Bíblia em Contos

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A Justiça de Eliabe nos Campos

Era uma tarde quente e pesada no norte de Israel, aquela calmaria abafada que precede a chuva. O ar cheirava a terra revirada e a folhas de oliveira esmagadas. Eliabe, com os braços cheios de lenha fina para o forno, parou no alto da colina para observar seus campos. A colheita das azeitonas estava pela metade, e o cansaço já se entranhava nos ossos dos trabalhadores, homens contratados por um dia, que se moviam lentamente entre as árvores de troncos retorcidos.

Seus pensamentos, porém, não estavam totalmente na colheita. Uma sombra antiga, dessas que se arrastam por anos, pairava sobre ele. Lembrava-se de Maasa, sua primeira mulher. O caso fora triste e confuso. Ele era jovem, impulsivo, e encontrara nela alguma coisa indecente, um desvio no olhar, uma conversa imprópria com um mercador estrangeiro. Não foi adultério, não ao pé da letra, mas algo dentro dele se fechou. Deu-lhe a carta de divórcio, escrita com mão trêmula por um escriba da aldeia, e a mandou embora. Ela partiu, pálida, para a casa do pai. Anos depois, soube que se casara com um homem de Judá. Às vezes, nos dias quietos como este, Eliabe se perguntava se a “coisa indecente” não fora, na verdade, o orgulho ferido de um marido muito novo. A Lei era clara: se ela se casasse de novo, ele jamais poderia retomá-la. Era uma profanação perante o Senhor. Essa barreira final, ele sabia, não era apenas um castigo, mas uma proteção para a mulher, para que não fosse um objeto passado de mão em mão conforme o humor do homem. O remorso de Eliabe era silencioso, um peso seco no peito.

Ao descer a colina, avistou Naor, seu vizinho, batendo à sua porta. Naor estava com as mãos vazias e o rosto tenso.
— Eliabe — chamou, com voz rouca. — Preciso falar.

Era sobre um empréstimo. Naor, em desespero para salvar uma colheita de linho ameaçada por pragas, precisava de um moinho de mão, ou melhor, da pedra de cima. Sem ela, a mulher não podia moer o grão para o pão diário. Penhorar o moinho era como penhorar a própria vida. Eliabe, conhecedor da Lei desde a infância, sentiu as palavras ecoarem em sua mente: “Não se tomará em penhor a mó de cima nem a mó de baixo; pois seria penhorar a própria vida”. Ele não podia tocar naquilo.
— Não, Naor — disse, firme, mas não sem compaixão. — Não tomarei tuas mós. O que tens para oferecer?

Naor, envergonhado, ofereceu seu sobretudo de lã, grosso, usado nos invernos rigorosos. Eliabe aceitou-o como penhor pelo valor do moinho emprestado. Mas quando Naor se virou para ir, já no cair da noite que trazia um frio súbito, Eliabe chamou-o de volta.
— Espera. Leva teu manto. A noite será gelada.

Naor fitou-o, surpreso. A Lei também dizia que se um homem tomasse o manto de outro como penhor, teria de restituí-lo antes do pôr do sol, para que o dono pudesse se cobrir. Eliabe estava indo além. Estava dando o manto antes mesmo de a noite cair. Naor agradeceu com um aceno de cabeça, e nos seus olhos brilhou um alívio que era mais do que gratidão pela lã; era o reconhecimento de que a justiça, às vezes, usa a face da misericórdia.

Os dias seguintes foram de trabalho duro. A colheita das azeitonas avançava. Eliabe supervisionava, mas suas ordens eram sempre as mesmas para os ceifeiros: “Não voltem para apanhar o que ficou para trás. Não sacudam os ramos pela segunda vez. Deixem as azeitonas que caíram no chão, as que ficaram nos galhos mais altos”. Era uma ordem estranha para um homem de negócios. Significava perder lucro. Mas ele a dava com uma convicção quieta. Aquelas sobras eram para o estrangeiro, para o órfão, para a viúva. Lembrava-se de seus próprios pais, mortos por uma febre há muitos anos, e de como a comunidade os sustentara. A Lei não era um fardo seco; era a memória do povo guardada em mandamentos. Quando via os pobres da região, e aquelas famílias migrantes sem terra, vasculhando seus campos após a colheita com olhos famintos e ansiosos, ele sentia que estava cumprindo algo maior do que a si mesmo.

Certa manhã, encontrou um de seus trabalhadores, um rapaz novo chamado Jarede, doente, tossindo à sombra de uma figueira. Soube então, por outros, que o pai de Jarede acabara de falecer, deixando dívidas. A Lei era rápida e severa nesse ponto: não se prenderia um homem por dívidas do pai. Cada um era responsável por seu próprio pecado. Mas Eliabe viu ali não apenas um caso legal, mas uma vida despedaçada. Pagou antecipadamente o dia de Jarede e disse-lhe para voltar para casa, para sua mãe. “Cuida dos teus”, disse, simplesmente. Era mais do que a Lei pedia, mas estava dentro do seu espírito.

A história de Eliabe não era de feitos heroicos. Era feita de pequenas decisões, tomadas sob o sol e sob as estrelas, no campo e no limiar de sua porta. Era a história de um homem tentando viver em um mundo caído, guiado por uma Lei que, ele começava a entender, não era feita de pedra, mas do próprio sopro de Deus — um sopro que pedia justiça, sim, mas uma justiça temperada pela lembrança da fragilidade humana. Quando a última cesta de azeitonas era armazenada e os campos ficavam silenciosos, ele olhava para o horizonte e sentia uma paz áspera. A obediência não lhe trouxera riqueza súbita, mas lhe dera um ritmo, uma dignidade. E nos cantos de seu campo, entre os ramos baixos e o chão irregular, a provisão para os desamparados permanecia, um testemunho silencioso de que a terra, em última instância, pertencia a um Senhor muito maior do que ele.

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