Bíblia em Contos

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O Regresso do Primeiro Amor

O vento noturno que descia das colinas de Círtima trazia um cheiro acre de cinza e maresia, misturando-se ao odor do azeite das lamparinas que tremulavam na *stoa* próxima ao portão de Magnésia. Dentro de uma casa simples, de paredes de pedra já negras pela fumaça de décadas, o homem idoso que todos chamavam apenas de *o Presbítero* esfregava os olhos cansados. Os dedos, nodosos e marcados pelo tempo, percorreram o rolo de couro à sua frente, mas as palavras pareciam dançar à luz vacilante. Ele não lia mais; conhecia cada traço daquela mensagem de cor. A voz de João, agora distante como um eco de outra era, ainda parecia sussurrar em seu ouvido interno.

Era uma carta. Uma daquelas sete que circulavam entre as comunidades, copiadas à mão, lidas em voz baixa em reuniões noturnas. Esta, dirigida ao anjo da igreja em Éfeso. Ao *anjo*. O velho sorriu, um gesto amargo que não chegou aos olhos. Anjo. Mensageiro. Talvez ele mesmo fosse esse anjo desgastado, aquele que deveria levar a palavra, sustentar a verdade. E a verdade, naquela noite, pesava como um moinho de pedra amarrado ao pescoço.

Ele se levantou, e os ossos protestaram com um rangido seco. Caminhou até a abertura que servia de janela. Lá fora, Éfeso dormia e vigiava. A grandiosa Artemísia, uma das maravilhas do mundo, impunha sua silhueta escura contra um céu salpicado de estrelas frias. A cidade era um caldeirão: comerciantes de toda a Ásia, filósofos cínicos pregando nos cantos, sacerdotes eunucos da deusa vendendo amuletos, judeus discutindo na sinagoga, e agora, esses novos grupos que falavam de um Cristo crucificado e ressuscitado. Uma mistura perigosa, fértil para heresias.

E eles haviam trabalhado. Como haviam trabalhado. O Presbítero lembrava-se dos primeiros dias, quando Paulo ainda ensinava na escola de Tirano. O fervor era um fogo que aquecia até o mais cético. Eles compartilhavam tudo, oravam até perder a voz, enfrentavam o escárnio nas ruas com uma alegria desconcertante. Testavam os que se diziam apóstolos, como a carta dizia, e encontraram muitos falsos. Nicolaitas? Sim, esse grupo insidioso que pregava uma liberdade licenciosa, uma acomodação com os ritos pagãos para evitar conflito. Eles os haviam detestado, exposto, rejeitado. A ortodoxia estava intacta. A doutrina, pura.

Ele voltou ao banco, e seus olhos fixaram-se em uma frase, como se as letras se tivessem gravado a fogo no ar: “*Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.*”

Um calafrio percorreu sua espinha, não do frio, mas de um reconhecimento profundo e devastador. O barulho do mercado, os debates teológicos, a satisfação silenciosa de ter vencido mais uma discussão com um pregador itinerante suspeito… tudo isso de repente soava oco. Como o som de um címbalo de bronze, estridente e vazio.

Lembrou-se de Priscila. Não a mestra respeitada, companheira de Áquila, mas a mulher que, anos atrás, chorara de gratidão simples quando ele, então um jovem cheio de ímpeto, lhe levara um pedaço de pão e uma palavra de consolo durante uma febre que assolou a cidade. Lembrou-se de Marcos, o tintureiro, cujas mãos sempre manchadas de púrpura erguiam-se em adoração com uma simplicidade que contaminava a todos. Onde estava aquela alegria contagiante? Onde estava aquele amor *por eles*, pelos irmãos, pela própria figura do Cristo, que era mais do que uma série de afirmações corretas?

Agora, o amor tinha se transformado em dever. A fé, em vigilância doutrinária. A comunidade, em uma fortaleza sitiada, onde cada um era primeiro um soldado em guarda, e só depois um irmão. Eles não tinham desistido. Suportaram provações, foram perseverantes. Mas a perseverança tinha se tornado rígida, áspera como a pedra das muralhas. O primeiro amor, aquele impulso generoso, sacrificial, alegre e um pouco desordenado do início, fora sufocado pela rotina da defesa da verdade.

O velho enterrou o rosto nas mãos. A acusação não vinha de um inimigo, mas d’Aquele que segurava as sete estrelas e caminhava no meio dos candeeiros. Aquele que via tudo. E via que o candeeiro de Éfeso, embora ainda no lugar, ardia com uma chama disciplinada, controlada, mas sem o calor que derrete o coração de gelo.

A mensagem não era de condenação sem apelo. Havia um caminho de volta. “*Lembra-te de onde caíste! Arrepende-te e pratica as obras que praticavas no princípio.*” Lembrar. Não era uma ordem para inventar algo novo, mas para voltar ao essencial. Às tais obras do princípio, que nasciam não do dever, mas do amor transbordante.

Ouvia-se, ao longe, o choro de um bebê em alguma casa vizinha. Um som humano, frágil, que falava de vida e necessidade. Talvez ali, naquela simplicidade, estivesse uma chave. O Presbítero respirou fundo. Amanhã, ao romper do dia, ele se reuniria com os outros. Não para examinar outra doutrina suspeita, mas para falar do esquecimento. Da saudade de Deus. Proporiam talvez visitar os doentes, não como uma tarefa da lista, mas com o tempo e a atenção que tinham no princípio. Reunir-se-iam para partir o pão, e antes de discutir qualquer carta ou profecia, simplesmente se lembrariam das históras dos primeiros dias, das conversões surpreendentes, da graça que os pegara desprevenidos.

E a promessa ecoou em seu espírito, suave e poderosa como o som de muitas águas: “*Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.*” O paraíso não era apenas um destino futuro. Era um sabor, um aroma da presença de Deus, que podia ser antecipado aqui, mesmo em Éfeso barulhenta e idolatra, se o primeiro amor fosse reacendido. Não um fogo de palha, rápido e espetacular, mas uma brasa constante, que aquece e transforma tudo ao seu redor.

O vento mudou, trazendo agora o cheiro doce das figueiras dos campos distantes. O Presbítero enrolou cuidadosamente o couro. A luz da lamparina, agora mais estável, iluminou seus olhos, onde uma lágrima teimosa tecia seu caminho pela ruga profunda da bochecha. Não era de tristeza apenas. Era de reconhecimento. A palavra tinha achado seu alvo. E, naquela noite, no silêncio de uma casa em Éfeso, começava um lento e doloroso regresso a casa.

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