Bíblia em Contos

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Alegria no Forno da Provação

O sol da Judeia martelava o telhado de barro seco da pequena oficina de Eliazer. Dentro, o ar tremeluzia com o calor do forno, carregado do cheiro acre da argila umedecida e da lenha queimada. Ele enxugou a testa com o antebraço, deixando um traço de lama cinzenta, e observou o vaso girando em seu torno. Era para ser um jarro simples para água, mas uma falha invisível na massa fez com que, sob a pressão de seus dedos, a parede cedesse de repente, desmoronando em uma massa informe e inútil.

Um suspiro profundo, quase um grunhido, escapou-lhe. Mais uma vez. A encomenda do mercador grego estava atrasada, o grão guardado no canto já mostrava um punhado de carunchos, e a notícia que chegara naquela manhã, pela boca do vizinho ofegante, ainda ecoava em seus ouvidos: Herodes Antipas aumentara os impostos sobre os oleiros de Jericó. Uma prova a mais. Pareciam vir todas de uma vez, como uma torrente de inverno que desce o leito seco do rio, arrastando tudo.

Eliazer amassou a argila estragada com força, os músculos dos braços tensionados. Lembrou-se, então, das palavras de seu primo, Tiago. Não as ouvira pessoalmente, mas uma carta, copiada e recopiada, circulava entre os irmãos em Jericó. Tiago falava de provações. “Considerem motivo de grande alegria, meus irmãos, sempre que passarem por diversas provações.” Alegria? O pensamento pareceu-lhe absurdo, um contra-senso completo diante do vaso arruinado e da pressão no peito. Como encontrar alegria naquela sequência de fracassos?

Nos dias seguintes, a provação se intensificou. Um dos fornos menores rachou com o calor, exigindo reparos demorados. A filha caçula, Mara, adoeceu com febre, e as noites viraram vigílias, entrelaçadas com orações sussurradas e um medo surdo. Eliazer sentia-se como a argila sob sua mão: pressionado, torcido, prestes a perder sua forma. A fé que ele professava nos encontros secretos à beira do rio Jordão parecia, naqueles momentos, algo frágil e distante, uma teoria que não resistia ao calor do forno da vida cotidiana.

Certa noite, exausto, sentou-se no limiar da porta, após Mara finalmente adormecer serena. O céu estava estrelado, uma imensidão fria e silenciosa. A palavra “alegria” de Tiago voltou à sua mente, não como um imperativo, mas como um enigma. Ele não *sentia* alegria. Sentia cansaço, preocupação, uma ponta de desespero. Talvez, pensou lentamente, a questão não fosse o sentimento. Talvez a “alegria” de que Tiago falava não fosse um sorriso fácil, mas uma posição da alma. Considerar. Avaliar de um certo ponto de vista. Era como olhar para o vaso quebrado e, em vez de ver apenas a perda, enxergar a argila boa que ainda servia, pronta para ser remodelada. A provação testava algo. Testava a solidez do que ele acreditava.

Foi então que um insight brotou, lento como o óleo escorrendo de uma lamparina. “A sabedoria.” Tiago dizia que, se alguém precisasse de sabedoria, deveria pedir a Deus. Eliazer percebeu que sua oração naqueles dias tinha sido apenas um grito por alívio: “Tira isto de mim!”. Nunca um pedido por sabedoria para *atravessar* aquilo. Qual era a sabedoria necessária? Paciência, para consertar o forno. Perseverança, para amassar nova argila. Confiança, para cuidar de Mara. E talvez até um olhar crítico sobre seu próprio trabalho – a falha no vaso podia revelar um defeito na preparação da argila, um descuido que, não fosse a “provação”, ele jamais notaria.

O amanhecer encontrou-o de volta ao torno, mas com uma disposição diferente. Não era uma alegria efusiva, mas uma quietude resistente, uma determinação que brotava das raízes. Pedira sabedoria, e ela começava a chegar em fragmentos: na paciência da esposa, Ana, que trazia um pão simples e um sorriso cansado; no vizinho que ofereceu ajuda com os tijolos para o forno; na própria febre de Mara, que cedera e unira a família em torno de um cuidado terno. Ele viu que a perseverança – a “constância” de que Tiago falava – tinha uma obra a completar. O trabalho não era apenas suportar, mas permitir que o suportar o tornasse íntegro, completo, sem faltar nada.

E surgiu a grande batalha interior, a que Tiago alertava com tanta clareza. Quando as pressões externas diminuíram um pouco, veio a tentação interna, sutil e venenosa: a culpa amarga. “Deus está me punindo por algo? Minha fé é fraca? Por que os ímpios prosperam e eu, que tento seguir o Caminho, enfrento isto?” Era a voz que o incitava a duvidar da bondade de Deus, a atribuir a Ele a autoria do mal. Eliazer relembrou as palavras severas: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘Sou tentado por Deus’; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta.” O mal, percebeu, não vinha de cima. Vinha de suas próprias paixões desgovernadas – o orgulho ferido, a inveja do mercador bem-sucedido, a luxúria por uma vida mais fácil – que, acalentadas, geravam o pecado. A provação era externa; a tentação de desistir ou acusar Deus era interna. Cabia a ele, com a graça que pedia, manter os dois reinos separados.

O processo foi lento, como o esmalte que seca antes de ir ao fogo. Eliazer não se tornou um otimista insensato. As dificuldades continuaram, mas algo nele se firmara. A fé, que antes era como uma planta tenra, desenvolvera raízes mais profundas no solo rochoso da realidade. Ele aprendera a ouvir, num silêncio que não era vazio, mas expectante. “Sejam prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para se irar.” Aplicou isso ao discutir o preço com o mercador grego, ao ouvir as queixas de Ana, ao conter a língua afiada quando um aprendiz quebrou uma peça. A Palavra, que era como um espelho mostrando sua verdadeira face – um homem necessitado, imperfeito, mas amado –, ele agora não apenas olhava, mas se deixava moldar por ela.

Meses depois, a oficina de Eliazer era a mesma, e as provações da vida continuavam a vir, como as estações. Mas ele era diferente. Um dia, ao final do trabalho, pegou um pedaço de argila particularmente pura e começou a modelar, sem pressa. Não era uma encomenda. Era para si. Formou uma simples lamparina, de linhas sólidas e funcionais. Quando a retirou do forno, já fria, correu os dedos sobre sua superfície lisa e resistente. Ali estava um objeto que havia passado pelo fogo e servia para dar luz.

Sua vida, compreendeu, não era sobre evitar o calor do forno, mas sobre se tornar um vaso que pudesse suportá-lo e, de alguma forma, refletir uma centelha da luz que o moldara. A religião pura e imaculada, da qual Tiago falava ao final, não era uma lista de rituais, mas isso: cuidar da viúva Ana, sua vizinha, em sua tribulação; e guardar-se da corrupção do mundo que insistia em dizer que o sucesso era a única medida de um homem. Ele, Eliazer, oleiro em Jericó, aprendera a considerar. E na consideração, encontrara uma alegria profunda, quieta e indestrutível, que nem o calor do dia nem as tempestades da vida conseguiam evaporar. Era a alegria de quem sabe que está sendo feito, pacientemente, pelas mãos de um Oleiro que não erra, mesmo quando a argila, por um momento, parece ceder.

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