Bíblia em Contos

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Bíblia

O Descanso de Mateus

O sol da tarde pesava sobre os ombros de Mateus como um manto de chumbo. Ele fechou os livros de contabilidade, a poeira do escritório parecendo grudar não só na mobília envelhecida, mas dentro de sua própria alma. Um cansaço antigo, que nem oito horas de sono apagavam, habitava seus ossos. Era uma fadiga do espírito, uma sede de algo que ele não sabia nomear. Desceu as escadas do prédio comercial e se perdeu no vaivém das ruas de São Paulo, mas o burburinho era apenas um ruído distante, um cenário que não o tocava.

Seus passos, quase sem querer, o levaram até a pequena capela no largo, um refúgio de pedra e silêncio em meio ao caos. Entrou. A penumbra era fresca e cheirava a cera e madeira envelhecida. Não havia ninguém. Sentou-se num banco ao fundo, e o vazio do lugar ecoou o vazio que sentia. Foi então que seus olhos, acostumados à meia-luz, distinguiram uma Bíblia aberta sobre o altar de lado, deixada talvez por algum vigia ou por um fiel distraído. Aproximou-se, movido por uma curiosidade mansa. A página aberta era da Carta aos Hebreus. Um versículo saltou-lhe à vista, não como letra morta, mas como uma voz clara no silêncio: “Resta ainda um descanso sabático para o povo de Deus.”

A palavra “descanso” cravou-se nele. Descanso. Não era isso o que sua alma gritava em surdina? Ele, que corria desde a infância no interior da Bahia, primeiro atrás de bola no campinho de terra, depois atrás de notas, de emprego, de status, de reconhecimento. Uma corrida sem linha de chegada. Sentou-se novamente, a Bíblia agora em suas mãos, e leu todo o capítulo quatro. A linguagem era densa, antiga, mas algo nela pulsava com uma estranha atualidade.

A narrativa falava de um repouso prometido, um descanso que era mais do que a ausência de trabalho. Falava dos israelitas no deserto, que, mesmo tendo ouvido as grandes promessas, não entraram no descanso de Deus por causa da descrença. “A palavra da promessa”, refletiu Mateus, “não lhes aproveitou, por não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram.” Havia uma dureza nisso, uma realidade cortante. A promessa estava lá, generosa e aberta, mas exigia um passo de confiança para se tornar real. E eles, com medo dos gigantes de Canaã, com saudades das panelas do Egito, preferiram a escravidão conhecida à liberdade desconhecida. O coração deles era um deserto árido, incapaz de receber a chuva da promessa.

Mas o texto seguia, e a ideia se aprofundava, se tornava mais misteriosa e mais bela. Esse descanso não era apenas a Terra Prometida, um lugar geográfico conquistado pela espada. Josué, afinal, conduzira o povo a Canaã, e ainda assim, séculos depois, o salmista falava de um outro dia, de um “hoje”, no qual se devia ouvir a voz de Deus e não endurecer o coração. Logo, havia um descanso que transcendia a conquista militar, que sobrevivia às fronteiras e aos templos de pedra.

Mateus ergueu os olhos para a imagem simples do Crucificado à frente. A luz fraca do vitral tingia os pés de Cristo com um tom sanguíneo. E então entendeu, ou começou a entender. O “descanso sabático” era uma realidade que encontrava seu sentido pleno na pessoa de Jesus. O sábado dos judeus, o sétimo dia, era uma sombra, um sinal apontando para algo maior. Era um intervalo sagrado que falava de uma obra terminada. E a grande obra, a obra definitiva da redenção, fora consumada não por mãos humanas, mas por Ele, na cruz. “Aquele que entra no descanso de Deus”, dizia o texto, “também descansa das suas obras, como Deus descansou das suas.”

Uma profunda comoção tomou conta dele. Descansar das suas obras. Não era uma licença para a indolência, mas para a paz. Era o fim da corrida frenética para se autojustificar, para construir uma identidade sobre os próprios feitos, para conquistar um lugar no mundo através do cansaço. Era o convite para confiar que a obra verdadeiramente importante – a de reconciliar o homem com Deus – já estava completa, assinada com o sangue que agora via refletido no vitral. Era um descanso que se entrava pela fé, um repouso na fidelidade de outro, não na própria.

Ele leu a parte final, que falava da Palavra de Deus como viva, eficaz, mais cortante que espada de dois gumes. E sentiu a precisão desse corte na própria alma. A palavra não era um amontoado de letras na página; era um agente ativo, que penetrava até dividir juntas e medulas, expondo os pensamentos e intenções do coração. Naquela capela vazia, ele se sentiu nu diante daquele olhar que a palavra manifestava. Todo seu cansaço, suas ansiedades secretas, sua busca por signficado em lugares frágeis, tudo estava patente. Mas a exposição não era cruel; era cirúrgica, necessária. Porque só o que é exposto pode ser curado. E diante d’Aquele a quem devemos prestar contas, ele não sentiu o pavor do réu, mas o alívio do filho que finalmente para de correr e se entrega, exausto, aos braços do Pai.

O crepúsculo começava a pintar os vitrais de cores mais densas quando Mateus saiu. A cidade era a mesma, o trânsito, o barulho. Mas algo mudara. O cansaço nos ombros ainda estava lá, físico, mundano. Mas dentro do peito, onde antes havia um deserto árido, brotava uma fonte tranquila. Não era euforia, não era uma solução mágica para os problemas do dia seguinte. Era um descanso. O descanso de saber que a corrida mais importante já tinha um vencedor, e que ele, Mateus, podia agora caminhar, não mais correr. Podia trabalhar, não mais se escravizar. Podia falhar, sem desesperar. Havia um “hoje” permanente, um agora aberto pela fé, onde a voz de Deus ainda ecoava, convidando para esse repouso. E ele, finalmente, com um coração simples de quem não quer mais ser gigante, apenas um filho, decidiu entrar.

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