O dia amanheceu com aquele cheiro característico do Mar da Galileia — uma mistura de peixe fresco, algas molhadas e o aroma terroso das colinas ao redor. Pedro esticou os braços ainda dormentes, observando as redes que haviam passado a noite inteira sem capturar quase nada. Seus dedos calejados encontraram a borda do barco enquanto ele suspirava. A vida de pescador era assim — noites de esforço vazio intercaladas com milagres inesperados.
Foi nesse cenário que Jesus apareceu, vindo da direção de Cafarnaum. Não havia nada de espetacular em sua chegada — apenas um homem caminhando pela margem com seus discípulos, a poeira das sandálias misturando-se ao cascalho da praia. Mas multidões já o seguiam, vindas de Dalmanuta, de Gergesa, até mesmo da distante Cesareia de Filipe. Pessoas com olhos famintos por mais do que pão.
André aproximou-se de Pedro, falando baixo: “Ele quer que preparemos o barco. A multidão é grande demais para ensinar da margem”.
Enquanto Jesus falava, as horas passavam. Suas palavras eram diferentes de tudo o que Pedro já ouvira — não eram como as dos escribas em Jerusalém, cheias de citações e legalismos. Ele falava do Reino como quem descreve sua própria casa. O sol já estava alto quando Pedro notou o sussurro que percorria a multidão. As pessoas estavam famintas, esquecidas de trazer provisões.
Filipe foi o primeiro a mencionar o óbvio: “Onde vamos comprar pão para tanta gente?”.
Pedro viu André se aproximando com um menino — talvez filho de um dos pescadores locais — que trazia cinco pães de cevada e dois peixinhos. Parecia uma piada de mau gosto diante daquela multidão.
O que aconteceu depois Pedro jamais conseguiria explicar direito. Jesus pegou aqueles pães, olhou para o céu como quem conversa com um velho amigo, e partiu. Os discípulos distribuíram, e as cestas não esvaziavam. Pedro sentiu o peso do pão em suas mãos — era quente, como se saísse na hora do forno. E o sabor… tinha um gosto de cevada, sim, mas também de algo mais, algo que lembrava maná.
Quando recolheram os pedaços, cada cesta estava mais cheia que no início.
Não deveria ter sido o suficiente. Mas era.
Mais tarde, já no barco rumando para Betsaida, o vento começou a mudar. Pedro conhecia aquele vento — vinha das colinas de Golã trazendo o cheiro de tempestade. Em minutos, o mar se transformou num monstro escuro, com ondas que batiam no casco como punhos gigantes.
Foi então que Pedro O viu. Andando sobre as águas. Não flutuando, mas pisando nas ondas como se fossem degraus de pedra. Seu manto não estava molhado, e seu rosto tinha uma expressão que Pedro nunca vira — uma mistura de preocupação e autoridade absoluta.
“Coragem! Sou eu!”, a voz cortou o vento melhor que qualquer grito.
Pedro, num impulso que depois lhe pareceria loucura, pediu: “Manda-me ir ao teu encontro!”.
E Jesus simplesmente assentiu.
Os primeiros passos foram os mais estranhos que Pedro deu na vida. Seus pés encontraram não a liquidez da água, mas algo sólido, como se as ondas tivessem se tornado vidro temperado. Mas então ele olhou para o vento — realmente olhou — e viu a fúria do temporal. O medo entrou em seus ossos mais rápido que a água fria, e ele começou a afundar.
“Salva-me, Senhor!”
As mãos de Jesus o puxaram para o barco com uma força que surpreendeu o pescador experiente. “Homem de pequena fé, por que você duvidou?”
Pedro não respondeu. Como explicar que duvidar era mais natural que respirar?
Em Betsaida, trouxeram um cego até Jesus. Pedro observou o Mestre cuspir no chão, fazer lodo com a saliva e aplicar nos olhos do homem. Era estranho, quase primitivo. Mas então Jesus não realizou a cura completa de imediato.
“Você está vendo alguma coisa?”
O homem pestanejou: “Vejo pessoas, mas parecem árvores andando”.
Jesus impôs as mãos novamente, e só então a visão se tornou perfeita. Pedro ficou pensando naquilo — por que em duas etapas? Talvez os milagres fossem como a fé: às vezes vinham aos poucos.
A caminho de Cesareia de Filipe, Jesus fez uma pergunta que mudou tudo: “Quem as pessoas dizem que eu sou?”
As respostas variaram — João Batista, Elias, algum profeta. Mas então Ele olhou diretamente para os discípulos: “E vocês? Quem dizem que eu sou?”
Pedro falou antes que os outros pudessem responder. As palavras saíram de sua boca como se alguém as tivesse colocado ali: “Tu és o Cristo”.
O silêncio que se seguiu foi mais significativo que qualquer confirmação. Jesus não sorriu, não comemorou. Apenas os alertou para não contar a ninguém. E então começou a falar sobre sofrimento, rejeição, morte.
Pedro sentiu um nó no estômago. Puxou Jesus à parte: “Isso nunca te acontecerá!”.
A resposta foi a mais dura que Pedro já recebera: “Para trás de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas dos homens”.
O choque fez Pedro recuar como se tivesse levado um soco. Satanás? Ele, que momentos antes dissera a verdade mais profunda?
Enquanto seguiam pela estrada poeirenta, Jesus explicava que segui-Lo significava carregar a própria cruz. Pedro olhou para suas mãos calejadas — mãos de pescador, não de mártir. Será que conseguiria?
O sol começava a se pôr quando Jesus disse algo que ficaria ecoando na mente de Pedro por anos: “O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?”
Pedro olhou para trás, para o Mar da Galileia que desaparecia no crepúsculo. Lembrou-se dos barcos, das redes, da vida que deixara para trás. Ganhar o mundo inteiro… ele nem mesmo ganhara uma pescaria decente na noite anterior. Mas ali, seguindo aquele homem que andava sobre as águas e multiplicava pães, ele sentia algo estranho — como se finalmente estivesse encontrando o que nem sabia que procurava.
A noite caía sobre a estrada para Cesareia de Filipe, e Pedro caminhava em silêncio, mastigando não pão, mas palavras. “Perder sua alma…” Ele olhou para Jesus à frente, cujo silhueta se confundia com o cair da noite, e seguiu em frente.




