Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

O Sacrifício Que o Vento Dispersa

A memória me custa a voltar àquele dia, mas ela insiste, viva como uma brasa sob cinzas. Já era um homem velho então, com os ossos feitos ao sol e ao vento das colinas, mas naquela madrugada senti um frio que vinha da terra, um silêncio que pesava como chumbo nos ouvidos.

Não foi um sonho. Estávamos acampados nos vales abaixo de Sião, eu, Eliabe, o tecelão, e Menacém, que tinha um rebanho de cabras magras. O céu ainda estava escuro, mas não era a escuridão comum da noite. Era uma coisa espessa, como se o ar tivesse coalhado. Os pássaros não cantavam. As próprias fogueiras pareciam queimar sem som, as chamas subindo retas e pálidas. A gente olhava uns para os outros, e nenhum de nós tinha coragem de dizer a palavra que apertava a garganta. Era um temor antigo, que faz a nuca arrepiar.

Então, sem que o horizonte clareasse, uma luz começou a nascer do alto do monte. Não era a luz do sol. Era como se o mármore mais puro do mundo tivesse se incendiado por dentro. Não iluminava; consumia a escuridão. Foi quando ouvimos. Não um som, mas *o* Som. Vinha de todos os lugares e de lugar nenhum, como se as próprias pedras e as raízes das montanhas estivessem falando.

“O Poderoso, Deus, o SENHOR, falou e convocou a terra, desde o nascente do sol até o seu poente.”

A voz não era um trovão. Era pior. Era uma clareza que doía. Cada sílaba era distinta, como uma faca gelada cortando o ar morno. Caímos de rosto no chão. A terra tremia, mas não era um tremor de terremoto. Era como se o chão estivesse se despertando, ouvindo. De relance, erguendo o rosto da poeira, vi formas na luz. Não anjos como os pintam nas sinagogas. Era um turbilhão de fogo e juízo, uma corte celestial que não precisava de nosso consentimento para existir. E no centro, uma Presença que tornava ridícula qualquer ideia que tivéssemos feito dEle. Não era o Deus dos nossos rituais convenientes.

A voz continuou, e suas palavras se gravavam na mente como ferro em brasa na madeira.

“Os meus fiéis, que com a aliança fiz por meio de sacrifícios…”

Ele nos chamava? Nós, fiéis? Um fio de esperança, tolo e orgulhoso, brotou no peito. Talvez fosse um reconhecimento. Mas a voz cortou esse fio no instante seguinte.

“O céu proclamará a sua justiça, pois é Deus quem é juiz.”

E então Ele começou a falar das coisas que mais prezávamos, que eram o cerne da nossa religião, do nosso dia a dia no templo.

“Não hei de repreender-te pelas tuas ofertas de holocaustos, que estão sempre perante mim. De tua casa não tirarei novilho, nem da tua malhada, bodes.”

Eu, na minha ignorância, quase suspirei aliviado. Então estava tudo bem? Nossos sacrifícios, nossa meticulosa obediência à lei dos animais perfeitos, sem defeito… Estava tudo aceito. Mas a voz, com uma paciência que era mais aterradora que a ira, prosseguiu, e foi então que a verdade nos atingiu como uma laje.

“Pois são meus todos os animais da floresta, e o gado sobre milhares de colinas… Se eu tivesse fome, não to diria, pois o mundo é meu e tudo o que nele existe.”

A vergonha foi um banho de água suja. Compreendi. Estávamos ali, dia após dia, trazendo nossos melhores novilhos, nossos bodes sem mácula, com um ar solene e autossuficiente. Pensávamos, no fundo do coração, que estávamos *sustentando* Deus. Que o nosso ritual O agradava, O acalmava, como se Ele precisasse da gordura que queimávamos no altar. Era um comércio. Nós dávamos algo, e Ele nos devia proteção. A voz rasgou esse véu.

“Acaso comerei eu carne de touros? Ou beberei sangue de bodes?”

