Bíblia em Contos

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O Lamento do Profeta em Jerusalém

O sol da nona hora batia forte sobre as pedras de Jerusalém, um calor branco e pesado que fazia tremer o ar acima dos telhados. O cheiro era uma mistura de poeira seca, excrementos de animais e o dulçor pesado de alguma flor murchando à sombra escassa de um muro. Subia a ladeira em direção ao Templo, mas não pelo caminho dos peregrinos. Escolhia as vielas laterais, onde a sombra era mais longa e o olhar dos comerciantes, menos insistente.

Minhas sandálias levantavam pequenas nuvens de pó. A cidade parecia adornada para a morte. Nos mercados, a voz dos vendedores anunciava tecidos finos da Fenícia e especiarias de terras distantes com um fervor quase religioso. Riam alto, contavam piadas obscenas sobre os egípcios, brindavam com vinho forte à saúde do rei. Havia uma certeza no ar, espessa como a gordura que escorria dos assadores de carne. A certeza de que nada mudaria, de que os muros eram altos, o exército, forte, e o favor de Yahweh, uma herança permanente, como a cor de seus olhos.

E no meio daquele burburinho, uma voz dentro de mim se agitava, um enxame de abelhas furiosas preso entre os ossos do peito. As palavras de Yahweh queimavam minha língua antes mesmo de serem pronunciadas. Era como se eu visse o que eles não viam: não os panos coloridos, mas as futuras vestes de saco; não a fumaça dos sacrifícios, mas a fumaça negra de incêndios vindouros.

Parei perto de um portão, onde um grupo de escribas discutia uma pontuação num texto da Lei. A discussão era acalorada, cheia de citações e nuances. Homens sábios. Homens que conheciam cada linha, cada ponto. E, de repente, a pergunta veio à minha mente, não como minha, mas como um golpe direto do Céu:

*Por que este povo teimoso de Jerusalém vive numa apostasia perpétua?*

A palavra “teimoso” ecoou. Não era um desvio casual. Era uma adesão, uma cola. Agarravam-se à falsidade como a criança se agarra ao umbral da porta, recusando-se a entrar para o jantar.

Olhei para aqueles homens letrados. Eles conheciam o juízo do Senhor. Tinham-no escrito, copiado, decorado. E, no entanto, não havia tremor em suas vozes, apenas a satisfação seca do debate intelectual. Era isso. Aquele era o câncer. O conhecimento sem conversão. A sabedoria que parava nos lábios e nunca descia para torcer as entranhas. Não se arrependiam do mal, não havia um só que dissesse ‘O que foi que fiz?’. Cada um seguia seu curso, como um cavalo que se lança cegamente na batalha.

Uma imagem me assaltou, vívida e dolorosa: a cegonha no céu. Todo ano, naquele mesmo tempo, ela conhecia as estações, as migrações, os caminhos do ar. Até os animais errantes sabem o tempo de voltar para casa. Mas o meu povo não conhecia o juízo do Senhor. Tinham trocado as ordenanças por ídolos mudos, a aliança por um espelho quebrado.

Cheguei ao pátio exterior do Templo. O cheiro de sangue e cinzas era mais forte. Os sacerdotes moviam-se com eficiência ritual. O povo vinha, entregava sua oferta, cumpria seu dever. Mas os olhos… os olhos eram vazios, percorrendo o pátio como quem olha para um lugar comum. Ofereciam curativos para uma ferida mortal, pensando que era apenas um arranhão. Diziam ‘Paz, paz’, quando não havia paz.

Uma náusea subiu na minha garganta, não do estômago, mas da alma. Será que eles sentem vergonha de suas abominações? A resposta veio, amarga como fel: Não, nem mesmo vergonha sabem sentir. Cairão entre os que caem, serão derrubados no tempo do seu castigo.

O que restava colher? As uvas já haviam passado da época. As folhas da figueira à minha frente estavam murchas, sem seiva, penduradas como trapos num galho morto. A promessa de fruto havia passado, e só restava o esqueleto da árvore. Assim era Judá. O tempo da paciência de Yahweh havia findado. A seiva da graça havia secado.

Ouvi um riso alto. Um grupo de jovens passava, falando dos preparativos para uma festa no palácio. Seus rostos eram lívidos sob o sol, belos e vazios. E então, como se uma cortina se rasgasse, vi o que viria. Não com os olhos da carne, mas com os olhos do espírito. Campos silenciosos, sem o canto dos ceifeiros. Cidades em ruínas, habitadas pelo sibilar do vento nos escombros. E um silêncio tão profundo que seria possível ouvir o último suspiro de uma nação.

Por um instante, o desespero quis me engolir. A tarefa era fútil. Era como gritar para surdos em meio a um terremoto. Minha cidade, a cidade de Davi, de Salomão… transformada em um deserto. E a pergunta final, a mais angustiante, brotou como um lamento:

*Porventura não há bálsamo em Gileade? Ou não há lá médico?*

Há. Sempre houve. O bálsamo, o médico, estava ali, no Santo dos Santos, no coração da própria cidade que O rejeitava. A cura estava disponível, próxima, oferecida repetidamente. Mas não há remédio para quem nega a própria enfermidade. Não há médico para quem se declara são.

O sol começava a declinar, alongando as sombras de forma grotesca. O ouro do Templo brilhou por um momento, um último lampejo antes de ser engolido pela penumbra. Eu me virei para deixar aquele lugar. Os passos eram lentos, pesados. A agitação da cidade diminuía, substituída por uma ansiedade noturna. E dentro de mim, só restava o eco de uma verdade terrível e doce, a única coisa real em meio a todo aquele engano: a palavra que não volta vazia. Ela havia sido proferida. E agora, como a semente que cai na terra, cabia apenas esperar o seu fruto. Amargo, inevitável, e santo.

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