Bíblia em Contos

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O Silêncio Após os Carros de Fogo

O ar no acampamento israelita em Gilgal estava pesado, não com a umidade usual do vale, mas com a tensão de rumores que vinham do norte. Josué, sentado à entrada de sua tenda, sentia o peso dos anos e da responsabilidade em seus ombros. Os cabelos grisalhos em suas têmporas eram testemunhas silenciosas das campanhas em Jericó e em Ai, das complexidades de Gibeom. Agora, vinham notícias que faziam aqueles confrontos parecerem escaramuças.

Um mensageiro, com o robe empoeirado e o rosto marcado pela exaustão, acabara de se ajoelhar diante dele, ofegante. “Jabim, rei de Hazor”, disse o homem, engolindo seco. “Ele ouviu. Ouviu sobre tudo. E convocou a todos. A Madom, a Sinrom, a Acsafe. Os reis das serras ao norte e das planícies a leste do Jordão. Os cananeus do leste e do oeste, os hititas, os amorreus, os perizeus, os jebuseus das montanhas e os heveus ao pé do Hermom. Eles se reuniram. É um exército como areia da praia, Josué. Com cavalos. Muitos cavalos. E carros de guerra, incontáveis como os seixos do ribeiro de Quisom.”

Josué ficou em silêncio por um longo momento. O murmúrio do acampamento ao seu redor parecia distante. Ele olhou para o céu, onde as primeiras estrelas começavam a cintilar. A promessa era antiga, mas o medo era uma coisa presente, visceral. A imagem de uma horda incontável, com o som de cascos batendo na terra como um trovão contínuo, pairou em sua mente. Mas junto a ela, veio outra voz, mais profunda que a do mensageiro, uma voz que ecoava em seu espírito desde os dias no deserto, ao lado de Moisés. A promessa de não abandonar.

Naquela noite, enquanto as fogueiras crepitavam e homens afiavam suas lâminas com um cuidado meticuloso, Josué se recolheu. Não em estratégia humana primeiro, mas em silêncio. O peso da coalizão cananeia era esmagador, uma tentativa clara de esmagar Israel num só golpe, de virar o jogo depois das vitórias israelitas. Era uma guerra total. E em meio àquele silêncio, a palavra veio, clara e inconfundível: “Não tenhas medo deles, porque amanhã, a esta mesma hora, eu os entregarei mortos a Israel. Jarretarás os seus cavalos e queimarás os seus carros.”

A ordem era específica, estranha aos ouvidos de um estrategista. Jarretar os cavalos? Destruir os carros? Era rejeitar os espólios mais valiosos, os símbolos máximos do poder militar daquela era. Josué entendeu. A vitória não poderia, em hipótese alguma, ser atribuída à força da cavalaria capturada ou à tecnologia de guerra cananeia. Seria do Senhor, e somente dEle. A confiança de Israel deveria estar no Deus que abre caminhos no mar e derruba muralhas, não em carros de ferro.

A marcha para o norte foi longa e dura. Subiram das planíries de Jericó em direção às elevadas terras da Galileia. O clima mudou, o ar ficou mais frio. Passaram pelo Monte Carmelo, sua silhueta imponente testemunhando séculos de história cananeia. Finalmente, acamparam nas proximidades das águas de Merom, um local estratégico perto dos afluentes do Jordão. A planície era vasta, mas os contrafortes das colinas ofereciam alguma proteção.

Ao amanhecer do dia seguinte, o exército cananeu se revelou. Não era um exagero do mensageiro. Era como um tapete vivo cobrindo os vales e as colinas baixas. O sol nascente cintilava em milhares de pontas de lança e elmos de bronze. E os carros. Centenas, talvez milhares deles, alinhados em formações impressionantes, puxados por cavalos nervosos que bufavam vapor no ar frio da manhã. O som era um rugido baixo e constante – o estalar de arreios, o ranger de rodas, o murmúrio de incontáveis vozes, o relinchar dos animais. Era a maior força que Israel já enfrentara.

