Bíblia em Contos

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Bíblia

A Voz Que Venceu o Sepulcro

A estrada poeirenta que levava a Betânia parecia mais longa do que de costume. O sol da Judeia batia forte sobre as pedras claras, e o ar parado carregava o cheiro seco da terra e do mato rasteiro. Em uma casa simples, de portas abertas para captar qualquer brisa, Marta movia-se de um lado para o outro, seu rosto marcado por uma ansiedade que a agitação não conseguia aliviar. Seus olhos voltavam-se, a cada instante, para o quarto onde Lázaro, seu irmão, jazia em seu leito, a respiração um fio tênue e rouco.

Maria estava sentada no chão, ao lado da cama, seu olhar fixo nas mãos do irmão, que agora pareciam tão pálidas e finas. A febre que os pegara de surpresa havia se enraizado em Lázaro com uma força cruel. O suor que lhe orlava a testa não era de esforço, mas de um combate interior que parecia estar sendo perdido. “Ele virá”, Maria sussurrou, mais para si mesma do que para ninguém. “Quando souber, ele virá.” Referia-se a Jesus, o Rabi, o amigo que compartilhara tantas refeições em sua mesa, cujas palavras tinham um peso diferente de todas as outras.

Marta, prática e resoluta, foi quem tomou a decisão. Chamou um dos jovens que ajudavam com os animais e, com a voz embargada, mas firme, ditou a mensagem: “Vá até onde o Mestre está. Diga-lhe apenas isto: ‘Senhor, aquele a quem amas está doente.'” O jovem partiu num ritmo urgente, e as irmãs ficaram à espera, alimentando uma chama de esperança. Sabiam do poder daquele homem. Tinham visto os sinais. A cegueira que se desfazia em olhos claros, a paralisia que se convertia em dança. Para ele, aquela febre seria como a poeira que se sacode das sandálias.

Mas os dias se arrastaram, pesados e quentes. A respiração de Lázaro tornou-se um gemido, depois um silêncio entrecortado, e por fim, um silêncio completo. O médico local veio, examinou os olhos vidrados, o corpo já frio, e balançou a cabeça com uma resignação antiga. O pranto que se levantou na casa não foi imediato. Veio primeiro como um vácuo, um ar que faltava no peito de Marta. Depois, Maria começou a chorar baixinho, um som contido e profundo como água de fonte. A morte, com seu ritual imemorial, instalou-se em Betânia. O corpo foi ungido, envolto em faixas de linho, e levado para o sepulcro escavado na rocha, à beira da colina. A pedra foi rolada sobre a entrada, e com ela, pareceu rolar-se sobre a luz do mundo para aquelas duas mulheres.

A notícia chegou a Jesus onde ele estava, do outro lado do Jordão. Ele recebeu o recado com um olhar grave, mas não se moveu. Dois dias passaram. Os discípulos, aliviados pela pausa na tensão com as autoridades de Jerusalém, estranharam quando, ao amanhecer do terceiro dia, ele disse: “Vamos outra vez para a Judeia.” A preocupação foi imediata. “Rabi”, disseram Tomé e outros, “há pouco os judeus procuravam apedrejar-te. E voltas para lá?” A resposta de Jesus foi enigmática, falando de caminhar enquanto há luz, e de um amigo que adormeceu. Os discípulos, aliviados, interpretaram ao pé da letra: “Senhor, se dorme, ficará bom.” Foi então que Jesus lhes disse claramente, olhando para os olhos de cada um: “Lázaro morreu. E, por causa de vós, alegro-me de que eu lá não estivesse, para que possais crer. Mas vamos até ele.”

A jornada de volta foi silenciosa, carregada de um pressentimento. Quando se aproximaram de Betânia, souberam que o corpo já estava no túmulo havia quatro dias. A vila parecia diminuta sob o peso do luto. A notícia da chegada de Jesus correu rápido. Marta, ouvindo, saiu apressada ao seu encontro, deixando Maria em casa, sentada no chão, rodeada de amigos que choravam. Ao ver o Mestre, as palavras de Marta brotaram entre a dor e uma centelha de acusação contida: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.” Era uma declaração de fé, mas também um registro da ausência. E num fôlego seguinte, como quem agarra uma tábua em um naufrágio, acrescentou: “Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá.”

