O sol da tarde pesava sobre os telhados de taipa da pequena vila, um calor úmido que parecia emanar das próprias pedras do leito do riacho seco. Elio, velho já de dias e de vistas, encostou-se ao umbral da porta de sua casa, seus olhos turvos fitando o poente que incendiava o céu sobre o sertão. A seca do ano fora implacável, e com ela, uma certa aridez havia se instalado no coração dos homens. As querelas por poços de água, as decisões do conselho de anciãos que beneficiavam sempre os mesmos, o abandono das viúvas à míngua de suas portas – tudo isso formigava na mente de Elio como formigas carniceiras sobre um osso.
Ele não era um homem letrado, mas a lei do Senhor ele guardava no peito, ensinada por seu pai e pelo pai de seu pai. E naqueles dias, aquela lei parecia uma semente jogada em pedregulho. Com um suspiro que vinha das profundezas de seus anos, ele se recolheu para dentro, acendeu uma lamparina de azeite e, antes de se deitar sobre o esteiro de palha, sussurrou as antigas palavras, as únicas que lhe traziam algum frescor naquela aridez: “Deus se levanta na congregação dos poderosos; entre os deuses julga.”
O sono, quando veio, não foi comum. Foi como se o chão de terra batida se dissolvesse sob ele, e Elio se encontrasse não em seu corpo cansado, mas em uma espécie de percepção aguda, flutuante. Ele não via com os olhos, mas *sabia*. E o que sabia era um salão de julgamento de dimensões cósmicas, um lugar onde o tempo era como um rio largo e lento visto do alto.
E ali estavam eles. Não eram homens, não exatamente. Eram sombras de autoridade, formas constituídas de poeira de estrelas e vontade pervertida. Elio percebeu que eram os “deuses” – não os deuses das nações, ídolos de madeira, mas aqueles a quem o Altíssimo havia confiado o cuidado das nações, os príncipes espirituais, as potestades que deveriam zelar pela justiça entre os filhos dos homens. Eles ocupavam tronos que eram feitos de alianças quebradas e da soberba dos séculos. Seus mantos eram tecidos de tradição vazia e de leis escritas para oprimir.
E no centro, uma Presença. Não uma forma, mas um Fogo Silencioso que era a fonte de toda lei e de toda misericórdia. Daquele Fogo emanou uma voz, não um som, mas um tremor na estrutura de todas as coisas:
“Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?”
A pergunta ecoou no vácuo entre os tronos. Uma das sombras, cujo contorno lembrava a coroa de um rei antigo e cruel, moveu-se. Sua “voz” era como o tinir de metais em atrito: “Nós mantemos a ordem. Os fortes governam, os fracos servem. É a lei do mundo.”
O Fogo não se alterou, mas a pergunta se aprofundou, tornando-se uma acusação que perfurava a fachada de grandiosidade: “Defendei o fraco e o órfão; fazei justiça ao aflito e ao desamparado. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.”
Elio, em sua percepção, viu então cenas que se desenrolavam como tapeçarias sombrias aos pés de cada trono. Viu o mercador abastado subornando o juiz com pratas para roubar a terra da viúva. Viu os soldados de um potentado arrastando jovens para guerras tolas, deixando velhos desamparados. Viu a fome sendo usada como arma, e a palavra da verdade sendo torcida nos tribunais para condenar o inocente. E viu que cada uma dessas injustiças fortalecia os “deuses” sentados, alimentava sua forma sombria, dava peso a seus tronos ilegítimos. Eles não eram espectadores; eram cúmplices, arquitetos daquela desordem.
Os “deuses” permaneciam em silêncio. Seu julgamento não era uma discussão. Era uma exposição. A Presença continuou, e a voz agora carregava um luto solene, uma desilusão infinita: “Eles não sabem, nem entendem; andam em trevas; todos os fundamentos da terra vacilam.”
A visão de Elio se ampliou. Ele viu a terra, não o seu pequeno sertão, mas a totalidade da criação. E os fundamentos – a confiança, a verdade, a equidade – estavam rachados como a terra ressequida de sua vila. A injustiça nos altos lugares era um terremoto silencioso que abalava tudo o que estava abaixo. As nações cambaleavam porque aqueles encarregados de sustentar a balança a tinham quebrado por vontade própria.
Então, veio a sentença. A voz do Fogo não gritou. Declarou, com uma finalidade que fez o próprio sonho estremecer: “Eu disse: vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo. Todavia, como homens morrereis e como um dos príncipes haveis de cair.”
E foi como ver castelos de areia sendo levados pela maré. A aura de poder inquestionável que cercava aquelas figuras desfez-se. Suas coroas desvaneceram em fumaça. Os tronos, feitos de opressão, revelaram-se frágeis como vidro. Eles não foram destruídos por um raio, mas pela simples retirada do consentimento divino, pelo peso esmagador de sua própria infidelidade. “Como homens morrereis” – a mortalidade que haviam desprezado nos outros agora os envolvia. “Como um dos príncipes haveis de cair” – a queda seria comum, ignóbil, sem a grandeza trágica que talvez esperassem.
A visão começou a se dissipar. O último que Elio percebeu, antes de ser sugado de volta à escuridão de sua cabana, foi um clamor, um suspiro final que era ao mesmo tempo um gemido da terra: “Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti pertencem todas as nações.”
Elio acordou de sobressalto. A lamparina já se apagara, e a primeira luz cinzenta da madrugada filtava-se pelas frestas da parede. Seu corpo doía, mas seu espírito estava estranhamente leve, como se tivesse carregado um fardo pesado por anos e finalmente o houvesse deixado cair. Suas mãos trêmulas buscaram o rosto, molhado não de suor, mas de lágrimas que ele não sabia ter derramado.
Ele saiu para o exterior. O ar da manhã era frio e puro. O mesmo sertão se estendia à sua frente, a mesma seca, a mesma vila pobre. Mas nada era igual. Ele olhou para a casa do chefe do conselho, um homem rígido que sempre decidia a favor de seu primo, o maior criador de cabras. Viu não apenas um homem velho e teimoso, mas um trono frágil, prestes a cair.
A justiça, compreendeu Elio, não era apenas um decreto celestial para um futuro distante. Era um chamado que ecoava no agora, um grito de Deus que pedia resposta nos atos dos vivos. Os “deuses” haviam caído. Restavam os homens. Homens como ele. A tarefa de defender o fraco, o órfão, o desamparado, não fora revogada; fora devolvida, com urgência terrível, às mãos humanas.
Aquele dia, Elio, que há anos não falava em assembleia, caminhou com passo firme até a praça. A vila, surpresa, ouviu a voz rouca do velho não fazer acusações, mas lembrar uma história. A história de um julgamento nos céus, onde os poderosos que falham perdem seu poder, e onde a terra clama por uma justiça que começa no lugar mais humilde. Ele não citou salmos. Contou o que viu. E naquele sertão ressequido, sob o sol que novamente ascendia, um pequeno e novo fundamento – frágil como um broto verde – parecia querer romper a terra dura.




