Bíblia em Contos

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Os Nomes da Restauração

A poeira do retorno ainda não havia assentado totalmente sobre os velhos muros de Jerusalém. Uma cidade espectral, cheia de ruínas e memórias, tentava respirar novamente. Os que voltaram da Babilônia não eram uma multidão triunfante, mas um punhado de teimosos, carregando nas costas o peso de uma promessa e nos olhos a imagem de um Templo que já não existia. Foi nesse tempo de frágeis reconstruções que os registros foram abertos, os rolos empoeirados consultados, e os nomes, tantos nomes, foram cuidadosamente inscritos. Não como uma mera lista, mas como um ato de resistência. Cada nome era um fio reconectado na tapeçaria rasgada do povo de Deus.

Entre esses retornados, destacavam-se os filhos de Judá, de Benjamim, de Efraim e de Manassés. Homens como Utaí, filho de Amiúde, neto de Ômri, bisneto de Imri, descendente de Bani. Parece uma sequência árida, não é? Mas para aqueles que haviam perdido tudo, saber de onde vinham era saber quem eram. Era reconstruir a identidade a partir das raízes. Eles não eram mais exilados; eram o elo vivo de uma cadeia que a fornalha babilônica não conseguira quebrar.

Mas o coração daquele registro latejante estava no serviço. Enquanto pedreiros trabalhavam nas pedras do novo Templo, uma outra fundação, invisível e vital, era restaurada: o culto. E ali estavam os nomes dos sacerdotes, aqueles que poderiam se aproximar. Jedias, Jeoiaribe, Jaquim. Azarias, filho de Hilquias, neto de Mesulão… uma linhagem que era um sacerdócio vivo. E os levitas, a tribo consagrada ao serviço. Semaías, Hasabias, Matanias… este último, curiosamente, descrito como aquele a quem foi confiado o encargo das coisas que se faziam em frigideiras. Um detalhe ínfimo, quase doméstico. Porque o sagrado também se fazia no aroma do pão da proposição, no azeite que fumegava nas ofertas. A liturgia era composta de gestos cotidianos elevados à eternidade.

E os porteiros. Ah, os porteiros! Salum, Aitel, Talmon, Acube, Hatita, Sobai… seus nomes soam como sentinelas. Eles guardavam os umbrais, as entradas, os armazéns. Sua função parecia pequena, mas que metáfora poderosa! Após o exílio, guardar as portas era guardar a própria identidade, era decidir o que entrava e o que ficava de fora, era proteger o núcleo frágil da restauração. Eles dormiam ao redor da casa de Deus, porque sua vigilância era perpétua. E as chaves? Estavam com eles. Um símbolo de autoridade e de uma confiança imensa. Abrir e fechar. Permitir o acesso ao Santo. Há uma dignidade imensa nisso.

Outros nomes surgem, ligados a funções específicas: os encarregados dos utensílios, que os contavam ao guardar e ao tirar; os responsáveis pelos móveis e por todos os objetos sagrados; os que cuidavam do óleo da unção, do incenso fino, das especiarias. E os cantores. Estes, talvez, fossem os mais poéticos da restauração. Etan, Hemã, Jedutum, Asafe… suas vozes, herdadas de pai para filho, eram a trilha sonora da esperança. Enquanto as mãos levantavam paredes, suas vozes levantavam lamentos e louvor, mantendo viva a memória dos cânticos de Sião que, outrora, penduraram suas harpas nos salgueiros da Babilônia. Agora, as harpas tinham voz novamente.

Havia também os gateus, homens de Gá, uma família de guerreiros que, em tempos de paz, colocavam sua força a serviço do rei nos assuntos sagrados. A força física também era um dom a ser consagrado.

O texto faz uma pausa, um recuo no tempo, e lembra de forma breve os antigos moradores de Jerusalém, antes da queda. Os chefes das famílias, os valentes que habitavam a cidade nos dias de outrora. Era um lembrete de que aquela reconstrução não era um novo começo do zero, mas um renascimento a partir de uma história que, embora interrompida pela desobediência, não fora cancelada pela graça.

E então, a narrativa se fixa em um homem concreto, um benjamita, cuja descrição sai do plano dos nomes e ganha carne e ação. Era Mesulão, filho de Hodavias, neto de Hasenuá. Ele não era sacerdote, cantor ou porteiro. Era o pai de várias famílias, um homem de peso em sua tribo. E ele, com sua casa, habitou Jerusalém e trabalhou nela. Ação simples, profunda. Habitar e trabalhar. Ficar, plantar, construir, suar, criar raízes na terra prometida que, agora, precisava ser mais do que promessa, precisava ser lar.

E também fala de Fineias, filho de Eleazar, como supervisor antigo dos porteiros. “O SENHOR era com ele”, diz o texto, de forma solene e direta. Uma chancela divina em um cargo aparentemente administrativo. Porque onde Deus está, nenhum serviço é pequeno.

A crônica termina seu foco nos porteiros, mencionando como, em eras passadas, eles guardavam os acampamentos e as entradas do Tabernáculo, e como seus descendentes, fieis à aliança, receberam essa guarda por herança perpétua. É um círculo que se fecha: do Tabernáculo móvel no deserto ao Templo de pedra em Jerusalém, da tenda à cidade, a mesma fidelidade era requerida.

A lista, em sua aparente frieza, é na verdade um caloroso afresco da comunidade da aliança. Não são heróis espetaculares, mas fiéis. São homens que contam utensílios, cantam salmos, guardam portas, assam pães, abrem e fecham com chaves. A restauração do povo de Deus, aquele núcleo frágil pós-exílio, não dependia apenas de profetas e governantes, mas da fidelidade anônima destes. Cada nome no registro de Crônicas é um tijolo vivo na muralha invisível que protegia a identidade de Israel. Eram a prova de que Deus, ao restaurar seu povo, o fazia desde as fundações, pessoa por pessoa, família por família, chamando cada um pelo nome e designando-lhe um lugar no seu serviço. E nesse intricado e belo organismo de funções e nomes, a presença de Deus encontrava, de novo, uma casa para habitar.

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