Bíblia em Contos

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O Lagar Solitário de Edom

O sol, naquele fim de tarde, não se punha com beleza. Descia como uma brasa opaca atrás de uma cortina de poeira, tingindo o deserto de um vermelho sujo, cor de ferrugem e sangue seco. O ar parado carregava ainda o cheiro acre de metal e cinzas, uma memória da batalha que há poucas horas silenciara. Eu, agachado atrás de uma rocha lascada, observava. O silêncio era agora mais aterrador que o fragor.

Foi então que o vi, vindo do sul, de Edom. Um só vulto contra o céu doente. Seus passos eram pesados, deliberados, e não fugiam, mas pareciam arrastar consigo o próprio peso da terra devastada. À medida que se aproximava, os detalhes se firmavam na luz moribunda. As vestes que trazia eram sumptuosas, de um púrpura real, mas não intactas. Estavam salpicadas, encharcadas de algo escuro que não era simples tinta. Manchas que iam do vermelho vivo ao marrom escuro, espessas nos bordados, secas nas dobras do tecido.

Ele vinha da direção dos vinhedos de Bosra, e uma compreensão gelada começou a se formar em mim. As videiras de Edom eram famosas, mas naquela estação, o que se pisava não era uva para o vinho. A imagem do profeta, tão antiga, ecoou em meu espírito como um badalar de sino fendido: “Quem é este que vem de Edom, de Bosra, com vestes tintas de vermelho?”

Ele parou, não muito longe de mim, e seu rosto estava voltado para o chão, para a terra que parecia ter bebido demais. Não era um rosto de triunfo, embora a vitória fosse incontestável. Era um rosto de profunda fadiga, de uma tristeza tão vasta quanto o deserto. Levantou lentamente as mãos e as observou, palmas e dorsos cobertos daquele mesmo resíduo escarlate. E então falou, mas não para mim. Sua voz era rouca, baixa, como pedras sendo arrastadas no leito de um rio seco.

“Eu, que falo com justiça, que sou poderoso para salvar.”

A afirmação pairou no ar, desafiadora, mas sua expressão a negava. Parecia a confissão de um dever terrível.

“Por que está vermelha a tua roupa, e as tuas vestes como as daquele que pisa o lagar?”

A pergunta, a eterna pergunta do profeta, brotou dos meus lábios num sussurro que ele, inexplicavelmente, ouviu. Ele virou os olhos para mim. Eram olhos que tinham visto o abismo.

“Eu sozinho pisei o lagar”, disse, e cada palavra era carregada de um peso infinito. “E dos povos nenhum homem se achou comigo. Pisei-os na minha ira e os esmaguei no meu furor; o seu sangue respingou nas minhas vestes e manchei toda a minha roupa.”

Ele fez uma pausa, e seu olhar percorreu o horizonte arrasado. “Porque o dia da vingança estava no meu coração, e o ano dos meus redimidos era chegado.”

Contou então, com uma clareza devastadora, como havia olhado e não havia auxílio. Como se espantara com a ausência de um intercessor. E então o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria indignação o susteve. Pisou as nações em sua ira, fez com que a sua fúria descesse à terra, e o sangue deles se derramou sobre o pó.

Mas então, algo mudou em sua postura. A rigidez do juiz deu lugar a uma curvatura, a uma melancolia diferente. Ele se sentou em uma pedra, e suas vestes manchadas se arrastaram na poeira. E começou a falar de outro tempo, de outra relação.

“Recordo-me das misericórdias do Senhor”, murmurou, e agora sua voz era a de um homem ferido por uma saudade antiga. Falou dos dias de outrora, de Moisés, do povo. “Em toda a angústia deles, também ele foi angustiado.” Suas palavras pintaram um Deus não distante, mas caminhando ao lado, um amigo no sofrimento. “E o anjo da sua presença os salvou; no seu amor e na sua compaixão ele os remiu; e os tomou, e os conduziu todos os dias da antiguidade.”

Um suspiro profundo, que parecia vir das entranhas da terra, escapou-lhe. “Mas eles se rebelaram, e entristeceram o seu Espírito Santo.” A voz perdeu o tom nostálgico, ganhou uma aspereza de desapontamento íntimo. “Por isso ele se lhes tornou inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.”

Ele se calou por um longo momento. A noite havia caído completamente, e as estrelas, frias e claras, pontilhavam o céu acima da planície de julgamento. A figura majestosa e ensanguentada parecia agora incrivelmente só. E então, num tom que não era mais narrativa, nem julgamento, mas uma oração arrancada, ele prosseguiu, mesclando sua voz à voz do profeta, à voz do povo.

“Mas tu, Senhor, és nosso Pai. Nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos.” A petição surgiu, humilde, contundente, diante do espetáculo da própria ruína. “Não te agastes tanto, ó Senhor, nem sempre remembers da nossa iniquidade. Olha, nós te rogamos, somos todos o teu povo.”

A última frase dissolveu-se no vento noturno que começava a soprar, limpando lentamente o cheiro de morte. A figura permaneceu imóvel, sentada na pedra, contemplando suas mãos manchadas e, ao mesmo tempo, muito além delas. Era o Juiz. Era o Redentor. Era o Guerreiro solitário de Edom e o Pais angustiado por seus filhos rebeldes. A contradição vivia nele, visível, palpável, dolorosa.

Eu não ousei me mover. A visão era demasiado humana e demasiado divina para suportar. A ira e a misericórdia não eram faces opostas de uma moeda, mas fios inextricavelmente entrelaçados naquele manto purpúreo e ensanguentado. O dia da vingança e o ano dos redimidos eram o mesmo dia. E aquele que pisara o lagar sozinho era também aquele que, na solidão de sua justiça executada, suspirava pelas misericórdias passadas e se deixava invocar como Pai.

Quando a primeira franja pálida da madrugada riscou o leste, ergui os olhos. A pedra estava vazia. Só restava, impressa na areia fina ao seu redor, a marca de seus pés e, sobre a rocha, uma sombra escura, quase negra, onde ele se sentara. Não era sangue. Era a umidade do orvalho da manhã, começando a cair, lenta e silenciosamente, sobre a terra ressequida.

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