A terra cheirava a chuva velha e a raízes apodrecidas. Não a chuva que lavra, que alegra a terra ressequida, mas uma umidade constante, um suor do solo que subia como um vapor amargo. O ar pesava sobre os ombros de Noé, um manto úmido e espesso, enquanto ele afiava a lâmina de bronze no rebolo. O som áspero, ritmado, era a única oração que seus lábios sabiam fazer naqueles dias. Seus olhos, profundos como poços secos, contemplavam o vale onde sua família morava. Mais abaixo, manchas de fumaça suja marcavam os acampamentos dos filhos de Caim, onde o riso vinha em gritos e o metal já não era forjado para lavrar a terra, mas para coisas que faziam Noé cerrar os punhos.
Ele se lembrava das palavras de seu avô, Matusalém, cuja voz era como o rosnar de um rio subterrâneo. “O sopro do Eterno não contenderá para sempre com o homem”, ele dizia, os dedos nodosos agarrados ao cajado. “Pois ele é carne.” A palavra “carne” saía como um cuspe. Carne. Não no sentido do corpo frágil, da necessidade humilde, mas da carne inchada de vontade própria, do desejo que se tornava lei, da violência que era a seiva que corria nas veias daquela geração. Noé via isso nos olhos dos homens que às vezes subiam a colina: um brilho opaco, como de pedra polida, sem temor, sem horizonte. A terra se enchera daquela violência. Era tangível, como o cheiro de ferro e fogo que às vezes o vento trazia.
Seus três filhos, Sem, Cam e Jafé, eram homens feitos, fortes, mas ainda olhavam para o pai com um resquício de silêncio respeitoso. Foi a Sem, o mais velho, que Noé falou primeiro, numa tarde em que o céu cor de ferrugem parecia baixar sobre a colina.
“O Eterno falou”, disse Noé, a voz rouca da falta de uso. As palavras soaram estranhas, mesmo para seus próprios ouvidos. Como declarar que a pedra havia gemido ou que o vento pronunciara um nome.
Sem parou de apertar as correias de couro cru, suas mãos imóveis. “Falou, pai?”
“Não com voz de trovão”, Noé continuou, os olhos perdidos na linha do horizonte, onde a terra e o céu se confundiam numa massa cinzenta. “Foi uma dor aqui”, ele tocou o peito, “e uma certeza aqui”, tocou a fronte. “Uma angústia que não era minha. Uma decisão tomada nos altos céus. O fim de toda carne chegou perante a sua face. A terra está repleta de violência. Eis que vou destruí-los, juntamente com a terra.”
O silêncio que se seguiu foi mais denso que o ar úmido. Não era um silêncio de incredulidade, mas de um reconhecimento terrível. Eles viviam naquela violência; respiravam-na. Sabiam, no íntimo, que a corda estava esticada ao limite.
“Mas a nós, pai?”, perguntou Jafé, o mais jovem, sua voz ainda carregada do susto de menino.
Então Noé descreveu o impossível. Uma arca. Medidas de côvados que dançavam em sua mente como números de fogo. Madeira de cipreste, resinosa e durável. Betume por dentro e por fora, para vedar a fenda entre a ordem e o caos. Um barco maior que qualquer habitação, qualquer celeiro que já tivessem visto. Um monstro de madeira para navegar num oceano que não existia.
Começaram no equinócio de outono, quando a luz era dourada e mentirosa. A primeira árvore de cipreste, anciã e reta, caiu com um gemido que ecoou pelo vale. Homens de acampamentos distantes ouviam o som e riam, apontando para os loucos da colina que construíam um palácio flutuante em terra seca. “Noé, o pregador de chuvas!”, gritavam. Suas mulheres vinham, às vezes, com oferecimentos obscenos e olhares de desprezo. A violência agora tinha também um rosto de escárnio.
