Bíblia em Contos

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O Despertar das Ruínas

A poeira de anos sem fim assentara-se sobre as pedras de Jerusalém. Não era a poeira leve e dourada do vento do deserto, mas uma cinza pesada, misturada com o resíduo de sonhos queimados e a desesperança que se impregnava nas vestes, no cabelo, no sabor do pão. Esdras, um homem cuja idade pesava mais nos ombros do que nos anos, sentava-se à sombra rachada de um muro que outrora fora parte de uma casa abastada. Seus dedos, nodosos como raízes de oliveira velha, traçavam círculos vagos na terra, sem verem nada. A cidade era um casulo vazio, seu povo espalhado pela Babilônia como grãos de trigo roubados do celeiro.

Os pés que passavam por suas ruas estreitas eram, em sua maioria, estranhos. Sandálias de couro grosso, calçadas por soldados com rostos duros e olhares distantes. O som da língua deles era áspero, um roçar de pedras, e cada palavra era um lembrete do cativeiro. Jerusalém vestia trapos, e o seu próprio povo, os poucos que restavam, parecia ter esquecido a melodia dos cânticos de Sião. Cantavam, quando cantavam, em sussurros, como se temessem profanar a memória da alegria.

Naquela tarde, porém, um vento diferente começou a agitar as pontas do manto surrado de Esdras. Não vinha do leste, carregando o cheiro do exílio. Parecia surgir do próprio monte do Templo, uma brisa súbita e limpa. Ele ergueu o rosto, e seus olhos, embaçados pelo tempo e pela tristeza, fitaram o monte onde outrora se erguia a casa de seu Deus. Agora, só havia silêncio e pedras desmontadas. Mas o vento insistia, e com ele veio uma voz. Não uma voz audível aos ouvidos, mas uma ressonância no osso, no sangue, no espírito adormecido.

*“Desperta, desperta,”* ecoava dentro dele, com a força de uma trombeta longínqua. *“Veste-te de força, ó Sião; veste as tuas roupas formosas, ó Jerusalém, cidade santa.”*

Esdras olhou para suas mãos empoeiradas, para suas vestes miseráveis. Roupas formosas? Ele quase riu, um som seco e amargo. Mas a voz não era de censura; era um chamado, um imperativo cheio de uma autoridade antiga. Era como se alguém sacudisse seus ombros após um sono longo e pesado. Ele se levantou, os joelhos rangendo, e olhou novamente para o monte. E, por um instante, não viu as ruínas. Viu uma promessa. Viu a cidade não como era, mas como seria: purificada, não mais pisada por pés incircuncisos, alvas como a neve no cimo do Hermom.

*“Sacode o pó,”* sussurrou para si mesmo, repetindo as palavras que agora fluíam em sua mente como um rio conhecido. *“Levanta-te, Jerusalém, solta as amarras do teu pescoço, ó cativa filha de Sião.”*

E ele compreendeu. O jugo não era apenas o ferro nos pulsos; era a resignação no coração. Era a crença de que a história deles havia terminado na fornalha da Babilônia. Mas a voz falava de um cativeiro que estava prestes a findar, não por mérito deles, mas por algo maior. *“Vós fostes vendidos por nada, e sem dinheiro sereis resgatados.”* A lógica do mundo era a da transação, do poder, do cativeiro por conquista. A lógica do Eterno era a da graça inexplicável. O resgate não tinha preço porque o Amor que o movia era a própria moeda.

E então, no ouvido de sua alma, ele ouviu os passos. Não os passos arrastados dos prisioneiros, mas um ritmo rápido e decidido sobre os montes. *“Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que anuncia o bem.”* Esdras apertou os olhos, olhando para o caminho que vinha do norte. Um mensageiro? Vários? Ele não via ninguém ainda, mas o som era claro: era o som da história dobrando-se, da página sendo virada. Eram notícias que fariam as sentinelas, aqueles velhos vigias cegos pela saudade, gritarem em uníssono. Porque veriam, com os própri olhos, o retorno do Eterno a Sião.

Uma agitação percorreu a cidade poeirenta. Algo mudara no ar. Outros anciãos saíram às portas, olhando uns para os outros com um questionamento mudo. O vento limpava a poeira, levando consigo o cheiro do lamento. E a voz dentro de Esdras crescia, tornando-se um canto solene e triunfal: *“O Senhor desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações.”* O braço que parecera encolhido, paralisado diante do inimigo, agora se revelaria. Não em segredo, mas diante do mundo. E todos os confins da terra veriam a salvação do Deus de Jacó.

E ele viu, numa visão que o transpassou, o povo partindo. Não como gado levado ao matadouro, mas como uma procissão sagrada. Saindo da Babilônia, da Assíria, de todos os lugares de impureza. *“Saí do meio dela, vós que levais os vasos do Senhor.”* Até os objetos comuns – uma tigela, um jarro –, se consagrados ao serviço do Templo, seriam tratados com reverência. A partida não seria uma fuga apressada, mas uma retirada digna, porque o Deus que os precedia seria também a sua retaguarda.

Esdras sentou-se novamente, mas não havia mais peso em seus ossos. As lágrimas que lhe rolavam pela face não eram de amargura. Eram de um alvoroço solene. Jerusalém ainda estava em ruínas. Os soldados ainda passeavam com suas sandálias estrangeiras. Mas algo se quebrara no invólucro do tempo. A alvorada, ainda invisível no horizonte, já aquecia o frio da noite. A cidade dormia em trapos, mas ela, a Sião de Deus, já começara a vestir, num reino invisível, suas vestes de núpcias. E ele, um velho esquecido numa rua empoeirada, era talvez a primeira testemunha. O despertar começava com um sussurro no espírito, antes de se tornar um grito nos montes. E ele sabia, com uma certeza mais sólida que as pedras ao seu redor, que os pés do mensageiro já tocavam os contrafortes de Judá.

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