A coisa começou com um sussurro que parecia brotar da própria terra seca. Não era um sussurro de gente, mas um rumor que corria entre os soldados, pelos arraiais de Davi, até encontrar eco no coração do próprio rei. A Arca. A Arca de Deus estava em Quiriate-Jearim, numa casa de homem comum, esquecida como um móvel antigo numa despensa. Esse pensamento não dava sossego a Davi. Ele sentia, com uma pontada no peito, que enquanto o símbolo tangível da presença do Senhor ficasse à sombra, seu reinado, por mais consolidado que pareça, teria algo de provisório, como uma tenda mal amarrada contra o vento do deserto.
A convocação foi de alegria contida. Trinta mil homens escolhidos, o melhor de Israel, reuniram-se. Não para a guerra, mas para uma procissão. Davi via os rostos confusos, alguns orgulhosos, outros apenas curiosos. Ele próprio não sabia direito explicar o fervor que o consumia. Era algo visceral, um desejo de trazer Deus para perto, de ter a certeza daquela presença majestosa e terrível não em palavras ou memórias, mas em um objeto de madeira e ouro que os olhos pudessem ver.
A descida até a casa de Abinadabe, em Baalá, foi quase festiva. O sol batia forte nas colinas, e o pó levantado pelos pés de milhares tingia o ar de um dourado sujo. Quando avistaram a casa simples e, dentro, a Arca coberta de pó sagrado, um silêncio repentino caiu. Até os pássaros pararam de cantar. Havia um peso no ar, um respeito que fazia a garganta secar. Uzá e Aiô, os filhos de Abinadabe, foram designados para guiar o carro de bois novo no qual a Arca seria colocada. Um carro de bois. Davi, na sua ansiedade, não ponderou sobre o significado daquilo. A Lei era clara: a Arca deveria ser carregada nos ombros, pelos varões da tribo de Levi, com varas através de suas argolas. Mas a praticidade, a logística de mover aquela relíquia com uma multidão imensa, falou mais alto. Era um erro que ele só perceberia pelo preço mais caro.
A jornada de volta começou ao som de cítaras, harpas, tamborins, pratos e címbalos. A música era alta, triunfal. Davi, à frente, sentia o coração bater no mesmo ritmo dos tambores. Ele olhava para trás, para o carro que seguia lento e solene, e uma onda de gratidão quase o fazia chorar. Deus estava voltando para o seu povo. Ele, Davi, estava fazendo isso acontecer.
Foi na eira de Nacom que a festa desmoronou.
O terreno era irregular. O carro de bois, pesado com o peso inefável da Arca, balançou perigosamente em uma depressão do chão. Uma das rodas pareceu afundar, e a Arca inclinou-se, ameaçando tombar. O que se passou pela mente de Uzá naquele instante? Pânico, certamente. Um zelo instintivo, profano. Talvez o simples horror de ver o objeto mais sagrado do mundo cair na poeira comum. Ele esticou a mão, a mão nua e mortal, e segurou a Arca para firmá-la.
O golpe foi silencioso e instantâneo. Não houve raio, nem fogo do céu. Apenas um corpo que perdeu toda a força e caiu pesadamente ao lado da roda do carro, os olhos vidrados para o sol que, momentos antes, brilhava sobre uma procissão de alegria. Uzá estava morto. A música parou de um só golpe. O silêncio que veio em seguida foi mais aterrador do que qualquer grito. Era um silêncio gélido, carregado de um terror absoluto. O povo parou, os instrumentos caíram das mãos inertes. Todos olhavam para o corpo no chão e para a Arca, que agora parecia não um objeto de beleza, mas um bloco de pura e perigosa santidade.
A alegria de Davi virou cinza na boca. Ele sentiu um frio que nascia na espinha e se espalhava por todo o corpo. Não era medo de um inimigo, era um pavor santo, primitivo. “Como vai a Arca do SENHOR vir a mim?”, pensou, a frase ecoando em sua mente como um lamento. A presença que ele tão ardentemente desejava era um fogo consumidor. Trazer Deus para perto não era um ato de domesticá-lo, mas de se colocar sob o julgamento da sua pureza absoluta.
A festa acabou. Com um coração apertado e temeroso, Davi ordenou que desviassem o caminho. A Arca não iria para Jerusalém. Não naquele dia. Foi levada, com um cuidado agora medroso e reverente, para a casa de Obede-Edom, um geteu, um estrangeiro de Gate. A multidão se dispersou em silêncio, os trinta mil homens voltando para casa com uma história de terror para contar, em vez de um cântico de vitória.
