei. O rolo de couro ao seu lado não era um mero memorial. Era o manual do governo, o código da aliança. A prosperidade e o sucesso estavam intrinsecamente ligados à obediência. Não uma obediência mecânica, mas uma que brotasse do coração, uma meditação constante.
“Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido.”
Josué entendeu. Sua liderança não seria apenas militar ou política. Seria espiritual. Sua voz deveria ser um eco constante dos mandamentos de Deus. A meditação não era uma atividade passiva; era uma imersão que transformaria seus julgamentos, suas decisões, seu caráter. A prosperidade prometida era a do propósito cumprido, da missão realizada sob a bênção divina.
Então, como um remate final, a voz soou de novo, lancinante e clara, cortando qualquer hesitação remanescente: “Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares.”
Era uma ordem, uma permissão e uma promessa, tudo fundido numa só verdade. O mandato era divino. A origem da missão tirava o fardo do seu ombro e colocava-o no poder dAquele que enviara.
A presença na tendra pareceu gradualmente se retirar, deixando para trás um silêncio carregado de significado. Josué respirou fundo. O ar noturno que entrava pela fenda da tenda já não parecia frio, mas sim refrescante. Ele se levantou, os joelhos trôpegos, mas o espírito firme. Acendeu a lamparina. A chama vacilou e então estabilizou, lançando sombras dançantes sobre o couro da lei.
Na manhã seguinte, algo havia mudado no acampamento. Não era algo visível, mas sensível. Quando Josué saiu de sua tenda, seu rosto não carregava mais as marcas da noite de angústia. Seus passos eram decididos. Convocou os oficiais do povo, os chefes das tribos. Reunidos, ele os encarou. Sua voz, outrora usada para transmitir a palavra de outro, agora soou com uma autoridade própria, porém humilde, como a de um homem que não fala por si mesmo.
“Preparai provisões, porque dentro de três dias atravessareis o Jordão, para entrardes a possuir a terra que o Senhor vosso Deus vos dá.”
As palavras eram simples, mas o tom era de uma certeza incontestável. Não era um pedido, nem uma sugestão. Era a declaração de um fato que já estava estabelecido nos céus. E naquela certeza, misturava-se um eco do comando que recebera: “Sede fortes e corajosos.”
Os oficiais o olharam. Viram nele, talvez, um reflexo do antigo líder, mas também algo novo. Viram a fé. E responderam como outrora responderam a Moisés: “Tudo quanto nos ordenaste faremos, e aonde quer que nos enviares iremos. Como em tudo obedecemos a Moisés, assim obedeceremos a ti; tão-somente seja o Senhor, teu Deus, contigo, como foi com Moisés.”
Foi o reconhecimento que ele precisava. A transferência de autoridade, abençoada por Deus, era agora confirmada pelo povo. Josué, então, dirigiu-se especificamente às tribos que já haviam recebido sua herança a leste do Jordão – Rúben, Gade e a meia-tribo de Manassés. Lembrou-lhes do acordo: suas famílias e rebanhos poderiam ficar, mas seus homens valentes, armados, atravessariam na vanguarda, até que todo o povo recebesse sua herança.
Eles concordaram prontamente. “Tudo quanto nos ordenaste faremos, e aonde quer que nos enviares iremos. Como obedecíamos a Moisés em tudo, assim obedeceremos a ti.”
O acampamento, então, despertou não para o luto, mas para os preparativos. Um novo ritmo tomou conta. O som de afiação de ferramentas e armas substituiu os murmúrios. O cheiro de fumaça agora misturava-se ao odor de comida sendo salgada e seca para a jornada. O povo olhava para o oeste, para o Jordão intransponível, e não mais com terror, mas com uma expectativa contida. A promessa era real. Deus havia falado. E Josué, aquele homem de semblante sério e passos firmes, era a prova viva disso.
Enquanto o sol daquela nova tarde começava a declinar, banhando as águas turbulentas do Jordão em tons de ouro e ferrugem, Josué retirou-se por um momento. De pé num pequeno outeiro, ele olhou para a terra prometida. As sombras alongavam-se sobre vales e colinas, escondendo fortalezas e cidades. Ele não sabia os detalhes dos combates, as táticas de cada cerco. Mas sabia, com uma certeza mais sólida que a rocha sob seus pés, que Aquele que fizera a promessa era fiel para cumpri-la. A jornada do deserto terminara. A jornada da conquista estava prestes a começar. E ele não estava sozinho. “Sê forte e corajoso.” A ordem agora não era um fardo, mas um estandarte. Ele respirou o ar da promessa, e seu coração se encheu de uma paz beligerante. Amanhã, os preparativos continuariam. E depois de amanhã, o Jordão os esperava.




