A memória mais antiga que tenho daquela região não é de um lugar, mas de um som. Ou melhor, da ausência dele. Era um silêncio pesado e úmido, carregado pelo cheiro de terra molhada e resina, que pairava sobre os contrafortes das montanhas do norte. A gente chamava aquele trecho de “as escadas do Líbano”, onde a planície ia, aos poucos, se enrugando em colinas e depois se erguendo, teimosa, em picos onde o ar ficava frio e raro.
Subíamos em caravanas lentas, o balanço monótono dos animais, o tinir ocasional dos objetos de metal amarrados às cargas. Mas ali, naquele claro de bosque antes da ascensão final, havia uma pausa. E um silêncio que parecia vivo. Era como se a criação toda prendesse a respiraça, esperando por algo. Meu tio, um velho comerciante de madeiras, cuspia no chão de musgo e murmurava: “Aqui até os cedros sussurram de medo”. Eu, rapazoto, não entendia. Os cedros eram gigantes, pilares que sustentavam o céu, suas copas tão altas que se perdiam de vista. Que medo poderiam ter?
Até que um dia, no fim de uma tarde abafada, o silêncio se quebrou.
Não começou com vento. Começou com um peso. O ar ficou denso, metálico, como se pudesse ser cortado com uma faca. Os pássaros desapareceram. Os insetos calaram. A luz, antes dourada, tomou uma coloração estranha, de âmbar sujo. E então, veio da direção do mar, lá longe, sobre as águas vastas, um som que não era um trovão. Era um rugido. Um rugido profundo, arrastado, que não vinha das nuvens, mas parecia rasgar o próprio tecido do mundo. “A voz do Eterno”, disse meu tio, e seu rosto, sempre tão cínico, estava pálido. Ele não disse “Deus”. Disse “o Eterno”, com um tom que eu nunca lhe ouvira.
E aquela voz, aquela força pura que era som e poder indivisíveis, começou a marchar. Era como se um gigante de passos descomunais estivesse atravessando o mundo. Ela vinha sobre as águas, e o mar, mesmo à distância, devia se contorcer. Aquele primeiro rugido foi um aviso, um despertar cósmico. Depois, ela atingiu a terra.
O som não estalava. Partia. Um *craque* seco, absoluto, seguido de um estremecimento que subia pelas solas dos pés. Uma árvore enorme, um carvalho velho, não rachou – desintegrou-se, explodiu em milhares de lascas brancas como ossos, lá no vale abaixo. A voz do Eterno não quebra; ela desfaz. Ela não argumenta; ela declara. E sua declaração é um decreto de desintegração para tudo que é vão, oco, que só tem a aparência de força.
Nossa caravana se aglomerou, animais empacados, olhos arregalados. A escuridão chegou rápida, engolindo a cor do mundo. E então, a voz encontrou os cedros.
Ah, os cedros do Líbano. Orgulho de reis, símbolo de impérios, madeira para templos e palácios. Eles não sussurravam mais. Estavam enrijecidos, sua altivez secular agora parecia uma afronta frágil diante daquela aproximação. A voz veio não como um só trovão, mas como uma série de golpes de um imenso martelo celestial. *Kerav!* Um clarão branco-azulado iluminou a floresta inteira, congelando a cena por uma fração de eternidade: os troncos maciços, as copas distantes, o terror nos rostos. O som que se seguiu não foi um estrondo. Foi uma quebra. O baque de algo infinitamente grande sendo derrubado.
Ouviu-se, distintamente, o gemido da madeira viva sendo desraizada, o estalo de raízes mais grossas que corpos de homens sendo arrancadas do seio da terra, e depois o baque surdo, abafado pelo tapete de séculos de folhas, daqueles gigantes caídos. A voz do Eterno saltava, dançava sobre as montanhas. Cada pico era um tambor para seus pés de fogo. O Hermom, a montanha sagrada, tremeu como um cordeiro. Vi, naquelas luzes fantasmagóricas, o perfil majestoso da montanha estremecer, e por um instante louco, me pareceu que ela iria se desmanchar, derretendo como cera.
E no meio daquele caos, daquela exibição de força bruta que fazia o mundo parecer de papel, vinha uma estranha ordem. A voz tinha uma cadência. Uma música terrível. Ela não era um mero furor da natureza. Era personalidade. Era vontade. Era palavra. Cada explosão de luz e som era uma sílaba de um idioma que os ossos entendiam, mas a mente não podia traduzir. Era o verbo que fez os céus sendo usado agora para dobrá-los, para sacudi-los como um tapete.
A tempestade passou. A voz se retirou, rolando para o deserto, ecoando nas solidões do Neguev até se perder no grande silêncio. A chuva que veio depois foi mansa, quase terna, lavando o cheiro de ozônio e pó de rocha.
E no silêncio que voltou – um silêncio agora diferente, purgado, humilde – ficamos nós, criaturas minúsculas e encharcadas, e a floresta transformada. Onde antes se erguiam fileiras soberbas de cedros, agora havia um campo de derrubada divina. Troncos partidos, raízes para o ar como membros desarticulados de colossos. A devastação era total. Era… gloriosa.
Porque não era uma destruição sem sentido. Era uma demonstração. Como quando um rei desembainha sua espada apenas para que o brilho do aço, sob o sol, lembre a todos de onde vem a verdadeira autoridade. Aquele bosque era o cetro de madeira do mundo, e o Eterno o tinha quebrado sobre seu joelho, só para mostrar que podia.
E então, na tenda gotejante, com o som da água pingando em um balde de metal, meu tio, ainda tremendo, começou a cantarolar baixinho um antigo canto. E as palavras, então, fizeram sentido: “O Eterno dará força ao seu povo; o Eterno abençoará seu povo com paz”.
A verdadeira força, percebi naquela hora, olhando para os cedros despedaçados, não está em permanecer de pé. Está em saber diante de quem se deve curvar. A paz não é a ausência da voz trovejante. É a certeza, gravada no coração pelo próprio estrondo, de que aquela voz, no fim de todas as coisas, diz: “Este é o meu filho amado”. E no deserto de nossa alma, depois que a tempestade da sua palavra passa, só fica a chuva mansa, e a força que vem não do que construímos, mas do que sobrevivemos para ouvir: a benção no eco do trovão.




