As tábuas de madeira do meu aposento rangem sob o peso dos anos, mas o rolo que tenho diante de mim é mais pesado ainda. É o relato dos escrivães, o registro dos dias que sacudiram Jerusalém como um vendaval do deserto. Deixarei aqui minha própria marca, não apenas os fatos, mas o cheiro, o pó, o suor e o eco desses dias. Os dias do Rei Josias.
Tudo começou com um rumor, um sussurro que corria pelas vielas íngremes da cidade: Hulda, a profetisa, dissera que a ira do SENHOR era grande, que não se apagaria. Mas o rei, um homem ainda jovem de semblante grave e olhos que pareciam ter visto muito além dos seus anos, não se abateu. Houve nele um despertar, não de terror, mas de uma determinação fria e meticulosa, como a de um cirurgião que sabe que deve cortar a gangrena para salvar o corpo.
Convocou todos nós, os anciãos de Judá e de Jerusalém, e a reunião não foi no trono, mas no pátio do Templo. Aquele lugar, que deveria cheirar a incenso e a santidade, tinha um odor estranho, misturado: de animais, de comércio, de algo mofado. Josias subiu os degraus do pórtico, e sua voz, normalmente contida, ecoou contra as pedras de calcário:
“Ouviremos as palavras desta Aliança.” E ele leu. Leu cada palavra do Livro encontrado na Casa, aquele rolo empoeirado que o sacerdote Hilquias trouxera. Sua voz não tremia, mas havia uma faísca nela, uma centelha de fogo contido. E à medida que as maldições pela infidelidade eram pronunciadas, vi homens encanecidos, líderes de clãs, encolherem os ombros, como se físicamente atingidos. O ar ficou carregado, pesado. Foi então que ele rasgou as próprias vestes. Um som seco, brutal, que silenciou até o último sussurro.
No dia seguinte, a cirurgia começou. E foi literalmente uma cirurgia na carne da cidade e do reino. Não foi um édito distante. Josias desceu pessoalmente. Lembro-me de segui-lo até o Templo, a comitiva atrás dele mais parecendo um pelotão de demolição do que uma corte real.
Os pátios estavam um caos. Fornalhas para fundir metal fumegavam perto das cubas de água para as abluções. Cavalheiros de Judá, homens de posses, tinham dedicado carruagens ao sol, à lua, aos astros. Havia carros enferrujados, outros ainda com as varas altas, como troféus de uma devoção perversa. Josias não disse uma palavra. Um aceno seco, e os soldados avançaram com machados. O som do metal rachando a madeira, dos tecidos ricos sendo rasgados, era de uma violência profana. Ele mesmo pegou um martelo e despedaçou os altares que Acaz e Manassés, seus antepassados, haviam erguido nos terraços superiores. Cada golpe soava como uma sentença.
Mas o verdadeiro horror estava nos vales. A descida ao Vale do Filho de Hinom foi como entrar em outro reino, um reino da morte. O lugar cheirava a cinzas velhas e a carne queimada. No alto de Tofete, o grande braseiro ainda estava quente, negro de restos impensáveis. A estátua de Moloque, de bronze já verde pela ação do tempo, tinha braços estendidos e um ventre fornalha. Josias parou diante dela, e seu rosto estava pálido, não de medo, mas de uma repulsa visceral. “Profanem este lugar”, ordenou, e sua voz saiu rouca. “Espalhem ossos humanos sobre ele. Que ninguém mais diga que aqui se pode ‘passar um filho ou uma filha pelo fogo’.” E assim foi feito. Cavaram nas redondezas, desenterrando sepulturas antigas, e cobriram aquele solo maldito com ossos brancos e secos. A profanação era o selo: aquele lugar de morte seria, ele próprio, coberto de morte, para sempre impuro.
A destruição foi geográfica, uma campanha de purificação que mapeou cada colina e cada cidade. Em Betel, no antigo reino do Norte, já desfalecido, ele encontrou o altar erguido por Jeroboão, filho de Nebate, que fizera Israel pecar. Os ossos dos profetas idólatras foram queimados sobre aquele altar, cumprindo uma antiga palavra. Mas Josias, com um olhar perspicaz, viu túmulos perto dali. “Que sepulcro é aquele?”, perguntou. Disseram-lhe que era o túmulo do homem de Deus que predissera estas coisas muito tempo antes. “Deixem-no em paz”, disse o rei. “Que seus ossos não sejam perturbados.” Havia nele uma justiça, uma precisão histórica. Ele não era um iconoclasta cego; era um executor de um mandato divino, atento até aos detalhes da misericórdia para com os fiéis do passado.
De volta a Jerusalém, a Páscoa que ele celebrou não foi um ritual. Foi um terremoto litúrgico. Há gerações que não se via algo assim. Mataram os cordeiros nos átrios, e o sangue escorria pelas canaletas. Os levitas, finalmente cumprindo sua função sem vergonha nem impedimento, serviam em turnos, enquanto o rei, com as mangas arregaçadas, supervisionava tudo. “Porque não se celebrou uma Páscoa como esta desde os dias dos juízes”, murmurou o sacerdote ao meu lado. E era verdade. Havia uma alegria feroz naquela obediência, um alívio tenso, como o de um doente que sente a febre finalmente baixar depois de uma crise violenta.
Josias varreu o país. Médiuns, feiticeiros, os ídolos domésticos, os altos nas colinas, os postes sagrados ao lado dos altares de Baal… tudo foi reduzido a pó e cinza. Parecia o fim de uma longa e penosa enfermidade.
Ele morreu em Megido, atingido por uma flecha numa batalha que não era sua. Trouxeram seu corpo numa carruagem, e o pranto que se levantou em Jerusalém era diferente de qualquer outro. Era o pranto por um pai, por um cirurgião que cortara o mal, mas que partira antes de ver a cicatrização completa. O profeta Jeremias cantou uma lamentação por ele.
E aqui, neste meu quarto escuro, olho para as brasas na lareira. Escrevi tudo. A limpeza foi total, a obediência, sem paralelo. Mas as palavras da profetisa Hulda ainda ecoam nas paredes de minha mente: “Porque o teu coração se enterneceu… também te reunirei a teus pais… e os teus olhos não verão todo o mal que hei de trazer sobre este lugar.”
Josias fizera tudo certo. Tudo. Varreu a sujeira visível com uma dedicação implacável. Mas quando ele partiu, deixou para trás um palácio limpo, arrumado… e vazio. O povo seguira suas ordens, quebrara os ídolos, celebrou a Páscoa. Mas o coração? O hábito ancestral de se curvar diante de qualquer coisa que brilhasse? Isso, um único homem, por mais zeloso que fosse, não podia arrancar. Só Deus poderia fazer uma cirurgia assim, no escuro e silencioso músculo da alma. E tal cirurgia, eu temo, ainda estava por vir. O mal que Josias não viu, nós, os que ficamos, talvez tenhamos de encarar. A limpeza fora perfeita. A obediência, porém, ainda era uma fruta verde, amarga, pendurada num galho muito antigo.