Por três longos meses, Davi viveu sob uma nuvem. A notícia que vinha da casa de Obede-Edom era sempre a mesma: bênção. Prosperidade inaudita cobria tudo o que era do geteu. Era como se a Arca, que em suas mãos imprudentes trouxera morte, na casa de um estrangeiro transbordasse vida. Esse contraste cortava Davi mais do que qualquer reprovação verbal. Deus não estava bravo com a sua presença; estava bravo com a forma desrespeitosa como foi tratada.
Dessa vez, não houve convocação de exército. Aprendera a lição. Quando a decisão amadureceu em seu espírito, Davi reuniu os sacerdotes, os levitas. Estudaram os velhos rolos, as leis esquecidas. Desta vez, não haveria carro de bois. A Arca seria levantada nos ombros de homens santificados para essa única tarefa. A celebração seria de obediência, não apenas de júbilo.
No dia marcado, uma cerimônia solene precedeu a partida. Davi ofereceu sacrifícios, viu o sangue dos novilhos e dos animais cevados correr, lembrando-se do preço, da mediação necessária. Depois, com os levitas vestidos de linho puro, a Arca foi erguida. E então, e só então, Davi permitiu que a alegria voltasse. Mas era uma alegria diferente. Mais profunda, lavada pelo temor.
A cada seis passos, paravam. Um novilho e um animal cevado eram sacrificados. A jornada era lenta, metódica, uma espiral de adoração e expiação. E Davi, vestido não com suas vestes reais, mas com um simples éfode de linho, como um sacerdote menor, dançava. Dançava com todas as suas forças, girando, saltando, os braços erguidos para o céu. Não era a dança coreografada de um rei para seu povo; era a explosão desgrenhada e pura de um coração transbordante de gratidão e alívio. Deus estava vindo. E desta vez, vinha no caminho certo.
O povo seguia, gritando, cantando, o som das trombetas rasgando o ar. Mas do alto das muralhas de Jerusalém, um par de olhos observava aquela cena não com admiração, mas com um desdém gelado. Mical, filha de Saul, viu seu esposo, o rei, girando e suando como um homem comum, quase vulgar, na sua opinião. Seu coração, já endurecido por antigas desilusões e pelo orgulho ferido de sua linhagem real, viu apenas indecência. Guardou esse desprezo como uma faca.
Quando a Arca finalmente entrou na cidade, colocada na tenda que Davi preparara, foi como se a própria Jerusalém respirasse fundo pela primeira vez. O sacrifício foi feito, ofertas de paz foram distribuídas ao povo, pães, bolos de uvas passas. Foi um dia de fatias grossas de pão e carne para todos, um dia em que a presença de Deus se manifestava não em morte, mas em festa comunal.
Só ao final do dia, exausto e ainda com o cheiro de fumaça dos holocaustos na pele, Davi voltou para abençoar sua própria casa. Foi recebido por Mical, não com água para lavar os pés, mas com veneno para a alma.
“Que bela figura fez hoje o rei de Israel,” disse ela, a voz cortante como sílex, “revelando-se aos olhos das servas de seus servos, como se revela um homem vulgar qualquer!”
O cansaço de Davi evaporou, substituído por uma chama de indignação sagrada. Naquele momento, ele não via uma esposa, via o espírito do antigo reinado, aquele que tratava a Deus como um amuleto real, distante e controlável.
“Foi perante o SENHOR que eu dancei,” respondeu, e suas palavras saíram calmas, mas com a força de uma declaração. “Foi Ele que me escolheu, em lugar de teu pai e de toda a casa dele, para me estabelecer como príncipe sobre Israel, o povo do SENHOR. Perante Ele, me rebaixarei ainda mais, e me tornarei ainda mais desprezível aos meus próprios olhos. Mas daquelas servas de quem falas, destas serei honrado.”
Houve um silêncio pesado entre eles. Mical não encontrou resposta. E o texto diz, com uma sobriedade que é mais condenatória que qualquer gritaria, que ela não teve filhos até o dia da sua morte. Foi uma esterilidade física que refletia uma esterilidade espiritual, o fechamento de um coração ao movimento incontrolável e alegre de Deus.
A Arca, por fim, estava em Jerusalém. Mas Davi compreendera, de um modo que marcaria sua alma para sempre, que o verdadeiromorada de Deus não era uma tenda de peles ou um palácio de cedro. Era um coração quebrantado, obediente e, paradoxalmente, disposto a dançar como um louco de gratidão, mesmo que aos olhos do mundo pareça vulgar. A presença trouxe bênção, mas antes exigiu temor. Trouxe festa, mas depois de uma pausa de três meses de silêncio e reflexão. Era um fogo. E Davi aprendera, da maneira mais dura, a não brincar com fogo. A apenas, com tremores e alegria, se aquecer em sua luz.




