Bíblia em Contos

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O Dia do Juízo em Nínive

O sol da manhã ainda não dissipara completamente o orvalho dos jardins suspensos quando o rumor começou a correr pelas largas avenidas de Nínive. Era um sussurro gutural, carregado de um temor antigo, que nascia nas vielas estreitas do mercado e escalava os muros de tijolos esmaltados até os ouvidos dos nobres no palelho real. Algo se movia no horizonte, além das vastas planícies onde o Tigre corria lento e barroso.

Na torre noroeste, um sentinela de olhos cansados de vigiar anos de paz, esfregou a vista. A poeira não era a dos mercadores caldeus ou dos caravaneiros do norte. Era mais baixa, mais densa, como uma névoa marrom avançando com propósito contra o vento. E dentro dela, faíscas. O reflexo do sol sobre metal. Muito metal. Um calafrio, que nada tinha a ver com a brisa matinal, percorreu-lhe a espinha. As palavras do profeta hebreu, aquelas tabuinhas de maldição que os sábios do rei riram e arquivaram, voltaram-lhe à mente com força de vendaval. *O dispersor sobe contra ti.* Ele engoliu seco e ergueu o pesado corno de boi para os lábios. O som que saiu foi rouco, quebrado, um gemido mais que um alerta.

Dentro dos muros, a cidade despertou não para o ritmo habitual, mas para um frenesi desordenado. Oficiais de mantos bordados corriam, gritando ordens contraditórias. “Guardem os portões! Reforcem as trancas de bronze!” A famosa muralha de Nínive, tão larga que três carruagens podiam correr lado a lado em seu topo, começou a fervilhar de soldados. Os rostos, outrora marcados pela arrogância de quem jamais conhecera a derrota, estavam pálidos. As mãos, hábeis em brandir chicotes contra escravos, tremiam ao ajustar as correias dos escudos. Havia uma pressão no ar, uma opressão que não vinha do calor, mas do silêncio que agora pairavam sobre a planície. A poeira aproximava-se.

E então, veio o som. Um ribombar surdo e rítmico, que fazia vibrar os tijolos sob os pés. Era o martelar de milhares de cascos contra a terra seca. Da névoa dourada e marrom, irromperam as formas. Cavalaria. Não a desorganizada cavalaria de saqueadores nômades, mas esquadrões compactos, disciplinados, movendo-se como um só animal de ferro e fúria. As armaduras dos cavaleiros bruxuleavam com uma luz feroz, e as lanças, erguidas, pareciam um bosque mortal prestes a ser lançado contra a cidade. *Observa o caminho, fortalece os lombos, arrecada muito toda a tua força.*

Os comandantes assírios, velhos lobos de guerra, reconheceram a tática na hora. Era a máquina de guerra babilônica, mas com uma ferocidade nova, uma determinação que parecia emprestada de uma ira divina. “Os carros de guerra!” rugiu um capitão, apontando para os flancos. E lá estavam eles, leves e velozes, com rodas que pareciam envoltas em fogo pelo ritmo alucinante com que giravam. Passavam de um lado ao outro da linha de avanço como relâmpagos escarlates, preparando o assalto final. O povo, aglomerado nas praças, ouvia os gritos dos oficiais e via o reflexo do terror nos olhos de seus defensores. O orgulho de Nínive, a “Leoa das Nações” que tantas presas arrancara de Judá, de Israel, de tantos povos, encolhia-se agora, acuada em sua própria cova.

De repente, no auge do alvoroço, um novo som superimponde-se ao tumulto. Um estrondo profundo, vindo não das muralhas, mas de dentro, do coração da cidade. Seguido de outro. E outro. Um rumor de pânico, diferente do anterior, subiu das ruas baixas, perto do rio. “As comportas! As comportas do rio Khosr!” Alguém, na confusão, ou por traição, ou por um erro fatal, abrira as enormes comportas que regulavam o fluxo do canal que cortava Nínive. As águas, contidas para servir aos palácios e jardins, tornaram-se agora um inimigo interno. Uma enxurrada marrom e impetuosa irrompeu pelos diques, inundando as fundações dos muros, derrubando barracas de mercadores, arrastando homens e animais. O palácio real, imponente sobre sua colina artificial, começou a tremer. Os alicerces, minados pela água, gritavam em pedra. *Ele abriu os reservatórios das águas, e elas são arrasadas.*

Era o caos. O inexpugnável revelava-se frágil. Enquanto a água solapava o poderio físico da cidade, o exército às portas encontrou sua brecha. Com um grito que parecia rasgar o céu, as forças atacantes lançaram-se contra os portões enfraquecidos. O ruído era indescritível: o choque de aríetes contra o bronze, o estalar da madeira cedendo, o tinir de espadas, os gritos dos feridos, os uivos de triunfo e os gemidos de desespero. Dentro das muralhas, a cena era de um pesadelo. Os soldados assírios, outrora temidos caçadores de homens, corriam de um lado para outro como baratas sob uma luz súbita. “Parem! Mantenham a linha!” Mas não havia linha. Havia apenas o rio de inimigos entrando pela cidade, e o rio de água destruindo-a por dentro.

No grande salão do trono, o rei, vestido com o púrpura real e o diadema de ouro, estava de pé, mas parecia um espectro. O ruído da batalha chegava até ele, abafado pelos grossos tapetes e cortinas. Seu rosto, habituado a expressar desdém absoluto, estava lívido. Ele olhou para os ídolos de pedra e ouro que bordejavam a sala – Assur, Ishtar, Nabu –, impassíveis, surdos. Lembrou-se então, com uma clareza que o fez estremecer, dos embaixadores de Judá, anos antes, falando de um Deus que não se deixava esculpir, um Deus zeloso que julgava as nações. O profeta Naum. *Eis que estou contra ti, diz o Senhor dos Exércitos.* A sentença fora proferida. E agora, era cumprida.

A cidade, outrora cheia de riquezas pilhadas de todas as nações, tornou-se uma vasta câmara de saque. Os tesouros acumulados por décadas de crueldade sistemática – o ouro de Tebas, a prata de Damasco, os marfins de Samaria – eram arrancados dos palários e carregados às pressas. As estátuas dos deuses assírios eram arrastadas no chão, suas faces imponentes riscadas e cobertas de lama. A leoa, símbolo da cidade, jazia simbolicamente espoliada, seus filhotes dispersos, seu rugido silenciado para sempre. O palácio, aquele centro do poder que acreditara eterno, era agora uma concha vazia e reverberante, cheia apenas do eco de passos apressados e do choro das concubinas.

Quando o sol começou a se pôr, tingindo de vermelho-sangue a poeira que ainda pairta no ar, o silêncio desceu sobre Nínive. Não era um silêncio de paz, mas o silêncio espesso da ausência, da morte, do fim. O rio, cumprido seu papel de juízo, começava a baixar, deixando para trás um rastro de lodo e destruição. Dos jardins suspensos, apenas torções de madeira quebrada e plantas arrancadas. Dos muros, grandes cicatrizes abertas. O cheiro era de fumaça, água estagnada e ferro.

E assim se cumpriu, naquele dia, a palavra. Não por acaso da história ou simples troca de impérios, mas como um ato solene de justiça. A cidade que teceu sua fama com a violência e o terror, que se embriagara com a soberba, foi desnudada e julgada. O dispersor havia dispersado. O exaltado foi humilhado. E sobre as ruínas que logo o deserto começaria a cobrir, só restava o eco de uma verdade antiga e temível: que o carro de guerra de Yahweh, quando avança, não encontra muro que o detenha.

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