Bíblia em Contos

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O Galho Inútil

O sol da tarde pesava sobre Jerusalém como uma mão opressora. O ar, carregado de poeira e do cheiro seco das pedras, não trazia alívio. Na sombra estreita de sua casa, Amazias observava as mãos calejadas, marcadas pelos anos de trabalho com a madeira. Era um homem simples, um carpinteiro que conhecia o valor das coisas pelo seu uso, pela sua resistência. Naquele dia, porém, sua mente não estava nos encaixes nem nas juntas, mas num vazio estranho que o profeta Ezequiel, lá no exílio, havia semeado em seu coração através das palavras que corriam de boca em boca.

Ele se levantou, inquieto. A lembrança era de uma frase seca, direta, que parecia não ter a grandeza dos oráculos sobre querubins ou vales de ossos secos. Algo sobre uma videira. Uma videira inútil. Com um suspiro, saiu para o terreiro, onde uma pilha de lenha aguardava. Era madeira de videira, ramos retorcidos e nodosos que ele próprio cortara de uma parreira velha que já não dava frutos. Serviriam apenas para o fogo.

Sentou-se num banco áspero e pegou um dos galhos. Era leve, quebradiço, cheio de curvas imprestáveis para qualquer trabalho. Não se podia fazer uma viga com aquilo, nem uma haste firme para uma ferramenta. A madeira era frouxa, porosa. Ele a virou nas mãos, seus dedos encontrando os sulcos e as protuberâncias. “Qual a vantagem da madeira da videira sobre qualquer outra madeira?”, a pergunta do Senhor, através do profeta, ecoou em seu pensamento com uma clareza perturbadora.

Um galho de cedro, ele pensou, olhando para a viga mestra de sua porta. Aquilo sim. Reto, resistente, aromático. Servia para construir palácios, templos. Até um simples galho de cipreste ou de carvalho tinha sua dignidade, seu propósito definido. Mas a videira… sua única glória era o fruto. Se não dava uvas, era apenas um emaranhado de gravetos. E aqueles galhos em suas mãos estavam mortos, secos, estéreis.

Sua mente, acostumada à lógica prática dos ofícios, começou a seguir o fio da alegoria com uma dor crescente. Ele não era um príncipe, nem um sacerdote. Era um homem comum de Judá. Mas sentiu, naquele instante, o peso da metáfora. Jerusalém era a videira. Eles, o povo, eram os ramos. E qual era o fruto que haviam dado? Infidelidade. Injustiça. Alianças perversas com potências estrangeiras, como um ramo tentando se enganchar em qualquer suporte, não para dar mais fruto, mas apenas para sobreviver de qualquer jeito.

Amazias fechou os olhos e viu, não com os olhos da carne, mas com os do espírito, a cena que as palavras de Ezequiel pintavam. Ele viu os dois extremos da inutilidade. Primeiro, o artesão. Pegava aquele galho torto e tentava, em vão, fabricar algo útil. Talvez uma cavilha? Quebrava. Uma alça? Entortava. A madeira traía, cedia, rachava. Ela não tinha fibra para ser transformada em algo novo. Era o que era: um pedaço de sarmento seco.

Depois, viu o segundo destino. O fogo. Era para isso que servia. E não uma vez só. Ele viu, na visão interna, as chamas lamberem o galho, consumindo-o rapidamente, deixando apenas um carvão frágil e negro. E então, alguém pegando aquele carvão, aquele resto negligenciável, e atirando-o de volta ao fogo, para que até as cinzas fossem devoradas. Nem para brasa duradoura servia. Era combustível descartável, de queima rápida e completa.

Um calafrio percorreu seu espinhaço, mesmo sob o calor. Aquele não era um oráculo sobre nações distantes. Era sobre a casa de Israel. Era sobre Jerusalém, que ele amava, cujos muros via ao longe. Era sobre ele mesmo. A videira escolhida, plantada em solo fértil, regada com a Lei e as promessas. E, no fim, tinha se revelado, em sua essência, sem valor algum se separada do propósito para o qual fora criada: dar frutos de justiça e fidelidade.

Ele deixou o galho cair no chão, onde se partiu em dois com um estalo seco. O som foi definitivo. Olhou para a cidade. A magnífica Jerusalém, filha de Sião, cheia de história e templos, parecia, naquele momento, frágil como aquele graveto. Toda sua beleza, todo seu orgulho, se não fossem fundamentados em algo mais profundo que rituais e pedras lavradas, seriam consumidos. E não restaria nada. Nem mesmo uma brasa para contar a história. Seriam lançados ao fogo da invasão, da destruição, do exílio, e sua memória seria dissipada como fumaça.

A teologia ali não era complexa, era terrivelmente simples e agrícola. Era a lógica do lavrador que limpa sua vinha. Um ramo que não produz é um roubo de sol, de nutrientes, de espaço. É um perigo, pois pode espalhar doença. É cortado, amontoado e queimado. A ira de Deus, compreendeu Amazias com uma clareza que o deixou sem ar, não era um capricho vingativo. Era a consequência natural da inutilidade deliberada. Era o dono da vinha fazendo o que qualquer bom agricultor faria.

O crepúsculo começou a descer, tingindo as pedras de Jerusalém com um dourado melancólico. Amazias entrou em casa. O galho partido ficou para trás no terreiro. Naquele dia, ele não viu apenas lenha para o fogão. Viu um juízo. Viu uma verdade nua e crua: que não há santidade na simples existência. Que ser o povo eleito, a videira do Senhor, era uma responsabilidade tremenda, não um título honorífico. E que, sem o fruto que vem da raiz da fé e da obediência, eles não eram melhores – eram até piores – que qualquer outro galho qualquer da floresta do mundo. Pois a videira queima mais rápido, e seu fumo é mais amargo.

Na quietude da noite que se aproximava, ele orou. Não com palavras elaboradas, mas com o silêncio pesado de quem acabara de tocar, com as próprias mãos, no próprio coração, a textura áspera e inútil de um ramo destinado ao fogo. E, naquela dor, talvez, começasse a brotar, frágil e tenra, a primeira raiz de um novo entendimento.

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