Josué não esperou que se organizassem. A ordem de Yahweh fora clara: atacar de surpresa. Com um grito que nasceu do fundo da alma e se espalhou pelas fileiras israelitas como um vento impetuoso, deu o sinal. Não foi um avanço ordenado de falanges. Foi uma investida total, um rio de homens movido por uma fé que transcendia o medo, descendo das colinas como uma torrente.

O efeito foi de puro caos. Os carros cananeus, suas maiores armas, tornaram-se sua ruína. A formação apertada, perfeita para uma carga em campo aberto, foi quebrada pela topografia irregular e pelo ataque súbito de múltiplas direções. Os cavalos, assustados pelo estrondo dos gritos e pela massa de combatentes, empacaram, derraparam, viraram uns contra os outros. Os condutores lutavam para controlar os animais enquanto os guerreiros israelitas, ágeis e sem o peso de armaduras pesadas, se infiltravam entre os carros, cortando as jarretas dos cavalos com golpes precisos. Os animais caíam, gritando horrendamente, imobilizados. Os carros, pesados e inúteis, viraram tumbas de madeira e bronze para seus ocupantes.

A batalha se deslocou. A coalizão cananeia, desorientada e aterrorizada, quebrou. A fuga foi desesperada. Alguns correram para oeste, em direção à grande Sidom. Outros para leste, para Misrefote-Maim. A maior parte, porém, incluindo os líderes, fugiu para o norte, para a colossal Hazor, a rainha das cidades do norte, cujas muralhas pareciam inexpugnáveis. Pensavam encontrar refúgio ali.

Josué, porém, não permitiu que se reagrupassem. A perseguição foi implacável, uma maré humana que não dava trégua. O terror de Yahweh precedia os israelitas, paralisando a resistência organizada. Quando finalmente chegaram às portas de Hazor, a cidade já estava em pânico. A notícia da derrota esmagadora e da aniquilação dos carros chegara antes. A tomada foi rápida e decisiva. Josué não poupou a cidade que arquitetara a destruição do seu povo. Com a espada, cumpriu o *herem*, o anátema. Hazor, outrora cabeça de todos aqueles reinos, foi reduzida a cinzas. O fogo consumiu não apenas seus palácios e casas, mas seu próprio status, sua história de poder. As outras cidades da coalizão – Madom, Debir, Anabe, todas as cidades reais – seguiram o mesmo destino. As pilhas de espólio cresciam, mas os cavalos capturados foram todos jarretados, e os carros, todos reduzidos a lenha fumegante.

Os anos que se seguiram foram de trabalho árduo, de consolidação. A campanha foi longa, como o texto sagrado registra. Não foi um dia de glória, mas uma geração de guerra. Algumas cidades em colinas fortificadas resistiram por mais tempo, mas uma a uma, a resistência foi quebrada. O coração de Canaã, desde as áridas colinas do Neguebe no sul até os vales verdejantes da Galileia no norte, e desde o deserto a leste até o Grande Mar a oeste, foi tomado. Os anaquins, os gigantes que outrora aterrorizavam os espias, foram erradicados de suas fortalezas em Hebrom, em Debir, em Anabe. Só em Gaza, em Gate e em Asdode alguns sobreviveram, lembranças isoladas de um passado de terror.

E assim se cumpriu. A terra, finalmente, teve descanso da guerra. Josué, já com os passos mais lentos, percorria os vales e as montanhas, vendo cidades que não conhecia sendo reconstruídas por seu povo, pastores apascentando rebanhos onde antes havia guarnições cananeias. Era uma paz custosa, tingida de sangue e fogo, mas era a paz da promessa. Ele olhava para as colinas, outrora dominadas por altares a Baal e Asherah, e sabia que o trabalho apenas começava. Conquistar a terra era uma coisa. Conquistar os corações para Aquele que a dera, essa seria a próxima batalha, longa e silenciosa. Mas naquele momento, sob um céu limpo e sem a nuvem de poeira dos carros de guerra, havia descanso. Era um silêncio abençoado, conquistado pela obediência a uma palavra que era mais forte que carros e mais afiada que qualquer espada.

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