O sol da Mesopotâmia batia forte sobre a coluna de pessoas e animais que se alongava pela estrada poeirenta. Esdras sentiu o peso do rolo de pergaminho contra seu peito, não o peso físico, mas o da autoridade que trazia consigo. A carta de Artaxerxes, rei da Pérsia, era sua proteção e sua missão. Ele parou por um momento, deixando que o burro que montava seguisse o ritmo lento da caravana, e olhou para trás. Uma multidão de rostos, famílias inteiras com seus feixes de esperança amarrados em trouxas e carroças. Eram israelitas, como ele, descendentes daqueles que Nabucodonosor levara cativos. Agora, quase um século depois, voltavam.
O ar épico daquela partida, porém, era cortado por realidades ásperas. Crianças choramingavam com o calor. Um eixo de carroça rangia, precisando de graxa. O cheiro do pó, dos animais, do suor humano, formava uma névoa tangível sobre o grupo. Esdras respirou fundo. Havia se preparado para isso, reunindo os chefes de família, examinando as genealogias com um cuidado meticuloso que lhe era característico. Mas agora, diante do deserto que se estendia como um mar amarelo e hostil, os números em seus registros ganhavam outra dimensão. Eram pessoas. E ele era responsável por cada uma.
Uma inquietação começou a roer sua paz, uma percepção aguda que não o deixava em paz desde que passaram pelo último posto de controle persa. Ele convocou os principais líderes, homens como Serebias, Hasabias e Jesael, cujas faces calejadas refletiam a seriedade do momento. Reuniram-se à sombra escassa de um outeiro rochoso.
— Irmãos — disse Esdras, sua voz era calma mas carregada de uma tensão contida. — Contamos nossos homens, nossos tesouros para o Templo, nossa provisão. Mas senti o coração apertar. Procurando entre nós, não encontrei um só dos filhos de Levi.
Houve um silêncio. O murmúrio da planície parecia aumentar. Um levita. Alguém dedicado ao serviço da Casa de Deus, para cuidar dos vasos sagrados, para dirigir o culto, para ser o elo vivo entre aquele povo e as memórias do culto em Jerusalém. A ausência era como um buraco no centro de seu propósito. Como apresentar-se diante de Deus com tanto ouro e prata, mas sem aqueles que saberiam honrá-lo?
— Precisamos corrigir isso — declarou Eliezer, um homem de poucas palavras, mas de olhar firme. — Não podemos seguir.
Esdras concordou com um aceno grave. Enviaram mensageiros de volta, a um lugar chamado Casifia, onde sabiam haver uma colônia de levitas. A espera que se seguiu foi de oração e ansiedade. Os dias se arrastavam. A poeira assentava sobre as barracas. A fé de Esdras era profunda, mas era uma fé que suava e duvidava em silêncio, que escutava o vento do deserto como se ele pudesse trazer notícias. Até que, numa manhã, avistaram uma pequena comitiva se aproximando.
Entre eles, vieram Serebias, um homem com um ar sábio e tranquilo, e com ele seus filhos e irmãos, dezoito ao todo. E também Hasabias e Isaías, dos filhos de Merari, com seus parentes, vinte homens. Não era uma multidão, mas era suficiente. Esdras os recebeu com lágrimas nos olhos, um alívio áspero e bom na garganta. A comunidade estava mais completa. Agora sim, com servidores do Templo entre eles, sentiram-se preparados para consagrar a jornada.
E foi então, diante da vastidão ameaçadora do caminho, que Esdras tomou a decisão que marcaria a alma daquela travessia. Convocou todo o povo a um jejum. Não um jejum de orgulho, mas de humilhação profunda.
— Nosso Deus — proclamou, sua voz ecoando na quietude que se fez ao redor — vê a nossa fraqueza. A estrada é longa e perigosa. Bandos de saqueadores espreitam nestas paragens. Seria ingenuidade, ou pior, soberba, confiar apenas na força de nossos braços ou na carta do rei. Precisamos dobrar nossos joelhos, abater nossa carne, e buscar d’Ele uma viagem segura para nós, para nossos filhos, e para tudo o que nos foi confiado.
