Era fim de tarde nos campos de Judá, e o peso do dia ainda me doía nos ossos. Não o cansaço do pastoreio, daquelas horas segurando o cajado sob um sol impiedoso, mas uma fadiga de alma, pesada como pedra de moinho. Os relatos chegavam, como sempre, em murmúrios trazidos pelo vento: mais homens do rei, mais patrulhas, mais perguntas nas vilas. A caverna, outrora refúgio, cheirava a terra molhada e a medo. E naquela escuridão úmida, onde o silêncio era interrompido apenas pelo pingar distante da água nas rochas, o peito apertava. A morte era uma sombra que respirava no meu encalço.
Lembro-me de ter fechado os olhos, não em oração formal, mas num gemido surdo que saía das entranhas. “Eu te amo, ó Senhor, minha força.” As palavras não eram poesia. Eram um arranhão na garganta. Minha força? Minhas pernas tremiam. Minha força? Minhas mãos, calejadas pela corda do estilingue, estavam vazias. Mas era aquilo ou nada. Era agarrar-me a um fio de memória de algo maior.
E então… não foi um trovão. Foi como se a própria fundação do mundo gemesse. A caverna, minha prisão de pedra, pareceu estremecer. Um ruído começou, profundo, vindo de baixo da terra, subindo como um rugido através dos calcários e das raízes. Era a voz dele. E quando eu, atônito, pensei em desespero, eis que a treva diante de mim não era mais a parede da caverna. Era a sombra de um abismo, um buraco que se abria para o vácuo. Cordas de morte me enlaçaram, torrentes de destruição, aquela sensação afiada de que tudo estava perdido, me arrastaram para aquela escuridão sem fundo.
Na angústia, gritei. E o grito foi ouvido. Do seu templo nos céus, os seus ouvidos se inclinaram; o grito do perseguido, ínfimo e agudo como o de um morcego, atravessou as camadas do firmamento.
E ele se irritou. Não comigo. Pela injustiça. A terra então, aquela mesma que me escondia, começou a tremer e a fundar-se. Os alicerces dos montes estremeceram e se abalaram, porque ele estava irado. Das suas narinas subiu fumaça, da sua boca, fogo devorador; brasas incendiaram-se diante dele. Ele inclinou os céus e desceu. Trevas espessas havia sob os seus pés. Montou num querubim e voou, sim, voou nas asas do vento. Fez das trevas o seu lugar oculto, o pavilhão que o rodeava, escuridão de águas e nuvens espessas. Do resplendor da sua presença as nuvens passaram, saraiva e brasas de fogo.
E o Senhor trovejou nos céus, o Altíssimo levantou a sua voz. Saraiva e brasas de fogo. Atirou as suas setas e os espalhou; lançou relâmpagos e os perturbou. Então apareceram as profundezas das águas, e foram descobertos os fundamentos do mundo, diante da tua repreensão, ó Senhor, ao sopro das ventas das tuas narinas.
Estendi a mão no escuro, e ele, da altura, me tomou. Tirou-me das águas muitas, daquele poço sem fundo que era a minha própria condição. Salvou-me dos meus inimigos poderosos, daqueles que me odiavam, pois eles eram fortes demais para mim. Eles me enfrentaram no dia da minha desgraça, mas o Senhor foi o meu amparo. Trouxe-me para um lugar espaçoso; livrou-me, porque tinha prazer em mim.
E aí, naquela clareira que surgiu após a tempestade, com o cheiro de ozônio no ar e a terra lavada, veio o silêncio. Um silêncio diferente. E com ele, uma lucidez fria e bela. Ele me tratou segundo a minha justiça, segundo a pureza das minhas mãos me recompensou. Porque guardei os caminhos do Senhor. Todos os seus preceitos estivei diante de mim; dos seus estatutos não me afastei. Fui íntegro para com ele, e guardei-me da minha iniquidade. Por isso o Senhor me recompensou.
Com ele, corro através de uma tropa; com o meu Deus, escalo muralhas. Esse Deus, cujo caminho é perfeito. É escudo para todos os que nele se refugiam. Porque, quem é Deus, senão o Senhor? E quem é rocha, senão o nosso Deus? Ele cinge de força os meus braços. Faz os meus pés como os das corças, e me põe sobre os meus lugares altos. Ensina as minhas mãos para a guerra, sim, até os meus braços quebram um arco de bronze.
Deste-me o escudo da tua salvação; a tua mão direita me sustenta, e a tua clemência me engrandece. Alargas os meus passos debaixo de mim, e não vacilam os meus tornozelos.
Um pássaro cantou lá fora, na entrada da caverna. A noite tinha passado. O dia, um dia comum de pastoreio, começava. Mas nada era comum. A rocha não era mais apenas pedra onde me encostava. Era Ele. Meu Rochedo, minha Fortaleza, meu Libertador. Meu escudo, e a força da minha salvação, meu alto retiro.
O salmo estava escrito, não em papiro, mas no sabor do ar livre, na firmeza renovada das pernas, na quieta certeza no peito. A gratidão não era uma emoção passageira. Era uma paisagem permanente da alma. Por isso, entre os gentios, daria graças ao seu nome. Porque magníficas são as suas promessas ao seu ungido, à casa de Davi, seu servo, de geração em geração.
E saí da caverna, não como um fugitivo, mas como um homem que carrega, em seu corpo marcado pelo cansaço, o eco de um trovão e a força silenciosa da Rocha Eterna.