Anos se passaram. A ossatura do gigante tomou forma. As paredes cresceram, altas e escuras, manchadas de betume negro que fedia a enxofre. Noé e seus filhos trabalhavam até que as mãos sangrassem e as costas pareciam feitas de pedra. As esposas dos filhos, mulheres de rostos sérios e fé quieta, traziam água, comida, e às vezes ficavam apenas olhando para aquela estrutura absurda que dominava a paisagem, um testemunho mudo do juízo e da graça.
Noé passava as noites na tenda, ouvindo o vento assobiar nas fendas da arca inacabada. A “dor” no peito, a certeza, nunca o havia deixado. Era companhia constante. Ele via, em sonhos, águas brotando do seio da terra, rompendo as fundações dos montes. Via o céu rasgando-se como um véu podre. E via, flutuando serenamente sobre o turbilhão escuro, aquele caixão gigante que suas mãos construíam.
Um dia, Cam voltou do vale com a expressão alterada. “Mataram-se por um bracelete de ouro, perto da fonte salgada”, disse, limpando as mãos na túnica, como se pudesse apagar o relato. “Não foi só a morte, pai. Foi o prazer no ato. Riram enquanto o faziam.” Seus olhos encontram os de Noé. “A arca… ela será mesmo nossa salvação?”
“Ela será o refúgio que o Eterno preparou”, respondeu Noé, mas sua voz falhou por um instante. A fé, naqueles momentos, não era um sentimento caloroso. Era um ato de obstinação, como continuar a afiar a lâmina enquanto a escuridão cai.
O tempo, que outrora era marcado pelas estações e pelas festas da colheita (agora quase esquecidas), tornou-se a própria expectativa. Sete dias antes do dilúvio, coisas estranhas começaram a acontecer. Animais chegavam. Não em debandada, mas em pares, com uma calma solene e inquietante. Do cervo de altas galhadas ao lagarto que brilhava sob o sol pálido, todos subiam a colina, contornavam a arca, e aguardavam. Um murmúrio de peles, penas e escamas invadiu o acampamento. O ar encheu-se de um cheiro selvagem, denso, de vida coletiva. Era o sinal impossível de ignorar.
No sétimo dia, o céu parou. O vento cessou completamente. O silêncio era tão profundo que doía nos ouvidos. Noé olhou para sua família, para as caras poeirentas de seus filhos, para os olhos arregalados de seus netos pequenos. “Entrem”, disse, simplesmente.
A última imagem que Noé teve do mundo antigo foi a de um casal de pombas pousadas na rampa, olhando para trás, para o vale silencioso. Então, ele próprio entrou na escuridão da arca. As portas, enormes, pesadas, foram cerradas por dentro. O ruído da madeira encaixando no batente ecoou como um selo no túmulo.
Houve um silêncio absoluto, opressivo, dentro do casulo de cipreste e betume. A luz entrava fraca pelas aberturas superiores. Respiraram fundo, o ar carregado do odor da madeira, dos animais, do medo.
E então, veio o som.
Não foi um trovão. Foi um suspiro profundo, um gemido vindo das entranhas do mundo, seguido por um rugido que crescia. Eram as fontes do grande abismo, rompendo-se. Noé sentiu o chão de madeira tremer. Do lado de fora, um ruído contínuo, como de uma catarata colossal, encheu o universo. E depois, sobre suas cabeças, nas aberturas, começou o tinir da chuva. Um tamborilar inicial, tímido, que em questão de momentos se transformou num estrondo ininterrupto, num véu de água sólida entre o céu e a terra afogada.
A arca estremeceu, gemeu, e então… ergueu-se. Flutuou. O contato com a terra, a segurança sólida de milênios, foi cortada. Estavam à deriva no cumprimento de uma palavra. Noé escorregou contra uma parede, desceu até o chão úmido, e pela primeira vez em décadas, chorou. Chorou pelo mundo que fora, pelos rostos que conhecera, mesmo os perversos. Chorou pelo fardo imenso da graça que o salvara. E ali, na penumbra balançante, ouvindo o coro dos animais inquietos e o dilúvio do lado de fora, Noé, o homem que achara favor aos olhos do Eterno, cobriu o rosto e adorou. A jornada havia apenas começado.




