A poeira da estrada da Galiléia grudava nos pés, misturada ao suor do fim da tarde. Pedro sentia o peso da caminhada não nos músculos, mas na alma. A conversa, iniciada por uma pergunta despretensiosa enquanto desciam das colinas de Cesaréia de Filipe, havia descambado para um sussurro acalorado. Eles discutiam, tentando disfarçar com passos firmes, sobre qual deles seria o maior no reino que Jesus tanto mencionava. Tiago argumentava com a veemência de quem pescava redes cheias; João, mais quieto, mas com um olhar que não abria mão de seu lugar. Os outros se misturavam, vozes baixas carregadas de ambição e uma ponta de vergonha.
Jesus caminhava à frente, em silêncio. Não era um silêncio vazio, mas denso, como o ar antes de uma tempestade sobre o Mar da Galiléia. Ele sabia. Sabia do debate tolo que fervia no coração deles como um caldeirão mau tampado. Às vezes, Pedro olhava para aquelas costas envoltas no manto simples e sentia um frio na espinha. Era como seguir um homem que carregava um segredo tão grande que mudava o peso do mundo.
Decidiram parar ao pé de um monte, não muito alto, mas íngreme, de pedras nuas e arbustos retorcidos pela seca. O sol começava a se despedir, lançando sombras longas. Jesus então olhou para eles, e seu olhar pareceu passar por dentro de cada um, varrendo a poeira da vaidade. Sem uma palavra, apontou para o cume. “Fiquem aqui”, disse, sua voz era suave, mas não havia espaço para questionamento. “Você, Pedro, você, Tiago, e você, João. Venham comigo.”
Um frio diferente, agora, não de medo, mas de uma solenidade esmagadora, tomou conta dos três. Trocaram olhares rápidos. Por que eles? O que haveria lá em cima? Subiram atrás dele, as pedras soltas escorregando sob as sandálias, o ar ficando mais frio e fino. Nenhum falou. A única música era o som de sua própria respiração ofegante e o vento cortante que assobiava entre as fendas.
No topo, Jesus parou. A vista era deslumbrante: o vale mergulhando em tons de púrpura e ouro, o mundo em miniatura aos seus pés. Mas ninguém olhou para a paisagem. Porque Jesus… mudou. Não foi um truque de luz, não foi o cansaço dos olhos. Foi uma transformação que partiu do seu próprio ser. Suas roupas, comuns e gastas, começaram a brilhar com uma luz que não era do sol poente. Tornaram-se de uma brancura ofuscante, impossível, como a neve que nenhum lavadeiro da terra poderia conseguir. E seu rosto… seu rosto transfigurou-se. A fadiga, as linhas de preocupação, tudo se dissolveu numa radiância que era pura glória. Era como olhar para o sol, mas sem queimar os olhos; era beleza e terror fundidos num só.
Pedro sentiu as pernas bambas. Antes que seu cérebro conseguisse formar um pensamento coerente, viu duas outras figuras ali, conversando com Jesus. Como haviam chegado? Não importava. Ele as reconheceu num relance, não por ter visto seus retratos, mas por uma certeza que brotou das histórias contadas à luz de fogueiras desde a infância. Moisés, o libertador, a lei viva em seus braços. E Elias, o profeta de fogo, cujo ardor parecia ainda pairar em seu olhar. Falavam com Jesus sobre sua partida, que ele iria cumprir em Jerusalém. A palavra em grego ecoou na mente de Pedro: *exodos*. Êxodo. Uma saída. Uma libertação que passava por um caminho de dor.
Então a emoção, confusa e avassaladora, tomou conta de Pedro. O medo, a euforia, a necessidade patética de fazer algo, *qualquer coisa*, para marcar aquele momento, fixá-lo no tempo. “Rabi!”, sua voz soou estridente no silêncio sagrado da montanha. “É bom estarmos aqui! Vamos fazer três tendas: uma para o senhor, uma para Moisés e uma para Elias!”. Mal as palavras saíram, ele percebeu sua insensatez. Estava tratando a glória do Eterno como um festival de cabanas, querendo acampar no meio do sobrenatural. Ele não sabia o que dizia, o terror e o êxtase o haviam emudecido de qualquer sabedoria.
Enquanto ainda falava, uma nuvem desceu, pesada e luminosa ao mesmo tempo, envolvendo-os a todos. Não era uma nuvem de chuva; era uma nuvem de presença. A mesma que guiou Israel no deserto. A escuridão da nuvem era absoluta, e o brilho de Jesus, Moisés e Elias sumiu dentro dela. Um silêncio pavoroso, mais profundo que qualquer som. Então, da nuvem, veio uma voz. Não era um trovão, mas tinha a sua força. Não era um sussurro, mas tinha a sua clareza. Era uma voz que parecia vibrar nos ossos, no espírito: “Este é o meu Filho amado. A ele ouçam.”
