O sol do deserto não era apenas uma luz; era uma presença opressora, um peso de ouro derretido sobre as dunas. A poeira fina, levantada pelos pés de milhares, pairando no ar, grudava na pele suada de Bezalel como uma segunda pele terrosa. Ele parou à entrada do Tabernáculo, ainda em construção, mas já respirando uma solenidade que fazia o ar vibrar de forma diferente. Seus olhos, cansados da minúcia do trabalho em ouro e prata, pousaram no rolo de peles de cabra onde as palavras de Moisés estavam gravadas. Era sobre o altar de incenso. Uma ordem específica, delicada, que parecia sussurrar em meio aos estrondos das outras instruções.
Madeira de acácia. Ele correu os dedos, calejados e finos de artífice, sobre a madeira clara e resistente que já tinha à disposição. Um cúbito de comprimento, um de largura, quadrado perfeito. A altura, dois cúbitos. Os chifres. Ah, os chifres. Não como os do altar do holocausto, que viam sangue e fogo. Estes seriam chifres de súplica, de fragrância, pontas salientes da mesma peça de madeira, talhadas com uma precisão que deveria sugerir força, não ferimento. Ele começou a lavrar, o som do cinzel um estalido seco e preciso no silêncio concentrado de sua tenda-oficina. A madeira ia se transformando, ganhando arestas sagradas sob suas mãos. Cada lasca que caía era um pensamento: este não seria um altar para expiação, mas para encontro.
Depois, o ouro. Ouro puro, batido, não fundido. Ele escolheu uma placa espessa, de um amarelo profundo que parecia reter o próprio calor do sol. Começou o trabalho de revestimento, envolvendo a estrutura de madeira como quem veste um sacerdote. Cada dobra no ângulo, cada ajuste perfeito sobre os chifres, exigia uma paciência de ourives e a alma de um sacerdote. O ouro refletia sua própria face, distorcida e séria. Ele sabia que aquele brilho cegante, no Santo Lugar, seria iluminado apenas pela luz suave do Candelabro de sete hastes. Um brilho íntimo, reservado.
Agora, as argolas. Quatro argolas de ouro, fundidas com uma alianha que exigia um cálculo exato de peso e equilíbrio. Ele as fixou abaixo da moldura dupla que coroava o altar, nos quatro cantos. Dois varais de madeira de acácia, também revestidos de ouro. Ao deslizá-los pelas argolas, fez um teste, levantando o altar. Era leve, mas sólido. Portátil. Um altar que seguiria a jornada, carregado pelos filhos de Coate, sempre pronto para o seu único, essencial serviço: a nuvem de intercessão.
Bezalel recuou um passo, observando. O altar reluzia em sua tenda, um objeto de beleza austera. Mas faltava a alma. Ele se voltou para as outras mesas, onde seus ajudantes, Aoliabe e outros escolhidos, preparavam os ingredientes para o que viria depois. O azeite puro de oliveira, batido, não prensado. Claro como a luz da manhã. E os aromas. Aqui, sua mente divagou por um instante, tentando imaginar os vales distantes de onde, um dia, aquelas especiarias viriam. O incenso puro, resina translúcida e doce. Estoraque, um aroma quente, balsâmico. Onicha, extraída de um molusco do mar vermelho, um cheiro terroso e animal. E gálbano, amargo e pungente. Sozinhos, alguns desagradáveis. Misturados em partes iguais, temperados com sal, e então moídos até virar um pó fino, quase impalpável… era o segredo.
Ele lembrou as palavras: “incenso perfume… coisa santíssima”. Não poderia ser reproduzido para uso comum. Aquele cheiro pertenceria apenas a Deus. Um cheiro de exclusividade, de aliança. Ao pensar nisso, seus dedos tremeram levemente. Ele não era sacerdote, mas suas mãos estavam dando forma ao instrumento da mais próxima aproximação. Aarão queimaria esse incenso todas as manhãs, ao cuidar das lâmpadas, e todas as tardes, ao acendê-las. Uma oração contínua, um aroma perpétuo diante do véu que escondia a Arca. O fogo para acender viria sempre, e somente, do altar de bronze do pátio. Nenhum fogo estranho. A chama da expiação alimentaria a fragrância da intercessão.
Nos dias seguintes, enquanto o Tabernáculo crescia como um organismo sagrado no centro do acampamento, Bezalel preparou também o óleo da santa unção. Seguiu a receita à risca: cincocentos siclos de mirra pírima, de aroma profundo e amargo, duzentos e cinquenta de canela aromática, duzentos e cinquenta de cálamo (uma cana odorífera) e quinhentos de cássia, com seu cheiro picante. Tudo misturado a um him de azeite puro. A tenda encheu-se de um aroma complexo, indescritível, que impregnou suas vestes e sua barba. Aquele óleo seria usado para ungir a Tenda, a Arca, todos os utensílios, Aarão e seus filhos. Separaria o comum do santo com uma marca olfativa e tangível.
Finalmente, chegou o dia. O altar de ouro foi colocado no Santo Lugar, diante do véu, em frente à Arca da Aliança. Bezalel viu Aarão, vestido com o peitoral e o éfode, aproximar-se com o incensário. O sumo sacerdote parecia entender o peso daquele momento. O fogo do altar de bronze foi trazido. Aarão colocou as brasas no altar de ouro, e então, com mãos solenes, pegou uma porção do pó de incenso que Bezalel mesmo havia preparado. O artífice prendeu a respiração.
Ao ser lançado sobre as brasas, o pó fino explodiu em uma fumaça densa, branca como a neve das montanhas distantes. Mas não era uma fumaça qualquer. O aroma que se espalhou – primeiro dentro do Santo Lugar, e depois, de forma subtil, vazando pelas frestas da tenda – era de uma complexidade avassaladora. Era doce sem ser enjoativo, profundo sem ser pesado, puro e ao mesmo tempo repleto de camadas: o bálsamo, o amargo, o terroso, o salgado. Cheirava a oração. Cheirava a “pertencer somente a Ele”.
Bezalel, do lado de fora, no pátio, sentiu o cheiro e fechou os olhos. Seu trabalho estava feito. Mais do que um artífice, ele fora um copista de belezas celestes, um tradutor de mandamentos em formas tangíveis. Aquele altar de madeira e ouro, aquele incenso, aquele óleo, não eram apenas objetos. Eram pontes. E o aroma que agora subia, uma coluna invisível mais reta que qualquer fumaça, era a prova de que, no deserto, entre a poeira e a sede, Deus havia ensinado ao seu povo não apenas a lei, mas também a linguagem do coração. Uma linguagem que podia ser inalada, e que dizia, sem palavras: “Santo, santo, santo”.



