Bíblia em Contos

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O Banquete da Revelação Final

O terceiro banquete havia começado sob uma atmosfera carregada. O ar no pavilhão real, impregnado com o aroma do vinho de Helbom e das especiarias da Índia, pareça mais denso que o habitual. O rei Assuero reclinava-se sobre os coxins de púrpura, seu rosto iluminado pela luz suave das lamparinas de óleo, mas seus olhos, usualmente pesados pelo vinho e pela autoridade, estavam curiosamente atentos. Hamã, à sua direita, tentava manter uma postura de deferência, mas seus dedos apertavam o cálice de prata com uma força que embranquecia as juntas. Ele sorvia o vinho sem sentir seu sabor, seu pensamento fixo na forca erguida para Mordecai, aquela silhueta negra contra o céu poeirento da cidade. A imagem lhe trazia um alívio amargo, um antídoto para a humilhação daquele dia.

Ester, por sua vez, estava serena. Suas vestes reais não pesavam sobre seus ombros naquela noite. Ela observara os dois homens, leu a ansiedade em Hamã como um escriba lê um papiro, e viu a centelha de curiosidade no olhar do rei. O momento havia chegado. Os eunucos serviram pratos de faisão guarnecidos com romãs, mas poucos foram tocados.

O rei quebrou o silêncio, sua voz um tanto áspera pelo vinho, mas direta. “Qual é a tua petição, rainha Ester? Ser-te-á concedida. E qual é o teu desejo? Ainda que seja metade do reino, cumprir-se-á.”

Ela respirou fundo. O perfume do mirto e do açafrão que queimavam em um braseiro próximo envolveu-a. Suas palavras, quando saíram, não foram um grito, nem um lamento teatral. Foram claras, medidas, carregadas de um peso que fez o próprio ar parar de vibrar.

“Se achei graça aos teus olhos, ó rei, e se parecer bem ao rei, concede-me a vida, eis a minha petição; e o meu povo, eis o meu desejo.”

Assuero inclinou-se para a frente, lentamente. As palavras dela não se encaixavam em nenhum protocolo conhecido. “A tua vida? O teu povo?” Ele repetiu, como se tentasse decifrar um enigma.

“Porque fomos vendidos, eu e o meu povo”, continuou Ester, e agora sua voz ganhou uma textura diferente, um fio de angústia real que não era possível fingir. “Para sermos destruídos, mortos e aniquilados. Se fôssemos vendidos por escravos e escravas, teria calado, ainda que o adversário não compensasse o dano do rei.”

O efeito foi lento e terrível. Assuero não rugiu imediatamente. Seu rosto perdeu a cor sob a barba cuidadosamente aparada. Seus olhos, agora totalmente límpidos, fixaram-se nela, depois vagaram pelo aposento, como se vislumbrando uma traição nas sombras das colunas. A menção de “dano do rei” tocou em algo profundo: a ideia de um prejuízo ao seu tesouro, à sua ordem, era um veneno para a mente de um soberano absoluto.

“Quem é esse? Onde está esse que tem ousado no seu coração a fazer tal coisa?” A pergunta saiu sibilante, carregada de uma fúria que estava apenas começando a ferver.

Ester então levantou os olhos. Não apontou com o dedo. Sua postura inteira se voltou para o homem sentado ao lado do rei. Seu olhar, uma mistura de terror resoluto e acusação silenciosa, foi mais eloquente que qualquer gritaria.

“O homem adversário e inimigo”, disse ela, e cada palavra era como uma pedra sendo colocada em uma balança, “é este mau Hamã.”

Hamã ficou petrificado. O cálice em sua mão tremeu, e um fio de vinho tinto escorreu como sangue sobre sua tunica imaculada. Seu mundo, tão meticulosamente construído sobre favores reais e ódios secretos, desmoronou naquele instante. Ele viu o rosto do rei se transformar. A fúria que antes era uma possibilidade distante materializou-se nos olhos de Assuero, que se voltaram para ele não como para um primeiro-ministro, mas como para um verme que se arrastara para o trono.

O rei, em um movimento brusco, levantou-se e saiu para o jardim do pavilhão, seus mantos arrastando-se com furor contido sobre os tapetes. A tempestade precisava de um momento para se organizar. Hamã ficou sozinho com a rainha, e o terror o dominou completamente. Ele viu a sentença de morte não apenas na lei, mas no silêncio gelado que se instalara. Desesperado, quebrou todo protocolo. Arrastou-se do seu lugar e caiu aos pés do leito onde Ester reclinava, suplicando, suas palavras um emaranhado de pedidos de perdão.

Foi nessa cena de abjeção total que o rei voltou do jardim. E viu: Hamã, o homem que horas antes planejara o extermínio de um povo, agora caído sobre o leito da rainha, suas mãos talvez tocando seus véus, seu corpo invadindo o espaço sagrado da consorte real. A visão foi a centelha final.

“Porventura queres também violentar a rainha perante mim, nesta casa?” A voz de Assuero ecoou, não mais contendo fúria, mas uma condenação glacial.

Mal as palavras foram ditas, antes mesmo que Hamã pudesse gemer uma negação, os eunucos que estavam às sombras, percebendo a virada irrevocável do poder, agiram. Harbona, um deles, adiantou-se. Seu rosto era inexpressivo, mas seus olhos eram rápidos.

“Eis que a forca de cinquenta côvados de altura que Hamã fizera para Mordecai, que falou em defesa do rei, está junto à casa de Hamã”, disse Harbona, sua voz neutra como a de um relator. Foi a última peça no tabuleiro. A ironia era tão cruel e perfeita que nem exigia comentários.

“Enforcai-o nela”, ordenou o rei, sem hesitar.

E assim foi. A fúria do rei acalmou-se, substituída por uma satisfação sombria e judicial. A mesma estrutura que Hamã erguera para manifestar seu ódio por um único homem, e por extensão, por todo o povo daquela mulher, tornou-se o instrumento de sua própria ruína. A justiça, naquele império de decretos irrevogáveis, encontrou um caminho sinuoso para se manifestar. E naquele dia, o silêncio que caiu sobre o banquete não era mais de tensão, mas de um espanto solene, enquanto a notícia começava a se espalhar pela cidadela de Susã, de que o vento havia mudado, e que as sombras alongadas da tarde agora cobriam um corpo diferente no madeiro junto à casa de Hamã.

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