A cena que se seguiu foi de uma beleza austera. Homens, mulheres e crianças, vestidos com roupas simples, sentaram-se na poeira. Não houve discursos longos. Apenas um silêncio quebrado por suspiros de súplica, pelo choro contido das crianças que sentiam a gravidade dos adultos. Esdras, no centro, sentia o estômago vazio latejar, mas era um lembrete físico de uma dependência espiritual total. Eles se lançavam, nus de qualquer pretensão de autossuficiência, na misericórdia do Deus que os chamava de volta.
Após o jejum, houve uma solenidade nova no ar. Esdras, com mãos cuidadosas, separou doze dos principais sacerdotes. Diante de todos, pesou e entregou nas suas mãos a imensa riqueza que levavam: a prata, o ouro, os vasos preciosos ofertados pelo rei e seus conselheiros, as dádivas voluntárias do povo. Cada talento, cada siclo, foi contado e registrado diante de testemunhas.
— Vocês são santos ao Senhor — disse Esdras, fixando os olhos naqueles homens. — Estes vasos também são santos. O ouro e a prata são oferta voluntária ao Deus de nossos pais. Vigiem sobre isso. Guardem com a vida até que, em Jerusalém, possamos pesá-los novamente nas câmaras da Casa do nosso Deus.
Era um ato de confiança monumental. Não havia escolta militar persa. A segurança daquela fortuna, que poderia tentar a gança de reinos inteiros, estava depositada na integridade daqueles homens e, no fim de tudo, na fidelidade de Deus, a quem haviam suplicado.
A viagem, então, recomeçou. Os pés levantaram nuvens de poeira dourada ao pôr do sol. As noites eram frias, e o céu, uma abóbada pontilhada de estrelas que pareciam testemunhas silenciosas. O medo não desapareceu totalmente — era possível ouvir o uivo de hienas ao longe, ver as sombras sinistras de cânions à distância —, mas uma paz peculiar os acompanhava. Era a paz de quem havia transferido o fardo. Esdras, montado em seu burro, sentia-se leve, apesar do cansaço.
Durante dias, a coluna serpentou por vales e colinas. Até que, numa tarde em que o sol começava a se inclinar, um grito vindo da frente da comitiva ecoou. Os mais altos, nas elevações, apontavam para o horizonte. Lá, em meio a um relevo acidentado, vislumbraram formas que não eram da natureza. Muros. Torres. A silhueta inconfundível de uma cidade assentada sobre colinas.
Jerusalém.
Não houve explosão de alegria desenfreada. Foi um momento de comoção profunda, quase silenciosa. Lágrimas corriam por rostos empoeirados. Alguns caíram de joelhos na terra. Outros abraçaram-se sem palavras. Era a cidade dos sonhos de seus avós, a cidade das promessas, agora diante de seus olhos, real, em ruínas, mas viva. O coração de Esdras batia forte contra o rolo do pergaminho. Haviam chegado.
Os primeiros dias na cidade foram de descanso e de ajuste. No terceiro dia, reunidos num pátio amplo perto do que fora o Templo, realizaram a prestação de contas. Os sacerdotes levaram os tesouros. As balanças foram trazidas. Num silêncio absoluto, o ouro, a prata e os vasos foram pesados novamente. Cada item. Nada faltou. Nem um único vaso se quebrara, nem um único siclo se perdera. Esdras registrou tudo meticulosamente, e um suspiro coletivo de gratidão e alívio tomou conta de todos. A fidelidade de Deus se estendera como um muro invisível ao seu redor.
Então, vieram os sacrifícios. Holocaustos de novilhos, carneiros e cordeiros, sobre um altar reconstruído. A fumaça subiu pura em direção ao céu de Judá, carregando o cheiro do compromisso renovado, da gratidão por um livramento que fora, do começo ao fim, uma graça. Apresentaram-se também os decretos do rei aos sátrapas e governadores da região, que, vendo a mão de Deus sobre aquele povo, deram-lhes todo o apoio necessário.
Esdras, ao final daquela longa jornada, de pé entre as pedras da cidade de seus pais, olhou para o povo reunido, para as chamas do altar, para as ruínas que esperavam para ser restauradas. A estrada poeirenta da Babilônia estava para trás. A memória do jejum no deserto, do medo e da entrega, estava cravada em sua alma. A história não era apenas sobre uma mudança de lugar. Era sobre o que acontece quando um homem, e um povo, reconhecem sua fragilidade e, em meio ao pó do caminho, decidem confiar não em cartas de reis, mas no Rei invisível que guarda suas promessas através dos desertos da vida.




