Bíblia em Contos

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Bíblia

A Torre Forte da Palavra

O sol da tarde colocava uma pátina de ouro velho sobre as telhas do vilarejo à beira do rio. No cais, o cheiro de peixe fresco e água barrenta misturava-se ao aroma doce que vinha da padaria de Guilherme. Era um homem de poucas palavras, Guilherme, mais dado a observar o movimento das águas e o ritmo do forno do que a conversas na praça. Seu silêncio, porém, não era vazio; era cheio da atenção paciente de quem sabe que há um tempo certo para cada coisa.

Não muito longe dali, Teodoro, o pescador mais experiente do lugar, entretinha um grupo de homens com histórias de grandes pescarias. Sua voz, grave e envolvente, dominava o espaço. “E naquela vez, sozinho, puxei um surubim que parecia um tronco de árvore!”. Os homens riam, admirando. Teodoro gostava daquela fortaleza de reputação que construíra com suas narrativas. Isolava-se na sua própria sabedoria, acreditando que seu entendimento, fruto de anos no rio, era muralha suficiente contra qualquer erro.

Certa manhã, um conflito surgiu. O filho mais novo de um dos agricultores, Lucas, fora acusado de roubar ferramentas do celeiro de um vizinho. A notícia correu rápida, alimentada por sussurros e suposições. Teodoro, ouvindo apenas um lado da história, já proclamava na praça: “É o sangue do pai, sempre foi desonesto! Rapaz sem futuro”. Suas palavras, duras e precipitadas, espalharam-se como fogo em capim seco. O rapaz, envergonhado e furioso, trancou-se em casa.

Guilherme, que ouvira os comentários enquanto arrumava seus pães na prateleira, não disse nada. Em vez disso, foi até a casa do agricultor acusador e, com calma, perguntou: “O senhor viu Lucas pegar as ferramentas?”. O homem, então, hesitou. “Bem, não exatamente… Mas quem mais seria?”. Guilherme foi então à casa do rapaz. Não para acusar, mas para ouvir. Lucas, com os olhos vermelhos, contou que na noite em questão estava ajudando um tio doente na vila vizinha, longe dali. Tinha testemunhas.

Enquanto isso, uma tempestade súbita se formou no horizonte. O vento começou a uivar, e o rio, normalmente pacato, ergueu-se em ondas nervosas. Teodoro, orgulhoso de seu barco e de sua habilidade, decidiu ir até a rede que deixara mais adiante, ignorando os avisos dos mais velhos. “Conheço este rio como a palma da minha mão”, disse, confiante em seu próprio coração. Era uma fortaleza que, ele não percebia, tinha os alicerces podres.

A chuva desabou. O barco de Teodoro, pequeno e forte, mas não invencível, lutou contra a correnteza. Quando um remo se soltou e foi levado, um frio que não era da água correu pela espinha do pescador. Sua sabedoria, suas histórias, nada podiam contra a fúria da natureza. A escuridão aumentava, e o pânico, aquele conselheiro cruel, começou a sussurrar em seu ouvido. Foi então, naquele desamparo total, que um pensamento veio à sua mente, não como uma lembrança, mas como um reflexo antigo de sua infância: *O nome do Senhor é uma torre forte; o justo corre para ela e está seguro.* As palavras, decoradas da boca de sua avó há décadas, ecoaram no caos. Ele não era um homem particularmente religioso, mas naquela hora, a arrogância dissolvida pelo medo, ele sussurrou: “Socorro”. Era um grito fraco, engasgado pela água e pela vergonha.

Na margem, Guilherme e outros homens, com lanternas, buscavam por ele. Foi o próprio Lucas, o rapaz injustiçado, quem, com olhos jovens e aguçados, avistou o barco à deriva. “Ali!”. A lancha de resgate partiu. Quando puxaram Teodoro, tremendo e envergonhado, para dentro do barco, ele não conseguia olhar nos olhos de ninguém.

Os dias que se seguiram foram de um silêncio pesado para Teodoro. A história do resgate corria, mas agora acompanhada pela história real do roubo – as ferramentas foram encontradas com um viajante que passara pela vila e as escondera, com medo de ser pego. A inocência de Lucas foi lavada em público, mas as palavras precipitadas de Teodoro deixaram uma mancha. Ele se isolou em casa, e sua fortaleza de orgulho estava em ruínas.

Uma tarde, quando o cheiro do pão de fubá novamente pairava no ar, Teodoro viu-se diante da porta da padaria. Entrou. O lugar era quente, silencioso, só o crackle do forno a lenha se fazia ouvir. Guilherme estava lá, modelando uma massa com mãos que conheciam a precisão da paciência.

“Guilherme”, a voz de Teodoro saíra áspera, pouco usada. O padeiro ergueu os olhos, sem pressa, sem julgamento.
“Preciso… preciso falar.”
Guilherme acenou para um banco. “Senta. O pão doce ainda tem uns minutos.”

Teodoro contou. Não sobre a tempestade, mas sobre a tempestade dentro dele. Sobre a língua afiada que cortou a reputação de um jovem, sobre a arrogância que quase o matou, sobre o vazio que sentia agora que sua boca permanecia fechada. “Minhas palavras sempre foram meu poder. Agora vejo que eram minha prisão.”

Guilherme escutou até o fim. Depois, olhou para o forno, as chamas dançando atrás da portinha de ferro. “A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte”, disse, calmamente, como se comentasse sobre o ponto exato do pão. “Quem a usa com amor colhe frutos. Quem a usa como lança, um dia sangra com o cabo. Você correu para a torre forte no rio. Precisa aprender a morar nela no dia a dia. Antes de falar, ouça. Até o fim.”

Não era um sermão. Era um conselho de padeiro, simples e sólido como um bom pão de centeio. Teodoro sentiu um nó se desfazer em seu peito. A humilhação começou a dar lugar a um novo começo, mais quieto, mais firme.

Nos meses seguintes, a vila viu uma mudança lenta. Teodoro ainda contava suas histórias no cais, mas agora também ouvia as dos outros, especialmente dos mais velhos. E quando Lucas, o rapaz, decidiu aprender o ofício da pesca, foi a Teodoro que ele procurou. O homem, que antes o condenara com uma frase, agora o ensinava com paciência, em silêncio, mostrando os nós das redes e os caminhos do rio.

Certa vez, em uma discussão acalorada sobre os limites das propriedades à beira do rio, os ânimos se exaltaram. Teodoro, outrora o primeiro a dar um veredito alto, ficou em silêncio. Depois, com uma voz que não mais buscava vencer, mas entender, disse: “Antes de decidirmos quem está certo, vamos ouvir cada um, com calma. A resposta certa é filha da pergunta paciente.” As palavras, diferentes de tudo que já dissera, trouxeram uma pausa. E no espaço daquela pausa, nasceu o entendimento.

Guilherme, da porta de sua padaria, viu a cena e sorriu levemente. O cheiro do pão quente se espalhava, um aroma simples e bom. Ele sabia que as palavras de um homem podem abrir portas para a desgraça ou podem ser, elas mesmas, um refúgio. E que, no fim, tanto o pão quanto a sabedoria precisam do fogo certo e do tempo exato para ficarem no ponto. O silêncio que precede a fala certa, pensou, é talvez a primeira e mais humilde das orações.

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