Bíblia em Contos

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O Profeta Descalço de Asdode

O sol de Asdode era um peso opressivo sobre os ombros dos homens. Não aquele calor vital do deserto, seco e claro, mas um manto úmido e salgado, carregado do Mar Grande, que grudava as túnicas à pele e transformava a poeira das ruas em uma lama pálida. A cidade fervilhava, um caldeirão de medo e arrogância. Há três anos, a revolta contra a Assíria parecia uma ideia sólida, uma aliança de ferro entre Filisteus, Egito e Etiópia. Agora, o rumor era um só: Sargão, o rei touro da Assíria, marchava. E seu exército não era feito de homens, mas de um vento impiedoso que arrasava nações.

No meio desse fermento, Isaías, filho de Amoz, sentia o peso de uma palavra não dita. A Palavra, na verdade. Ela queimava dentro dele, não como um fogo de eloquência, mas como um carvão em brasa no íntimo do espírito. Ele havia andado por Jerusalém em silêncio por dias, sentindo o olhar do Eterno fixo sobre ele, não em visão, mas em uma imposição solene e terrível. O que lhe era pedido não era um discurso, mas um ato. Um sinal. E sinais, ele sabia, eram linguagem que homens e reis preferiam ignorar.

Naquela manhã, o chamado tornou-se insuportável. Sem explicar à sua família, com um nó de apreensão na garganta, ele despiu o manto de profeta, a túnica de linho que o identificava como servo do Deus de Israel. Ficou apenas com a roupa interior, um simples saco de estopa sobre a pele. O constrangimento foi uma onda de calor que lhe subiu ao rosto. Depois, ajoelhou-se no chão de terra batida de seu aposento e começou a desatar as correias de suas sandálias. Os vincos no couro, o cheiro familiar do caminho, tudo aquilo lhe era tirado. Seus pés, acostumados à proteção, ficaram nus e vulneráveis sobre o solo frio. Cada partícula de poeira, cada pedrinha insignificante, agora era sentida com uma crueza brutal.

Assim saiu, em pleno dia. O primeiro impacto do sol quente nas solas dos pés foi um choque. A areia da rua, misturada com detritos, grudou-se-lhe entre os dedos. Os olhares começaram como farpas discretas, depois se transformaram em suspiros de escândalo, em cochichos ásperos. “Está louco o filho de Amoz?”, ouvira alguém dizer. “Envergonha a si mesmo e ao Deus que serve.” Isaías não respondia. Seus olhos, porém, não tinham a vidência de um lunático, mas a clareza límpida e dolorosa de quem vê o que outros se recusam a enxergar. Ele não caminhava para o Templo, mas em direção aos lugares de confluência, onde os mercadores de Asdode e os embaixadores de Mênfis e de Cuche negociavam mais do que mercadorias: negociavam ilusões.

Chegou à praça principal, perto do portão onde os pescadores descarregavam suas redes. O cheiro de peixe salgado e âmbar queimado enchia o ar. Um grupo de oficiais filisteus, com seus elmos de bronze adornados com crinas de cavalo, discutia em voz alta sobre as defesas da cidade. Um deles apontou para Isaías com o queixo, um sorriso cruel estampado no rosto.

— Olhem só! Um profeta hebreu em trajes de escravo! Ou será um mendigo que perdeu mais do que a roupa?

A risada foi geral, áspera como o grasnar de gaivotas. Isaías parou diante deles. Não abriu a boca para proferir oráculos. Sua presença era o oráculo. A nudez de seus pés, a simplicidade humilhante de seu vestir, era uma palavra muda mais estrondosa que qualquer trombeta. Ele se virou e, com uma lentidão solene, começou a andar pela praça, um espectro vivo em plena luz do meio-dia. Algumas crianças jogaram pedrinhas em sua direção. Uma acertou-lhe o ombro. Ele nem se abalou.