Jesus fitou-a, a poeira da estrada ainda em seus próprios pés, e disse: “Teu irmão há de ressurgir.” Marta, boa conhecedora da doutrina, respondeu com a ortodoxia do último dia: “Sei que há de ressurgir na ressurreição, no último dia.” Foi então que as palavras caíram como uma pedra nas águas paradas de sua alma: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês isto?” Não era mais uma questão sobre o futuro escatológico, mas sobre o presente, sobre a pessoa que estava diante dela, com os olhos cansados e cheios de uma autoridade serena. Marta, num ato de entrega que ia além da compreensão, confessou: “Sim, Senhor. Eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.”

Depois de dizer isso, foi chamar Maria, em segredo. Maria levantou-se rápido e saiu, seguida pelos amigos que pensavam que ela ia ao túmulo para chorar. Ao ver Jesus, caiu aos seus pés e repetiu, com a voz quebrada pelo pranto, as mesmas palavras de Marta: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.” Vendo-a chorar, e vendo chorar os judeus que a acompanhavam, Jesus comoveu-se profundamente no espírito e perturbou-se. “Onde o colocastes?”, perguntou. Eles responderam: “Senhor, vem e vê.” E então, Jesus chorou. Lágrimas silenciosas que rolaram por seu rosto, um homem diante da morte de um amigo. Alguns dos presentes murmuraram: “Vede como o amava!” Outros, porém, com uma semente de ceticismo: “Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer com que este não morresse?”

Chegaram ao túmulo. Era uma caverna, e uma pedra encostava à entrada. O ar pesava, com o cheiro seco da rocha e uma outra nota, sutil e ameaçadora. Jesus ordenou: “Tirai a pedra.” Marta, a prática, a do mundo real, interveio, horrorizada: “Senhor, já cheira mal, porque é de quatro dias.” Jesus olhou para ela, e naquele olhar havia um convite a ver além do cheiro, além da pedra, além da realidade mais imediata e opressiva. “Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus?” Hesitaram, mas obedeceram. Homens se adiantaram, puseram os ombores na pedra áspera, e com um rangido baixo e um ruído de terra deslocada, a entrada do sepulcro foi desobstruída. A escuridão interior parecia sólida.

Jesus levantou os olhos, num gesto íntimo e público ao mesmo tempo, e disse: “Pai, graças te dou porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves, mas assim disse por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste.” E então, ergueu a voz. Não uma voz de comando teatral, mas uma voz clara, que carregava uma ordem que atravessava fronteiras que nenhum som humano poderia transpor: “Lázaro, vem para fora!”

Houve um silêncio. Um silêncio tão denso que se podia ouvir o zumbido de um inseto distante. Os olhos de todos estavam cravados naquela escuridão. E então, um ruído. Um leve arrastar de pés sobre a pedra. Uma figura emergiu, lenta, desajeitada, ainda envolta nas faixas de linho que prendiam seus braços e pernas, com um lenço dobrado separadamente em volta do rosto. Era um espectro de linho e mortalha, parado à entrada do túmulo. Um calafrio percorreu a multidão, um misto de terror e incredulidade. Jesus disse, com uma tranquilidade desconcertante: “Desatai-o e deixai-o ir.”

As pessoas mais próximas, tremendo, se aproximaram. As mãos que tocaram as faixas sentiram o calor da pele por baixo. Desenrolaram o linho, tiraram o lenço do rosto. E ali estava Lázaro. Pálido, confuso, olhando para a luz do dia como quem vê pela primeira vez, mas vivo. Respirando. O cheiro de morte havia se dissipado, substituído pelo suor do espanto e pelo perfume do óleo de nardo que Maria guardaria para outro dia. Não houve um grito triunfal, nem uma celebração estridente. Houve um espanto mudo, depois um murmúrio que cresceu como o vento, e muitos, naquele momento, creram. Outros, porém, saíram dali com um novo tipo de medo, um medo que se transformaria em decisão. Enquanto isso, Lázaro, em sua casa, sentado à mesa, talvez não dissesse grande coisa. Apenas estaria ali, presente, um testemunho silencioso de que, às vezes, a voz que chama nosso nome é mais forte até do que o silêncio do sepulcro.

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