Bíblia em Contos

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O Profeta e a Tempestade Divina

O céu sobre Nínive estava pesado, um manto de fuligem e calor abafado que sufocava a cidade desde o amanhecer. O rio Tigre, outrora um deus para aqueles homens, fluía lento e lodoso, como se carregasse o peso dos pecados da grande capital em suas correntes. Nos palácios de pedra, onde figuras esculpidas de touros alados vigiavam portais imensos, o ar cheirava a incenso caro e a um medo antigo, um temor que nenhum exército, nenhuma muralha, conseguia afastar completamente.

Num quarto modesto, longe do burburinho dos mercados e do estrondo das carruagens, um homem chamado Naum sentava-se à luz trêmula de uma lamparina de azeite. Ele não era um homem de Nínive. Seu coração e sua alma pertenciam a uma terra montanhosa e distante, a Judá, agora um reino vassalo, um pequeno galho quebrado sob a bota de ferro do império assírio. Há anos a crueldade de Nínive escorria como um veneno pelos vales do mundo conhecido. Suas vitórias eram celebradas com pilhas de crânios; sua política era o terror.

Naum não escrevia com a fúria cega de um revolucionário, mas com a mão pesada de quem carrega um fardo divino. O rolo de couro sobre a mesa simples parecia absorver a luz do ambiente. Ele molhou a pena no tinteiro, e as palavras começaram a fluir, não como uma profecia nova, mas como um eco antigo da realidade última do universo.

“O Senhor é um Deus zeloso e vingador”, sussurrou ele, sua voz um contraste com o silvo da pena sobre o couro. A chama da lamparina pareceu tremer. Ele não descrevia um tirano celestial, mas a própria natureza do fogo santo. “O Senhor é vingador e cheio de ira; contra os seus adversários ele reserva indignação, e para os seus inimigos guarda furor.” Era a lei cósmica da colheita, tão imutável quanto a rotação das estrelas. A bondade de Deus não anulava a sua justiça; era o outro lado da mesma moeda sagrada.

Ele fechou os olhos por um momento, e em sua mente não via os jardins suspensos ou os tesouros de Nínive. Via o Êxodo. Via o mar Vermelho, aquela massa de água que se erguera como muralhas líquidas sob o sopro do Eterno. Aquele mesmo poder que abrira um caminho de salvação para o seu povo era o mesmo que poderia, num só instante, fechar-se sobre os opressores. “Ele repreende o mar, e o seca; esgota todos os rios”, escreveu, sentindo um calafrio. Basã e Carmelo, regiões férteis, murchavam diante daquele olhar; o próprio Líbano, com seus cedros imponentes, estremecia.

Mas a sua mensagem não era apenas de fogo consumidor. Sua mão moveu-se, e o tom da escrita alterou-se sutilmente. “O Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angústia; ele conhece os que nele confiam.” Para o camponês em Judá, aterrorizado pelo som de cavalos assírios ao longe, aquelas palavras eram um abrigo de pedra. Deus não era apenas o Juiz de Nínive; era o Refúgio de Sião. A mesma força que esmagaria o açopeito do inimigo seria o muro protetor em volta do oprimido que clamava por socorro.

Ele levantou a cabeça, como se escutasse algo. Lá fora, o ruído da cidade continuava—os gritos dos mercadores, o riso bêbado de soldados, o choro abafado de alguma nova leva de escravos. Mas Naum ouvia algo por baixo de tudo isso. Um silêncio profundo, o prenúncio da tempestade. A ira do Senhor era como um grande temporal que se acumula no horizonte, lento, inevitável. “Ele é tardio em irar-se”, ponderou, escrevendo a verdade que confundia a arrogância humana. Nínive pensava que sua prosperidade era um sinal de aprovação divina, ou pior, de que seus deuses eram mais fortes. Eles não entendiam que a paciência de Deus era o fio que sustentava a espada, pronto para ser cortado.

A pena correu mais rápido agora, impulsionada por uma visão clara e terrível. Ele descreveu o fim. Não como uma batalha épica, mas como uma dissolução. “O Senhor dá ordens contra você, Nínive… os portões dos rios se abrem, e o palácio é destruído.” Ele via as muralhas inexpugnáveis de Nínive, famosas em todo o mundo, não sendo arrombadas por aríetes, mas sendo minadas por dentro, pela própria água do rio que a cidade dominava. A autoconfiança de Nínive seria a sua própria armadilha. O deus Ninurta, adorado em seus templos suntuosos, nada faria. Os ídolos de ouro e prata seriam derretidos no furor do juízo, saqueados e carregados como troféus insignificantes.

Uma imagem final formou-se em sua mente: um pastor descansando à sombra, cantarolando uma melodia tranquila, enquanto aos seus pés, espalhadas pelas colinas, estavam as ruínas silenciosas de uma cidade outrora invencível. Nínive se tornaria um pasto para ovelhas, um monte de entulho onde os animais se abrigariam. A alegria estridente que agora enchiam seus salões seria substituída pelo silvo do vento entre as pedras caídas.

Naum pousou a pena. O rolo estava completo. A mensagem era um alívio profundo e um aviso solene. Era um lembrete para Judá, e para todos os que viriam a ler aquelas palavras, de que o mal, por mais entrincheirado e poderoso que pareça, existe sob a soberania de um Deus que é tanto Refúgio quanto Fogo Consumidor. O juízo não era um capricho; era a consequência lógica de uma crueldade que se erguera contra a própria fonte da vida.

Ele enrolou o couro cuidadosamente, amarrando-o com um cordão de linho. Lá fora, a noite caíra completamente sobre Nínive. A cidade luzia com milhares de tochas, uma serpente adormecida e arrogante, inconsciente da sentença que acabara de ser gravada não apenas em um rolo de couro, mas nos livros eternos do céu. E Naum, o homem de Judá, sentiu uma paz estranha. A vingança não era sua; pertencia ao Senhor. E ele, naquela quietude, era apenas o mensageiro que anunciava a tempestade que se aproximava, lenta, certa e totalmente completa.

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