Os dias se arrastaram assim. Três anos. Isaías, o homem que debatera com reis, que vira o serafim no Templo, transformara-se em uma instituição ambulante do absurdo. Sua pele escureceu e ressecou sob o sol. Seus pés criaram calos duros como couro, sulcados pelas pedras do caminho. Ele ia ao mercado, às portas da cidade, às docas. Sempre em silêncio. Sempre descalço. Sempre vestido apenas com aquele saco de estopa. Tornou-se uma figura familiar, um ponto de interrogação andante no meio da certeza arrogante de Asdode. Inicialmente, o escárnio fora constante. Depois, veio uma espécie de incômodo mudo. Finalmente, para alguns poucos de coração atento, uma inquietação profunda.

O que significava aquele homem? Qual mensagem estava gravada em sua postura humilhada?

A resposta chegou com a fumaça no horizonte. Primeiro foram os fugitivos, esfarrapados, com os olhos arregalados de terror, vindos do norte. Depois, os batedores filisteus que não retornaram. E então, num dia em que o céu parecia de bronze, o exército assírio apareceu. Não como um exército, mas como uma praga. A disciplina era aterradora. O rumor de seus passos em uníssono fazia tremer o chão. Seus escudos, uma muralha de bronze que refletia a luz do sol de maneira cega e hostil.

A tomada de Asdode não foi uma batalha; foi um esmagamento. Os muros, tão confiantes, ruíram sob o ímpeto dos aríetes. Os valentes filisteus, que tanto se gabavam do apoio do Egito, foram passados ao fio da espada como erva daninha. E Isaías, de seu posto habitual num outeiro fora da cidade, assistiu. Não com os olhos de um vitorioso, mas com a dor silenciosa de um médico que vê confirmado o diagnóstico fatal.

Viu os sobreviventes serem arrastados, nus e descalços, com argolas em seus pescoços, acorrentados uns aos outros. Homens que haviam zombado dele agora marchavam, com os pés sangrando nas pedras do caminho, para um cativeiro sem retorno. E, o mais humilhante, viu os embaixadores etíopes e egípcios, aqueles homens altivos de vestes finíssimas, aqueles em quem Asdode depositara toda a sua confiança, serem igualmente despojados e levados cativos. Suas riquezas não os salvaram. Seus exércitos poderosos, invocados em vão, não haviam vindo.

Foi então, no crepúsculo sangrento daquele dia, com o cheiro de cinzas e morte no ar, que Isaías finalmente abriu a boca. Não para a multidão cativa, mas para um pequeno grupo de seus conterrâneos de Judá que, aterrorizados, observavam a cena de longe. Sua voz saiu rouca, desgastada pelo longo silêncio, mas clara como o som de uma lâmina sobre pedra.

— Eis o que diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel — começou, e seus olhos percorreram os rostos pálidos diante dele. — Como foi o meu servo Isaías que andou nu e descalço durante três anos, como sinal e portento contra o Egito e contra a Etiópia, assim será o rei da Assíria. Ele levará cativos os egípcios e exilados os etíopes, jovens e velhos, nus e descalços, com as nádegas descobertas, para vergonha do Egito.

Houve um silêncio pesado. O sinal tornara-se realidade. A parábola viva desdobrava-se em carnificina e ferro. A nudez do profeta não fora loucura, mas uma verdade antecipada. A confiança em exércitos estrangeiros, em alianças com nações orgulhosas que não conheciam o Deus de Israel, era uma ilusão mortal. Era como construir uma casa sobre a areia na véspera de uma tempestade.

— E então — continuou Isaías, e sua voz carregava agora uma tristeza infinita —, qual será o desespero daqueles que colocaram sua esperança na Filístia? Que olharão para a ruína de seu refúgio e dirão: ‘Eis no que confiamos, buscamos proteção para fugir do rei da Assíria! E como escaparemos nós?’.

A pergunta ficou pairando no ar úmido, misturando-se à fumaça distante. Isaías se virou e começou a longa caminhada de volta a Jerusalém. Seus pés, agora endurecidos pela estrada, ainda sentiam cada pedra. Mas o peso maior não era físico. Era o peso de ter sido, ele mesmo, a mensagem. De ter encarnado, na própria carne, a humilhação que aguardava os que confiam no braço de carne. Ao longe, o lamento dos cativos era um murmúrio quase musical, uma melodia fúnebre para o ocaso de um mundo que preferira os ídolos do poder à nudez humilde da verdade.

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