De um instante para o outro, a nuvem se dissipou. A luz dourada do fim de tarde voltou a banhar o cume. Só estava Jesus. Apenas Jesus, com suas roupas comuns, seu roosto familiar, mas com um resquício de algo… diferente, nos olhos. Uma paz profunda, mas também uma tristeza infinita. Ele se aproximou e tocou em Pedro, que estava caído de rosto em terra, tremendo incontrolavelmente. Tiago e João igualmente aterrorizados, nem ousavam levantar o olhar. “Levantem-se”, disse Jesus, e sua voz era humana novamente, quente, terrena. “Não tenham medo.”
Ao olhar em volta, viram que estavam sozinhos. A montanha era apenas uma montanha outra vez. A descida foi feita em silêncio total. As palavras da voz ecoavam em suas mentes como um sino de bronze. *A ele ouçam*. O que significava ouvir aquele homem agora, depois de terem visto… aquilo? Jesus quebrou o silêncio com uma instrução seca: “Não contem a ninguém o que viram, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos.” Ressurreição? A palavra pairou no ar, incompreendida. Eles discutiam entre si o que seria “ressuscitar dentre os mortos”, mas o medo de perguntar diretamente a Jesus os calava.
Quando se aproximaram do acampamento na base, encontraram uma cena de caos. Uma pequena multidão se aglomerava, os outros nove discípulos no centro, argumentando com alguns escribas que tinham rostos afiados e olhos críticos. No meio da confusão, um homem, seu rosto marcado pela angústia, gritava por Jesus. Segurava pelas mãos um jovem, talvez seu filho, que se debatia no chão, os olhos revirados, a boca emitindo sons guturais, a espuma tingida de sangue escorrendo pelo queixo. O rapaz se contorcia, jogando-se contra as pedras e a cinza do fogo apagado.
“Mestre!”, o homem gritou, rompendo a discussão, sua voz um misto de desespero e esperança. “Trouxe meu filho a ti. Ele tem um espírito mudo. Onde quer que o apanhe, joga-o no chão, e ele espuma, range os dentes e fica rigidamente seco. Pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não puderam.”
Jesus olhou para a cena, depois para seus nove discípulos perplexos e envergonhados. Uma profunda frustração, uma fadiga que ia além da física, pareceu atravessá-lo. “Ó geração incrédula!”, exclamou, e a frase não era só para o pai ou para a multidão, mas parecia incluir todos os que ali estavam, inclusive os que tinham descido do monte. “Até quando estarei convosco? Até quando hei de suportar-vos? Tragam o menino a mim.”
Enquanto traziam o jovem, o espírito, vendo Jesus, provocou uma convulsão violenta. O corpo do rapaz arquejou no chão, revolvendo-se em poeira. Jesus perguntou ao pai, com uma calma que contrastava brutalmente com o caos: “Há quanto tempo isso lhe acontece?”.
“Desde a infância”, o homem respondeu, as lágrimas finalmente rompendo. “Muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o matar. Mas se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos.”
Jesus fixou nele um olhar intenso. “Se podes?…”, repetiu, e a pergunta pairou no ar. “Tudo é possível ao que crê.”
Imediatamente, o pai do menino exclamou, com uma fé despedaçada, crua, a única que lhe restava: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade!”
Vendo que a multidão corria para junto deles, Jesus repreendeu o espírito imundo com voz de autoridade que não pedia licença, que não argumentava: “Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai dele e nunca mais entres nele!”
O grito que saiu do jovem não era humano. Foi um uivo de raiva e derrota. O corpo se debateu uma última vez, com uma força sobrenatural, e depois caiu, inerte, no chão. Tão imóvel que muitos na multidão sussurraram: “Está morto”. Mas Jesus se inclinou, tomou a mão do jovem e o ergueu. E ele se levantou. Não apenas levantou. Ficou em pé, os olhos, antes vidrados e vazios, agora focados, claros. Um silêncio de pasmo tomou conta de todos.
Mais tarde, dentro de casa, longe da multidão, os discípulos se aproximaram de Jesus em particular. A frustração deles era palpável. “Por que nós não pudemos expulsá-lo?”, perguntaram, humilhados.
Jesus os fitou, e talvez tenha visto, naquele momento, não só os nove que falharam ao pé do monte, mas também os três que, no cume, quiseram construir tendas para a glória. “Essa espécie”, disse lentamente, com o peso de quem dá a chave de um mistério profundo, “não pode sair senão por meio de oração.” E, como se fosse um adendo necessário, um lembrete amargo do caminho que os aguardava, acrescentou: “O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão; mas, três dias depois de morto, ressuscitará.”
Eles não entenderam. Temiam perguntar. O dia que começara com disputas sobre grandeza terminara com o silêncio pesado de quem percebeu, mesmo que confusamente, que o caminho para a glória passava por um vale muito escuro, e que a fé capaz de mover montanhas era a mesma que precisava clamar, em lágrimas: “Ajuda a minha incredulidade.” Fora do abrigo, a noite caíra por completo. Apenas uma lamparina tremulava, lançando sombras longas e instáveis nas paredes, como a dúvida e a esperança que agora lutavam dentro de cada um deles.




