Eu, Simeão, um velho escriba de Jerusalém, sento-me aqui sob a figueira murcha do meu pátio, a tinta escura manchando meus dedos trêmulos, e não consigo escrever sobre o que aconteceu sem que meu coração se agite como um pássaro preso. Como relatar o indizível? Começo pelo que sabemos, pelo que todos em Israel esperavam: a Palavra.
Antes mesmo de Abraão, antes do barro de Adão receber o sopro, Ela já era. Não uma palavra escrita em pergaminho, mas a própria Essência de Deus, viva, pulsante, criadora. A mesma que disse “Haja luz” e rompeu as trevas primevas. Essa Palavra estava com Deus, era Deus, e dela surgiram os vales, os cedros do Líbano, o curso do Jordão. A vida que lateja em todas as coisas, a verdadeira luz que ilumina cada homem que vem a este mundo… e que o mundo, ah, o mundo não a reconheceu.
Veio para o que era seu, e os seus não a receberam. E eu, Simeão, estudioso da Lei e dos Profetas, estava entre esses? Talvez. Até que os rumores começaram a chegar do deserto, não pelos portões principais, mas pelas vozes abafadas dos pastores e pelos sussurros dos peregrinos que vinham do vale do Jordão.
Falavam de um homem. João, filho de Zacarias. Não um mestre no pó das sinagogas, mas uma voz. Apenas uma voz, áspera como o vento que castiga as pedras de Judá. Ele apareceu em Betânia, do outro lado do rio, vestido de pelos de camelo, cinto de couro, com um olhar que parecia consumir as aparências. Sua pregação não era suave. Era um machado posto à raiz das árvores. “Arrependei-vos!” gritava, e as pessoas, como que despertas de um longo sono, desciam até ele, confessavam suas culpas, eram imersas nas águas turvas do rio. Eu mesmo fui vê-lo, movido por uma curiosidade ácida. Ele não era o Messias, isso ele gritava com veemência. “Eu não sou o Cristo!” dizia. “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor!” Alguém maior estava por vir, alguém cujas sandálias, dizia João, ele não era digno nem de desatar. Falava com um temor reverente que calava até os fariseus mais loquazes. Que espécie de homem era este, que podia evocar tanta autoridade sobre algo ainda oculto?
E então, um dia, um homem comum chegou à margem do rio. Nem roupas de doutor, nem ar de importância. Vinha da Galileia, Nazaré, diziam. Seu nome: Jesus. Ele se aproximou para ser batizado, como todos os outros. Mas quando emergiu das águas, algo aconteceu que os relatos tentam, em vão, descrever. João viu. Testemunhou depois, com uma convicção que o transformou. Ele viu o Espírito descer do céu como uma pomba e pousar sobre Jesus. E uma voz. Não uma voz qualquer, mas aquele eco primordial da própria Criação. “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” A Palavra, aquele Verbo que estava no princípio, havia se feito carne. Havia se posto de pé, na margem lamacenta do Jordão, com água escorrendo de seus cabelos.
João, a partir daquele dia, passou a apontar. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” Ele dizia: “É este a favor de quem eu disse: depois de mim vem um varão que passou adiante de mim, porque antes de mim ele já existia.” As palavras do profeta Isaías ganhavam peso, forma, rosto. A glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade, estava ali, caminhando sobre a mesma poeira que nós.
Alguns discípulos de João, intrigados, começaram a segui-Lo. Dois foram atrás, hesitantes. Jesus voltou-se e perguntou: “Que buscais?” Eles, sem saber o que dizer, balbuciaram: “Rabi, onde moras?” Ele respondeu: “Vinde e vede.” Foram, ficaram com Ele aquele dia. Era por volta da hora décima. Um deles, André, saiu dali correndo, encontrou seu irmão Simão e disse, ofegante: “Achamos o Messias!” Trouxe-o a Jesus. Jesus fixou os olhos naquele pescador bruto e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas.” Que estranha autoridade, dar um novo nome, como Deus fez com Abrão.
No dia seguinte, Jesus decidiu ir para a Galileia. Encontrou Filipe e simplesmente disse: “Segue-me.” E Filipe seguiu. Foi então que Filipe, tomado por uma certeza repentina, encontrou Natanael, um homem sem falsidade, sentado sob uma figueira, estudando talvez as mesmas escrituras que eu. “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José!” Natanael foi cético: “De Nazaré pode sair algo de bom?” Filipe apenas insistiu: “Vem e vê.”
Quando Jesus viu Natanael se aproximar, disse algo que cortou o ar: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!” Natanael, atônito, perguntou: “Donde me conheces?” E Jesus, com um leve sorriso que muitos depois descreveriam, respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas debaixo da figueira.” Foi o suficiente. Aquele conhecimento íntimo, sobrenatural, quebrantou Natanael. Ele exclamou: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” Jesus então falou palavras que ecoam até agora em meus ouvidos de velho: “Porque te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Verás coisas maiores do que estas.” E então, elevando o olhar para além das paredes de pedra, para o céu que se abria no crepúsculo, acrescentou: “Em verdade, em verdade vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.”
E eu, Simeão, que passei a vida estudando a escada de Jacó, entendi naquele momento, como um golpe de claridade. A Palavra não estava mais distante, nos céus inalcançáveis. Ela havia plantado sua tenda entre nós. A glória que outrora enchia o Tabernáculo agora habitava em um rosto humano. A graça e a verdade, que buscávamos na Lei, nos sacrifícios, nos rituais, nos alcançavam agora através de um olhar, de um convite: “Vinde e vede.”
A tinta seca no pergaminho. Minha mão cansada repousa. A história apenas começou. Mas desde aquele dia, nada mais foi como antes. A Luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Mas alguns, como João, como André, como Natanael… e talvez, timidamente, como eu… começamos a ver. E uma vez que se vê essa Luz, mesmo que de soslaio, toda a escuridão do mundo adquire um novo contorno, esperando o amanhecer.




