O vento soprava frio sobre os cumes de Seir, arrastando areia fina como cinzas sobre as pedras que há séculos testemunhavam o ódio antigo. Obadias, um ancião de cabelos brancos como a neve que raramente caía sobre aquelas montanhas, sentou-se à entrada de sua caverna, os olhos perdidos nos vales profundos que separavam sua terra daquelas que outrora foram terras de Judá. Seus dedos nodosos acariciavam a borda áspera de um cântaro de barro, lembrando-se dos dias em que seu povo, os edomitas, descendentes de Esaú, celebravam suas vitórias sobre os filhos de Jacó.
A memória era um rio amargo em sua boca. Lembrava-se dos sorrisos satisfeitos quando a notícia da queda de Jerusalém chegara, trazida por mensageiros ofegantes. Lembrava-se dos banquetes onde brindaram pela desgraça alheia, pelo sangue derramado que não era o seu. “Foi-nos devolvido o que era nosso por direito”, diziam os homens mais jovens, seus netos e bisnetos, com um brilho feroz nos olhos. Obadias, porém, guardava no peito um frio que o fogo da fogueira não aquecia.
Naquela noite, um sonho o visitou — ou seria visão? Ele jamais saberia dizer. No sonho, ele estava no alto do Monte Seir, mas a montanha não era sólida. Estremecia como um animal moribundo. O céu, usualmente de um azul profundo cortado pelo voo das águias, escurecera repentinamente, tomado por nuvens pesadas e roxas, como hematomas. E uma voz ecoou, não através dos ouvidos, mas dentro de seus ossos, uma voz que era como o som de muitas águas e, ao mesmo tempo, como o estalar de uma lenha seca.
“Porque inimizade eterna mantiveste,” soou a voz, “e entregaste os filhos de Israel ao poder da espada, no tempo da sua calamidade, no tempo do castigo final…”
Obadias tentou gritar, mas a areia enchia-lhe a boca. Ele via, como se estivesse pairando sobre a terra, os vales outrora verdejantes de Edom transformados em ermos desolados. As cidades fortificadas, como Sela e Temã, não passavam de pilhas de pedras negras, queimadas. Não se ouvia o riso das crianças, nem o balido de ovelhas. Apenas o silvo do vento através de ruínas vazias.
“A ti, Monte Seir, pertences a desolação eterna,” continuou a voz, e cada palavra era como uma faca cravada na alma do velho. “Tiveste alegria com a herança da casa de Israel, por estar ela assolada… farei de ti uma assolação.”
Ele acordou ofegante, o suor frio impregnando sua túnica. A luz do amanhecer entrava tímida pela entrada da caverna, mas não trazia consolo. Aquele sonho não era apenas um pesadelo; era uma sentença. Ele se levantou, os ossos rangendo, e saiu para a claridade incipiente. Lá embaixo, no vale, as tendas de seu povo pareciam frágeis, temporárias. Lembrou-se, então, com uma clareza dolorosa, da história que seu avô contava: o ódio que Edom nutrira por Judá, não era uma rivalidade recente. Era uma inimizade que vinha do ventre, de dois irmãos que lutaram antes mesmo de nascer. Esaú contra Jacó. E agora, esse ódio, cultivado por gerações, tinha atingido seu ápice quando estenderam a mão para a terra de Judá em seu momento mais frágil, quando os babilônios os levaram cativos.
Os dias que se seguiram foram de agonia silenciosa para Obadias. Ele observava seus conterrâneos com um novo olhar. Via a arrogância nos olhos dos chefes, a crueldade disfarçada de bravura nos jovens guerreiros. Eles planejavam expandir suas fronteiras, apropriar-se dos pastos que outrora pertenceram a Judá. “A terra foi dada a nós agora,” proclamavam. “Yahweh os abandonou.”
Obadias tentou adverti-los. Reuniu os anciãos numa noite, à luz de uma fogueira. Sua voz, outrora firme, saiu trêmula. “Irmãos,” disse, “o que fazemos não é apenas conquista. É um veneno que bebemos pensando ser água pura. O ódio que guardamos há séculos está prestes a nos consumir.”
Os outros riram, alguns com desconforto. “Velho Obadias, o sono te perturbou,” disseram um deles. “Eles eram fracos. Nós somos fortes. Os deuses, ou o Deus deles, nos favorecem.”
Ele não insistiu. Sabia que as palavras eram inúteis contra a cegueira do orgulho.
A sentença não demorou a chegar. Primeiro, foram as colheitas que falharam. O solo, outrora fértil nos vales, tornou-se estéril, como se amaldiçoado. Depois, uma doença misteriosa atingiu os rebanhos. As ovelhas mais robustas caíam mortas em poucos dias. O pânico começou a se instalar, sussurrado à noite, nos serões familiares.
Então, os nômades do deserto, tribos que Edom outrora subjugara com facilidade, começaram a atacar com uma ferocidade incomum. Eram como gafanhotos, rápidos e impiedosos. As caravanas de comércio foram interceptadas, os poços de água, envenenados. A prosperidade de Edom esvaía-se como água entre os dedos.
A pior parte, porém, foi o silêncio. O silêncio de Deus. Os sacerdotes edomitas clamavam a seus deuses, faziam sacrifícios, mas só o eco de suas próprias vozes respondia do alto das montanhas. Obadias entendia. Não era que o Deus de Israel estivesse ausente. Era que Ele havia virado Seu rosto contra Edom. A sentença proferida em seu sonho estava a cumprir-se diante de seus olhos nublados pela idade.
Num último e desesperado ato, um grupo de guerreiros decidiu lançar um grande ataque para recuperar a honra e os espólios. Partiram ao amanhecer, com cantos de guerra e lanças reluzentes. Obadias ficou para trás, encostado na rocha à entrada de sua caverna, observando-os desaparecer na poeira do horizonte.
Eles nunca voltaram.
Notícias chegaram semanas depois, trazidas por um mercenário ferido que conseguira escapar. Foram emboscados. Não por um exército organizado, mas por uma força caótica de saqueadores e tribos do deserto que, misteriosamente, se uniram para aniquilá-los. O homem contou, com os olhos ainda vidrados de terror, que os edomitas foram cercados num desfiladeiro estreito, e ali foram abatidos até o último homem. “Era como se a própria montanha se voltasse contra nós,” sussurrou o homem, antes de sucumbir aos seus ferimentos.
Obadias não chorou. A dor era grande demais para lágrimas. Caminhou até o ponto mais alto que podia alcançar e olhou para a terra de seus pais. O que outrora fora um reino orgulhoso e imponente, um “monte perpétuo” nas palavras de seus antepassados, agora não passava de um ermo. As cidades estavam silenciosas, as portas arrombadas, os telhados desabados. O vento, agora, apenas assobiava uma melodia fúnebre através das fendas das rochas. A profecia cumprira-se com uma precisão aterradora. Edom, que se alegrara com a desolação alheia, tornara-se ela própria uma desolação eterna.
E o velho Obadias, o último a guardar na memória o peso completo daquela inimizade ancestral, ficou ali, até que o sol se pôs, e as sombras das montanhas que outrora foram suas engoliram sua figura solitária. A sentença estava cumprida. E o silêncio que restou era a única resposta.




