Bíblia em Contos

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Bíblia

O Grito do Profeta no Templo

O ar em Jerusalém carregava o cheiro misturado de pó quente, carne de oferta queimada e o suor acre da multidão. Era um daqueles dias de peregrinação, um dos grandes festivais, e a cidade fervilhava. De todas as regiões de Judá, eles vinham, empurrando pelas portas, vestindo suas melhores roupas, conduzindo animais relutantes. O alvo de todos era o mesmo: o pátio do Templo, aquele imenso espaço de pedra clara que reverberava com o balido de cordeiros, o tilintar de moedas dos cambistas, e o murmúrio constante de orações.

Jeremias observava tudo de um canto, perto do Portão do Peixe. Seus olhos, fundos e escuros, percorriam a cena não com o fervor de um devoto, mas com uma dor silenciosa, pesada. Via o mercador de Tecoa, aquele que sonegava medidas de grão no mercado, agora com um cordeiro imaculado nos braços. Via o ancião que havia testemunhado falso num julgamento de terras, lavando as mãos com água ritual. Ouvia os gritos dos vendedores de amuletos – pequenos ídolos de fertilidade, disfarçados de lembranças sagradas – e ninguém os repreendia. O Templo, naquele turbilhão, parecia menos uma casa de oração e mais um mercado ruidoso, um talismã gigante de pedra no qual todos depositavam uma confiança cega e perigosa.

A voz dentro dele, aquela que queimava como carvão vivo em seu peito, já não podia ser contida. Não era mais uma sussurro, era uma torrente. Ele se moveu, não em direção ao altar, mas para um local de passagem, perto da porta norte. Suas sandálias bateram contra as lajes desgastadas. Subiu em um bloco de pedra que servia de base para uma coluna. Por um momento, ficou ali, uma figura magra e áspera em meio ao brilho das vestes festivas.

E então, sua voz irrompeu. Não era um grito histérico, mas um som grave, arrastado, que cortou o burburão como uma faca.

“Ouçam a palavra do Senhor, todos vocês de Judá que entram por estas portas!”

Alguns se viraram, irritados. Outros ignoraram, apressando-se para seus ritos. Um grupo de sacerdotes, com suas túnicas brancas, parou a alguma distância, seus rostos fechados em desaprovação.

“Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Corrigam a sua conduta e as suas ações, e eu os farei habitar neste lugar.” A frase soou como um eco antigo, mas a seguir veio o golpe. “Não confiem em palavras enganosas, repetindo como um mantra: ‘Templo do Senhor, Templo do Senhor, Templo do Senhor é este!’. Vocês repetem isso como um feitiço, achando que estas pedras são uma garantia.”

Um homem gordo, com o peito erguido por uma túnica bordada, bufou. “O profeta insulta o santuário!”

Jeremias ignorou-o, seus olhos varrendo a multidão como se visse através de suas roupas festivas, até o coração. “Se de fato corrigirem a sua conduta, se praticarem a justiça uns com os outros, se não oprimiram o estrangeiro, o órfão e a viúva, se não derramarem sangue inocente neste lugar e não seguirem após outros deuses para a sua própria ruína… *então* eu os farei habitar nesta terra, a terra que dei a seus antepassados para sempre.”

Ele fez uma pausa, e o silêncio que se formou ao seu redor era agora mais pesado que o barulho anterior. Até os animais pareciam quietos. “Mas vejam! Vocês confiam em palavras mentirosas, que de nada valem. Vocês roubam, matam, cometem adultério, juram falsamente, queimam incenso a Baal e seguem outros deuses que nem conhecem. E depois vêm e se apresentam diante de mim, nesta casa que leva o meu nome, e dizem: ‘Estamos salvos!’, só para continuarem a praticar todas estas abominações? Esta casa, que leva o meu nome, tornou-se para vocês um covil de ladrões? Eu vejo, declara o Senhor.”

Um sacerdote mais jovem, com o rosto marcado pela indignação, avançou. “Ele blasfema! Prendei-o!”

Mas Jeremias continuou, sua voz ganhando um tom profético e fúnebre, como um sino dobrando. “Vão agora ao meu santuário em Siló, onde outrora fiz habitar o meu nome. Vejam o que lhe fiz por causa da maldade do meu povo Israel. Por causa de todas essas coisas que vocês fizeram, e porque não ouviram quando eu lhes falei insistentemente, e não responderam quando eu os chamei, farei a esta casa, que leva o meu nome e na qual vocês tanto confiam, o que fiz a Siló.”

Um calafrio percorreu o pátio. Siló era uma ruína, um nome sinônimo de desgraça e abandono divino. A ideia era insuportável.

“E a vocês”, e seu dedo acusador percorreu a multidão, “lançarei para longe da minha presença, como lancei todos os seus irmãos, toda a descendência de Efraim. Portanto, não orem por este povo. Não interceda por eles, não suplique a mim, porque não os ouvirei.”

Agora a raiva explodiu. Gritos de “Traidor!” e “Louco!” surgiram. Alguém atirou uma pedra, que passou raspando por seu ombro. Os sacerdotes se consultavam com olhares furiosos. Jeremias desceu da pedra, seu corpo cansado sentindo o peso daquela verdade indigesta. Enquanto era empurrado e xingado, seus olhos capturaram uma última cena: uma viúva, de roupas remendadas, sendo afastada por um guarda do templo porque não tinha a moeda para a oferta, enquanto um rico mercador, com suas sacolas cheias, era conduzido com reverência até o altar.

Ele saiu pelo mesmo portão, o barulho do Templo diminuindo atrás de si. A cidade, fora dali, mostrava sua outra face: becos sujos, crianças famintas, o cheiro da injustiça secular. O profeta caminhou em direção ao vale de Hinom, aquele lugar onde, nas sombras, alguns ainda praticavam os ritos abomináveis a Moloque. O sol começava a descer, tingindo as pedras de Jerusalém com um vermelho que parecia fogo. Não o fogo sagrado do altar, mas o fogo de um juízo que se aproximava, lento e terrível como a seca. Ele sabia que não tinham ouvido. As palavras eram como sementes lançadas em pedra. Mas ele as havia dito. O peso em seu peito, por um instante, tornou-se um pouco mais leve, substituído pela tristeza imensa de quem vê a casa em chamas e os moradores dançando, cegos, em seu salão.

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