O velho Ismael costumava subir a colina ao final da tarde, quando o sol começava a derramar seu mel sobre os vales de Judá. Seus pés, calejados pela vida nos campos, conheciam cada pedra solta, cada raiz saliente do caminho íngreme. Naquele dia, porém, algo o levou a continuar subindo, para além do ponto onde costumava parar para recuperar o fôlego. Uma inquietação branda, como o zumbido distante de um enxame. Queria solidão, o tipo de quietude que só o crepúsculo sabe oferecer.
Quando finalmente alcançou o cume, o sol já havia se despedido, deixando para trás um manto de cores desbotadas – púrpuras que viraram violeta, laranjas que se dissolveram em cinza-azulado. Ele se sentou em uma rocha plana, ainda quente do dia. E então, como se uma cortina fosse puxada, a escuridão verdadeira chegou, e com ela, as estrelas.
Não era uma noite qualquer. O céu parecia ter sido lavado pelas chuvas passageiras da semana anterior. Ismael prendeu a respiração. Ali estava, não aquele borrão leitoso que via da porta de sua cabana, mas uma profundidade abissal, negra como azeviche, cravejada de incontáveis pontos de luz. Algumas cintilavam com fúria branco-azulada; outras, mais tímidas, tremeluziam em tons dourados. A Via Láctea desenhava um caminho poeirento através do abismo, uma cicatriz de luz na face da noite. Ele, que passara a vida com os olhos fixos no sulco da terra, no focinho das ovelhas, nas pragas do trigo, sentiu as pernas bambas. Uma vertigem não do alto, mas da vastidão.
Sem querer, seus lábios moveram-se, sussurrando palavras antigas, aprendidas com seu pai, que as aprendera com o pai dele: *“Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome!”* A frase ecoou vazia por um segundo, um mero hábito. Mas então, seus olhos, ainda pregados na abóbada celeste, encheram-se de água. A palavra “magnífico” era pobre, ínfima. Como chamar o rugido do leão de “ruído”, ou o calor do deserto de “mormaço”.
Ele viu a lua, um crescente fino e afiado como uma foice, pendurada com precisão impossível. Lembrou-se das histórias. Diziam que os povos além dos grandes rios adoravam aquelas luzes. Inclinavam-se a astros mudos. Um nó de indignação apertou-lhe o peito, seguido por uma onda de compaixão. Eles não sabiam. Não podiam saber. Aquilo tudo não era para ser adorado. Era um sinal. A assinatura do Artífice.
*“Pois puseste a tua glória acima dos céus.”* Glória. Ismael pensou na palavra. Não era pompa, não era ostentação. Era… *isso*. Aquele silêncio estrondoso. A ordem implacável, a dança eterna e silenciosa dos corpos celestes. Uma glória que não precisava de aplausos, porque sua simples existência era um hino.
E eis que vinha o verso que sempre o deixara perplexo, desde menino. *“Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres emudecer o inimigo e o vingador.”* Seu neto mais novo, Eliabe, tinha apenas dois anos. Naquela manhã, vira-o sentado na poeira do pátio, completamente absorto em observar uma fileira de formigas carregando uma semente muito maior que elas. Seus olhos, escuros e sérios, brilhavam com uma admiração pura, não contaminada por preocupação ou cinismo. O menino apontou para Ismael e disse, em sua linguagem truncada: “Vô, olha! Elas trabalham juntas!”. Da boca de um pequenino… aquela percepção da ordem, da cooperação, da maravilha no minúsculo – não era isso uma força? Uma força que desarmava o coração mais cínico, que fazia emudecer o “vingador” que habita em cada adulto, aquele que só vê utilidade, conflito e esforço? O inimigo da alma, pensou Ismael, é a cegueira para o assombro. E uma criança podia vencê-lo com um simples sussurro.
Então veio o núcleo da questão, o salmo girava em torno dele. Ismael levantou os olhos novamente, sentindo-se pequeno, insignificante como um grão de areia na margem de um oceano sem fim. *“Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste…”* Obra dos teus *dedos*. Não do teu braço poderoso, não de um sopro esmagador. Dos dedos. Havia uma intimidade nisso, uma delicadeza de artesão ajustando a posição de cada pedra preciosa no manto do rei. E ele, Ismael, filho de Jônatas, pastor de ovelhas, homem de costas doloridas e poucas posses, era convidado a contemplar essa obra-prima.
*“Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?”* A pergunta não era um lamento, mas um espanto estupefato. No grande esquema daqueles céus infinitos, no silêncio das galáxias distantes, que importância poderia ter o seu nascimento, as suas lágrimas, o seu amor pela esposa falecida, sua preocupação com a colheita? A resposta, porém, já vinha embutida na própria pergunta, teológica e doce como um paradoxo: Tu *te lembras*. Tu *o visitas*. O Deus que arranja as constelações com seus dedos inclina-se para ouvir a oração de um velho numa colina.
E então, a declaração que fazia o coração de Ismael bater forte, uma verdade que ele sentia no cheiro da terra após a chuva, no instinto protetor pelas ovelhas, no suor que regava seu sustento: *“Contudo, pouco menor o fizeste do que os seres celestiais e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés.”*
“Domínio”. Não era um domínio de exploração brutal. Ismael entendia isso no dia a dia. Domínio era *mordomia*. Era responsabilidade. Ele viajava com o pensamento. Rebanhos de ovelhas, brancas como a neve no alto do Carmelo, balindo sob seu cuidado. Manadas de bois fortes, arando a terra para o pão. Os animais dos campos – as raposas ágeis, os coelhos tímidos. As aves dos céus – as águias planando altivas, os pardais que Deus mesmo vigiava. Os peixes do mar, todo aquele mundo misterioso e intocado para um homem do interior. Tudo estava sob os pés do homem. Entregue à sua guarda. A honra e a glória da coroa humana não estavam na opressão, mas na capacidade de refletir, mesmo que de maneira pálida e torta, o cuidado do próprio Criador pela sua obra.
Um vento fresco subiu pela encosta, trazendo o cheiro do orvalho noturno e do tomilho selvagem. Ismael estremeceu. A imensidão já não o esmagava. Envolvia-o. Ele era pequeno, sim, mas *lembrado*. Era frágil, mas *coroado*. O mesmo Deus que nomeava cada estrela conhecia o nome de cada uma de suas ovelhas, e o seu também.
Ele se levantou, os ossos rangendo. Ao descer a colina, o caminho parecia diferente. Não era mais apenas um atalho para casa. Era parte das “obras das tuas mãos” sobre as quais ele, Ismael, tinha um domínio humilde e sagrado. Cada pedra, cada arbusto, estava sob sua custódia. Ao avistar a luz tênue de sua lamparina brilhando na janela da cabana, uma profunda gratidão encheu seu peito. A grandiosidade de Deus não o anulara. Tinha-o colocado no seu devido lugar: criatura minúscula, amada, e incumbida de um pedaço da glória.
Antes de entrar, lançou um último olhar ao céu. As estrelas continuavam seu curso silencioso. E ele, com um fio de voz rouca, completou o salmo, agora não como uma recitação, mas como uma conversa íntima, cheia de maravilhas e imperfeições humanas: *“Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome.”* Desta vez, a palavra soou adequada. Porque o nome dele estava escrito não só nas estrelas, mas também na luz da lamparina que o esperava, e no coração cansado e grato de um velho pastor.




