Bíblia em Contos

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A Revelação no Sinai

O sol do deserto do Sinai não era apenas uma luz; era uma presença opressora, uma fornalha que pesava sobre os ombros e extraía toda a umidade do corpo e da alma. A poeira, fina como talco, impregnavam-se nas pregas das roupas, no suor do rosto, no gosto da boca. E o silêncio… um silêncio espesso, carregado, que antecedia a tempestade. Naquelas manhãs, após meses de jornada desde os pântanos do Egito, o ar parecia parar de circular. Até os pássaros se calavam.

Moisés sentia o peso nos ossos, um peso que ia além do cansaço da caminhada. Era o peso de um povo inteiro, uma multidão de olhos ansiosos, corações duvidosos e memórias curtas. Eles haviam visto o mar abrir-se, tinham bebido água da rocha, comido o pão celeste que aparecia com o orvalho. Mas agora, acampados diante daquela montanha austera e rochosa, uma inquietação diferente pairava no acampamento. Não era fome, nem sede. Era uma espécie de vazio, uma saudade de um endereço, de uma lei, de um modo de ser. Eles eram um povo nascido na fornalha da escravidão, e a liberdade, vasta e assustadora como o deserto, doía.

No terceiro dia, ao romper da aurora, um som baixo, quase inaudível no início, começou a brotar do ventre da montanha. Não era um trovão. Era mais profundo, como se a própria terra estivesse gemendo. As tendas começaram a tremer levemente, e um calafrio, não de frio, mas de puro assombro, percorreu o acampamento. Moisés, com o coração batendo descompassado contra as costelas, ordenou que o povo se purificasse, que lavasse as vestes, que se mantivesse a distância. Havia um limite, uma linha invisível traçada ao pé da montanha, que ninguém, sob pena de morte, poderia ultrapassar. Era o limite entre o comum e o Sagrado.

A nuvem, que os guiava desde a saída do Egito, desceu e pousou sobre o cume do Sinai. Era densa, escura como fumaça de fornalha, mas cortada por labaredas de um fogo que não consumia, apenas brilhava com uma luz terrível e pura. O gemido da terra transformou-se num rugido longo e crescente. O solo estremeceu de verdade, e pedras soltas começaram a rolar encosta abaixo. Do meio daquela escuridão flamejante, um som explodiu. Não era uma voz humana. Era uma Voz que parecia moldar-se a partir do próprio trovão, do próprio fogo e do silêncio que os precedera. Não saía de um ponto, mas envolvia tudo, penetrava tudo, ecoava dentro do peito antes de chegar aos ouvidos.

“EU SOU.”

As palavras não eram ditas, eram gravadas diretamente na consciência. Cada sílaba era um impacto, um golpe de martelo sobre o ferro da alma. O povo, lá embaixo, recuou em massa. Rostos empalideceram. Mães cobriram os ouvidos dos filhos. Homens robustos, acostumados ao trabalho pesado nas olarias do Faraó, caíram de joelhos, encolhendo-se, enterrando o rosto na poeira. O terror era uma coisa viva, um animal que se enroscava no estômago de todos. Eles suplicaram a Moisés: “Fala tu conosco, e ouviremos; mas não fale Deus conosco, para que não morramos.”

Moisés, porém, sentiu um impulso diferente. O medo estava lá, sim, uma onda gelada que subia pelas suas pernas. Mas por baixo do medo, brotava uma reverência tão profunda que era quase uma dor doce. Aquela Voz era a origem de tudo. Era o poder que havia partido o mar, mas era também a ternura que ouvira o gemido no Egito. Ele se aproximou da escuridão densa onde Deus estava.

E a Voz prosseguiu, e cada mandamento era como a cravação de um pilar fundamental para um mundo novo:

“Não terás outros deuses diante de mim.” A frase veio como uma afirmação da realidade única. Não era uma negociação, era um fato. Como o sol é único no céu. Todas as sombras, todos os ídolos de barro e ouro, todas as superstições do Egito se desfaziam como fumaça diante daquela declaração.

“Não farás para ti imagem de escultura…” A Voz detalhava, explicava a natureza ciumenta – no sentido de exclusiva, apaixonada – daquele Deus. Ele não podia ser reduzido a uma forma, controlado por um feitiço, domesticado por uma estátua. Era Espírito. Era Liberdade em essência.

“Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão.” Aqui, o tom tinha um peso solene. O Nome, a própria identidade revelada, não era um amuleto, uma palavra de poder para manipular. Era sagrado. Usá-lo para a mentira, para o mal, era profanar a fonte da verdade.

E então, um comando que soou, naquele contexto, como um oásis de graça: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar.” Havia um ritmo no universo, um ritmo de trabalho e descanso instituído pelo próprio Criador. Era um mandamento de misericórdia, um freio contra a escravidão – seja a dos egípcios, seja a que o próprio homem impõe a si mesmo. Até os animais deveriam respirar.

“Honra teu pai e tua mãe.” A ordem saía da esfera cósmica para o âmago da tenda, da fogueira, da família. A sociedade começa ali, no respeito que gera permanência, que constrói alicerces.

E então, a Voz listou os grandes “nãos” que protegem a vida em comunidade: não matarás, não adulterarás, não furtarás. Cada um, um dique contra o caos. “Não dirás falso testemunho” – a defesa da verdade, o alicerce da justiça entre as pessoas. E por fim, “não cobiçarás” – o mandamento que vai à raiz, ao desejo desordenado que gera todos os outros males. Não era apenas sobre ações, era sobre o coração.

O som cessou. O silêncio que se seguiu era ainda mais impressionante que o trovão. Era um silêncio cheio, preenchido pelo eco das palavras que agora estavam queimadas na memória coletiva. A fumaça aos poucos se dissipava, o tremor da terra acalmava. O sol, agora alto, parecia comum, quase banal.

Moisés desceu. Seu rosto, ninguém sabe ao certo descrever. Havia uma luz, diz o texto, mas talvez fosse mais uma impressão, um reflexo de algo interior. Os olhos dele pareciam ter visto o núcleo da criação. Ele trouxe nas mãos duas tábuas de pedra, gravadas pelo próprio dedo de Deus. Mas trouxe algo mais intangível: um pacto.

O povo continuava distante, assustado. A lei, em sua majestade terrível, os esmagava. Moisés os reuniu e tentou traduzir, com palavras humanas, o que havia acontecido. “Não temais”, disse, e a voz dele, rouca de emoção, soava estranhamente suave após o fragor divino. “Deus veio para provar-vos, para que o seu temor esteja em vós, e não pequeis.”

Era isso. O temor não era para paralisar, era para orientar. A lei não era uma corrente, era o contorno seguro de um caminho numa encosta perigosa. A liberdade verdadeira, perceberiam aos poucos, não era fazer tudo o que se deseja, mas ser capaz de viver sem destruir a si mesmo e ao próximo. As palavras na pedra eram duras, sim, como a rocha do deserto. Mas nelas estava o desenho de uma sociedade onde a viúva, o órfão, o estrangeiro, teriam seu lugar. Onde a vida seria sagrada, a palavra teria valor, e o descanso seria um direito.

Naquela noite, ao redor das fogueiras, ninguém cantou. Conversavam em voz baixa, quase sussurrando. Olhavam para a montanha, agora silhueta escura contra o céu estrelado. Algo havia mudado para sempre. Eles não eram mais apenas um bando de escravos fugitivos. Tinham uma lei. Tinham um Deus. E, aos pés do Sinai, começavam a entender, com um respeito que doía e alegrava ao mesmo tempo, o peso imenso e a doçura misteriosa de serem um povo.

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