Bíblia em Contos

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O Artesão do Sagrado

O sol da tarde derramou sobre o deserto um ouro pesado e poeirento. Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, sentia o calor do dia a amainar contra sua pele, mas um calor diferente, estranho e íntimo, agitava-se dentro dele desde o amanhecer. Não era o temor que às vezes tomava conta do acampamento inteiro – aquele silêncio espesso que caía quando a nuvem pousava sobre a tenda do encontro. Era outra coisa. Uma inquietação cheia de paz.

Ele estava a lixar um pedaço de madeira de acácia, seus dedos calejados encontrando o grão da madeira com uma familiaridade de sempre. Trabalhar a madeira, o metal, a pedra – era a linguagem que conhecia desde criança. Mas hoje, o ato simples parecia carregado de um peso novo. Olhou para as próprias mãos, sombreadas pelo crepúsculo que se aproximava. Eram mãos de artesão, nem grandes nem delicadas, mas capazes de sentir a vida contida num bloco de madeira bruta.

A voz de Moisés ainda ecoava em seus ouvidos, não como um som, mas como uma vibração no ossos. A convocação não fora espetacular. Moisés descera do monte com o rosto ainda envolto num resplendor inquietante, mas seus olhos buscavam homens específicos no vasto mar de tendas. Encontrara Bezalel perto da forja dos utensílios comuns.

“Bezalel”, dissera, e seu nome soara como uma sentença completa. “O SENHOR te chamou pelo nome.”

Ele se abaixara, pó do chão grudando em seus joelhos tremulhos. O que poderia um homem como ele, um fabricante de carroças e arados, de portas simples e bancos rústicos, oferecer ao Deus que fendera o mar?

Moisés continuara, e as palavras eram como cinzas quentes caindo sobre sua alma: “Eu o enchi do Espírito de Deus, concedendo-lhe habilidade, inteligência e pleno conhecimento em todo tipo de trabalho artesanal: para desenhar e executar obras em ouro, prata e bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalhe em madeira, para realizar toda sorte de obras.”

Bezalel levantara o rosto, confuso. Habilidade, ele tinha. Inteligência para o ofício, também. Mas o “Espírito de Deus”… isso era território de profetas, de homens como o próprio Moisés. Não de um marceneiro.

E então, a revelação que lhe tirou o fôlego: não se tratava de enfeitar um palácio ou forjar armas. Era para construir um santuário. Uma tenda, sim, mas *a* Tenda. Um lugar onde a Glória habitaria. Cada medida, cada material, cada minúcia do propiciatório de ouro puro, da arca de madeira de acácia, dos castiçais de ouro batido, das vestes sacerdotais entrelaçadas de azul, púrpura e carmesim – tudo lhe fora mostrado a Moisés no monte, e agora era depositado em seu espírito, não como uma lista, mas como um sonho desperto, vívido e completo.

Nos dias que se seguiram, Bezalel andava como um sonâmbulo acordado. Via, em visões interiores mais claras que a realidade, a curvatura exata das bases de prata, o brilho das correntezas de ouro nos cortinados. Sentia, nas pontas dos dedos da mente, a textura do linho fino torcido, o peso frio de uma pedra de ônix a ser gravada com os nomes das tribos. Deus, o Supremo Artífice, que modelara Adão do pó e tecera as montanhas, compartilhava agora o projeto de Sua morada terrestre com as mãos de um homem.

E não era só ele. Moisés falara também de Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã. Um tecelão de mãos finas, um mestre em tinturas e desenhos. Já o procurara. Encontrara um homem quieto, de olhos que pareciam sempre avaliar tons e matizes onde outros viam apenas cor. Quando Bezalel começara a descrever, com palavras trôpegas, os véus com querubins trabalhados, os olhos de Aoliabe acenderam-se com um reconhecimento imediato. “Sim”, murmurara o tecelão, seus dedos movendo-se no ar como se já puxassem os fios invisíveis. “Sim, eu vejo.”

Agora, sentado à entrada de sua tenda, Bezalel observava o acampamento de Israel se recolher. Fogueiras cintilavam como estrelas caídas. O murmúrio de milhares de vidas, o cheiro de pão assado e cinza. E ele via, sobreposto a tudo, o santuário que ainda não existia. Não como um fardo, mas como uma semente de luz plantada em seu interior. A honra era avassaladora, sim. Mas mais avassaladora era a graça. O Deus inefável não exigira anjos para tal obra. Escolhera um artesão e um tecelão. Enchera-os não de uma habilidade sobrenatural e alienígena, mas da própria habilidade deles, agora santificada, ampliada, iluminada por dentro. Suas mãos seriam as mesmas de sempre, mas o mover delas seria uma oração.

Moisés também falara do sábado. “Acima de tudo”, dissera, com severidade solene, “guardarão o sábado, pois é um sinal entre Eu e vós, por todas as vossas gerações.” E isso, de alguma forma, completava tudo. O trabalho mais sagrado, a construção da própria casa de Deus, teria sua interrupção sagrada. O santuário seria construído, mas não seria um ídolo. A obra mais importante lembraria a eles, a cada sete dias, que Deus não habita apenas em tendas feitas por mãos humanas. Ele era o Criador que descansara. Eles seriam criadores que descansariam, num eco humilde do ritmo divino.

Bezalel respirou fundo. O ar noturno estava frio agora. Dentro de seu peito, o projeto inteiro parecia pulsar, vivo. Amanhã começaria a recrutar outros artífices, a examinar os tesouros de ouro, prata e tecidos que os egípcios lhes deram ao saírem. Amanhã, as visões começariam a descer para a terra.

Mas agora, era apenas um homem no escuro, com as mãos vazias e o coração cheio de um desígnio santo. Um artesão a quem Deus chamara pelo nome. E, naquela quietude, Bezalel inclinou a cabeça, não em adoração temerosa, mas num assentimento profundo, quase um colóquio entre dois trabalhadores. O Mestre marceneiro do universo e seu aprendiz, prestes a começar, juntos, a obra.

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