Bíblia em Contos

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Cegueira e Profecia em Jerusalém

O sol daquele verão em Jerusalém não era um astro, mas um olho opaco e indiferente sobre a desgraça. O ar, espesso com a poeira de pedras desmoronadas e o cheiro agridoce do cerco — fumaça, suor e desespero —, pesava nos pulmões como se fosse de chumbo. Havia quase dois anos que os babilônios apertavam o cerco em torno da cidade, e agora, no nono ano de Zedequias, a muralha finalmente cedeu. Não com um estrondo épico, mas com um gemido longo e poeirento, naquele quarto dia do quinto mês.

De onde observava, confinado no pátio da guarda, Jeremias sentiu o tremor sob os pés descalços. Não era surpresa. As palavras que carregara por décadas, amargas como fel, tinham agora o gosto seco da realização. Ele fechou os olhos por um instante, não em oração, mas num cansaço profundo que ia além dos ossos. O ruído que invadiu a cidade a seguir não era composto apenas dos gritos de guerra, mas do som visceral do medo: portas a estilhaçar, passos desordenados, o choro rouco de quem já não tem mais lágrimas.

No palácio, o rei Zedequias deve ter ouvido o mesmo. O relato posterior diria que ele agiu como um animal acuado, e talvez fosse a verdade mais pura. A corte era um formigueiro pisoteado. À luz bruxuleante das tochas, sob o manto escuro da noite que se seguia à brecha, ele reuniu o que restava de seus capitães e da guarda real. Seus olhos, outrora cheios de uma teimosa esperança, agora viam apenas o túnel escuro da fuga. Eles saíram pela porta entre os dois muros, ali perto do jardim do rei, rastejando mais do que marchando, com o coração batendo no ritmo do pânico. O vale do Jordão parecia uma promessa distante.

A planície de Jericó, porém, não ofereceu refúgio. O dia raiou implacável, revelando não a liberdade, mas a silhueta inconfundível dos cavaleiros caldeus. Foram alcançados como homens já derrotados, que são. Zedequias, o último rei da linhagem de Davi a sentar no trono de Jerusalém, foi arrastado perante o rei Nabucodonosor, que estava acampado em Ribla, na terra de Hamate. O encontro foi curto e brutal. As palavras trocadas, se é que houve muitas, se perderam para a história. O que ficou registrado foi a sentença executada na hora: diante dos olhos de Zedequias, seus filhos foram mortos. E depois, todos os nobres de Judá. O ato final da vingança real foi cegá-lo. Ferro aquecido ou lâmina afiada, a história não detalha; apenas registra que, após ver a morte de sua descendência, seus olhos foram vazados. Preso então com grilhões de bronze, foi levado para a Babilônia, um homem que viajava para um cativeiro perpétuo, carregando como única paisagem as últimas imagens de um massacre.

Enquanto isso, Jerusalém ardia. Nebuzaradã, o capitão da guarda, um homem cujo nome a cidade aprenderia a temer, entrou com a frieza eficiente de um açougueiro. A casa do rei, as casas do povo, todo o grande muro em redor da cidade — tudo foi posto abaixo. O que o fogo não consumiu, o machado e a marreta desfizeram. Foi uma desconstrução metódica, um apagar deliberado de uma cidade do mapa. E o povo que restara, os pobres, os feridos, os que se esconderam nos buracos mais profundos, foram reunidos como gado e marchados para o exílio. Só os mais miseráveis, os que nada tinham, foram deixados para trás, para serem vinhateiros e lavradores, as raízes fracas de uma terra agora esvaziada.

No meio dessa ruína toda, houve uma ordem específica. Nabucodonosor falara de um certo profeta. Jeremias foi tirado do pátio da guarda, onde estivera confinado, e trazido perante Nebuzaradã. O capitão babilônio o olhou, não com desdém, mas com uma curiosidade resignada. “Toma-o, e põe sobre ele os teus olhos, e não lhe faças mal algum; mas como ele te disser, assim procederás para com ele.” As palavras do rei eram uma estranha proteção. Jeremias, o homem que pregara a rendição, era poupado pela máquina de guerra que ele mesmo anunciara.

Assim, Jeremias não foi amarrado com cordas para a marcha da morte. Permitiram-lhe escolher. E ele escolheu ficar. Não na cidade esfacelada, mas entre o povo remanescente, os pobres da terra, sob Gedalias, a quem os babilônios nomearam governador. Foi um ato silencioso de solidariedade, uma permanência entre as ruínas que ecoava sua mensagem teimosa de esperança no depois do juízo.

E houve outro, naquele dia, que recebeu uma palavra antes do caos. Ebed-Meleque, o etíope, um estrangeiro no palácio, aquele que outrora resgatara Jeremias da cisterna lamacenta. Enquanto o fumo ainda subia dos escombros, a palavra do Senhor veio ao profeta, uma mensagem para ser entregue num sussurro no meio do alvoroço: “Vai, e dize a Ebed-Meleque: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eis que cumprirei as minhas palavras sobre esta cidade para mal, e não para bem; e se cumprirão diante de ti naquele dia. Mas a ti te livrarei, e não serás entregue nas mãos dos homens a quem temes. Porque certamente te salvarei, e não cairás à espada, mas a tua vida terás por despojo, porquanto confiaste em mim.”

E assim foi. Enquanto a cidade de pedra morria, duas vidas foram poupadas: a do profeta que falara a verdade dura, e a do estrangeiro que mostrara misericórdia. No grande tear da história, enquanto os fios dourados do reino eram cortados com violência, dois fios humildes — um de linho gasto, outro de lã escura — foram preservados. Tecidos num outro desígnio, silencioso e profundo, que só a fé, às vezes, é capaz de enxergar no meio do fumo e da ruína.

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