A pergunta ecoou no vale, na nossa alma. Era uma pergunta de um desdém infinito, não pelos animais, mas pela nossa pequenez de pensamento. Reduzíamos o Eterno a um déspota faminto que se apaziguava com churrasco. A verdade, que agora nos queimava as entranhas, era diferente.

“Oferece a Deus sacrifício de ações de graças e cumpre os teus votos para com o Altíssimo.”

Ações de graças. Gratidão. Reconhecimento. Não o novilho morto, mas o coração vivo que reconhece a fonte de tudo. Não o ritual pelo ritual, mas o voto cumprido, a palavra empenhada. A honestidade na escuridão da tenda quando ninguém vê. A justiça para com o servo, a compaixão para com o estrangeiro. Isso era o sacrifício que Ele queria.

Mas a voz não parou. Tornou-se mais grave, dirigindo-se a um outro grupo, não aos ritualistas tolos como eu, mas aos que sabiam as palavras certas mas desprezavam a essência.

“Ao ímpio, porém, diz Deus: Que fazes tu em recitares os meus estatutos e em trazeres a minha aliança na tua boca?”

Vi o rosto de Menacém se contrair. Ele era hábil na lei, decorava os salmos, citava a aliança nos negócios. Mas na noite anterior brigara ferozmente com um criado por um odre de vinho quebrado.

“Visto que odeias a disciplina e lanças as minhas palavras para detrás de ti.”

A acusação era específica, íntima. Era sobre o hábito de escolher apenas os mandamentos que convinham. Amar o irmão da mesma tribo, mas espalhar calúnias sobre o vizinho. Repudiar o ídolo de barro, mas adorar o ídolo da prata e do poder. A voz listou os pecados com uma clareza brutal: “solias falar com o adúltero”, “a tua boca abundava em malícia”, “lançavas palavras difamadoras”. Eram os pecados da comunidade, da língua solta, da conivência em segredo. Achávamos que, porque o sacrifício ritual estava em ordem, isso era secundário.

“Estas coisas fizeste, e eu me calei; pensavas que era tal como tu. Mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista.”

Esse foi o golpe final. “Pensavas que era tal como tu.” Tínhamos criado um Deus à nossa imagem. Um Deus que se importava com formalidades e fechava os olhos para o caráter. Um Deus silencioso que concordava com nossas vilezas. Seu silêncio não era consentimento; era paciência, era o espaço para o arrependimento que nunca chegava. E agora a paciência findava.

“Considerai isto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos faça em pedaços, sem que haja quem vos livre.”

A luz começou a se recolher. A voz se fundiu com um rugido final que não era de ira, mas de uma tristeza cósmica, o lamento de um pai rejeitado por filhos que preferem presentear a obedecer. O silêncio que voltou foi ainda mais profundo que o anterior. Aos poucos, os sons do mundo retornaram: um grilo hesitante, o vento nas oliveiras. A luz comum do amanhecer, pálida e insignificante, tingiu o oriente.

Nós nos levantamos. Nenhum de nós falou. Eliabe tinha o rosto molhado. Menacém olhava para as próprias mãos, como se nunca as tivesse visto. Eu sentia as pernas fracas, mas o coração… o coração estava estranhamente leve, como se uma pesada armadura de cerimônias vazias tivesse se despedaçado.

Não foi uma visão para contar no mercado. Guardamos aquilo no íntimo. Mas tudo mudou. O sacrifício no templo nunca mais foi o mesmo. Agora, quando levo o animal, o que queima no altar primeiro é a minha soberba, a minha gratidão tardia, o meu voto renovado de honestidade. A fumaça que sobe cheira diferente.

Às vezes, nas noites calmas, quando a memória daquela voz me visita, ainda sinto o calafrio. Mas não é só temor. É um lembrete: Ele não quer o nosso estoque. Quer o nosso coração. O restante é apenas fumaça, que o vento do monte Sião pode dispersar num instante.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *