A memória mais vívida que tenho dela não é em nossos aposentos, à luz de lamparinas, nem em banquetes. É na vinha, no crepúsculo, no fim da colheita. O ar pesava com o doce-azedo das uvas pisadas e o pó quente do dia que não queríamos deixar ir. Meus homens e eu terminávamos a contagem dos cestos, os músculos doloridos da labuta, a voz rouca de tanto dar ordens. Foi então que a vi caminhar entre os vinhedos.
Ela vinha vindo da direção dos jardins reais, não para me visitar, creio eu, mas movida pela mesma atração que nos faz ficar em silêncio diante de um pôr-do-sol. A brisa suava da tarde brincava com as pregas finas de seu vestido de linho, aquele tom de açafrão que parecia ter capturado o último resquício de luz. Seus pés, descalços na terra vermelha e macia, eram lentos, quase hesitantes, como se cada passo fosse uma pergunta ao solo. Lembro-me de pensar: “Como são formosos os teus passos nas sandálias, ó filha de príncipe!” Mas ela não usava sandálias. A terra abraçava seus calcanhares, e a curva de seu tornozelo parecia uma obra de arte esquecida por um ourives entre os galhos.
Ela se curvou para tocar um cacho que os colhedores haviam deixado, um daqueles cachos perfeitos que parecem uma promessa. A curva de suas costas, sob o tecido, era como o arco de uma palmeira jovem que ainda não aprendeu a se fazer dura contra o vento. Meus homens se calaram, não por ordem minha, mas por um instinto antigo. O trabalho cessou. O mundo se reduziu àquele corredor de videiras e à figura que se movia no seu fim.
Quando ela se ergueu, girando levemente para olhar o horizonte onde o sol começava a se desmanchar em púrpura, foi como se o cântico que sempre esteve em meu coração encontrasse, afinal, palavras. Teológicas? Talvez. Mas eram palavras de um homem antes de serem palavras de um rei.
Seus quadris eram como juntas móveis, suaves, uma balança perfeita que distribuía a graça de seu caminhar. Seu umbigo era uma taça redonda e perfeita, onde não faltava bebida misturada. Seu ventre, um monte de trigo cercado de lírios. Seus seios eram como duas crias de gazela gêmeas, e seu pescoço… seu pescoço era como uma torfe de marfim. Seus olhos eram as piscinas de Hesbom, profundas, quietas, capazes de refletir o céu inteiro e guardar segredos no fundo. Seu nariz, como a torre do Líbano que olha para Damasco. A cabeça sobre ela era como o monte Carmelo, e os cabelos… os cabelos eram de um roxo tão profundo que parecia preto à distância, mas quando a luz do entardecer o alcançava, revelavam tons de púrpura real, e eu sabia que até um rei se prenderia nas tranças dela.
Era tudo desproporcional, exagerado? À vista de um contador de censos, sim. Mas o amor não mede, compara. Ele vê uma coisa e nela enxerga todo um universo de beleza paralela. O trigo, os lírios, a gazela, o marfim… eram minhas únicas referências para capturar o que me escapava. Era teologia da mais prática: Deus, ao criá-la, havia feito um sermão em carne e osso sobre a beleza, e eu era um mero estudante, tentando tomar notas apressadas.
Ela me viu, então. Não me havia percebido antes, absorvida que estava no crepúsculo e na vinha. Uma suave surpresa abriu seus lábios, que eram como um fio de escarlate, e seu sorriso… seu sorriso era suave. Como o vinho que escorre suavemente para o amado, entrando retamente nos lábios daqueles que adormecem. Não um vinho forte que aturde, mas aquele que aquece a alma e solta a língua para as palavras certas.
Fiquei parado. Ela também. Entre nós, o corredor de videiras parecia se alongar e depois encolher. A voz me veio, baixa, mas carregada de todo o calor daquele dia que findava.
“Vem, meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas; vejamos se florescem as videiras, se estão abertas as suas flores, se já brotaram as romãzeiras. Ali te darei o meu amor.”
Era um convite que era também uma conclusão. A vinha que nos cercava não era mais apenas um patrimônio, uma colheita. Tornara-se o nosso aposento, o nosso mundo. O futuro era ali, naquela terra, no cuidado com as coisas que brotam, no despertar conjunto para a alvorada. O amor que eu cantava em metáforas ela devolvia em propostas concretas: o campo, as aldeias, o trabalho de ver a vida florescer, juntos.
E assim foi. O crepúsculo nos engoliu, e nós, a ele. Os homens se retiraram, sorrindo entre si, carregando o último dos cestos. O cheiro das uvas se misturou ao cheiro da noite que chegava. E naquela vinha, sob as primeiras estrelas que pareciam cachos de luz pendurados no céu, aprendi que o cântico mais sagrado não é aquele que se canta sobre a beleza, mas aquele que se vive dentro dela, com os pés na terra vermelha, e a alma enraizada no outro. A canção, afinal, era ela. E tudo o mais eram apenas notas tentando alcançar sua melodia.




