Bíblia em Contos

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O Forno de Efraim

O calor abafado de Samaria grudava nas roupas como um segundo pele. Na sala do trono, o rei Zacarias tentava disfarçar o suor que escorria por suas têmporas, mas os dedos que tamborilavam no braço do trono traíam sua inquietação. Do pátio interno subia o aroma pesado de carne assada – outro banquete para os conselheiros que sussurravam promessas vazias em troca de favores.

Efraim havia se tornado um forno cujas brasas eram a ambição e a mentira. De manhã até o cair da noite, os príncipes se reuniam nas adegas do palácio, aquecidos pelo vinho e pela conspiração. Seus rostos ruborizados lembravam a massa fermentando antes de ir ao fogo. O profeta Oséias observava tudo desde as sombras do pátio, sentindo o cheiro do pão queimando nas cozinhas reais como metáfora de algo mais profundo.

Naquela mesma semana, três homens haviam sido encontrados mortos nos estábulos reais – um deles era o padeiro que fornecia pão para a guarda palaciana. Os sussurros nas ruas diziam que ele ouvira demais sobre certa trama contra o rei. Mas ninguém chorou sua morte. A cidade continuava seu ritmo febril, como formigas perturbadas no formigueiro.

Oséias caminhava pelas ruas de pedra quando viu os mercadores assírios descarregando seus tecidos finos perto do templo de Baal. Observou como os sacerdotes israelitas misturavam-se com eles, trocando abraços e negociando preços como velhos amigos. Seus corações eram como forno aquecido – não para Deus, mas para a ganância. À noite, enquanto a cidade dormia embriagada, esses mesmos homens acordavam para tramar traições. Seu vício pelo poder queimava como brasas que nunca se apagavam.

O profeta lembrava-se dos dias do rei anterior, quando os juízes ainda se reuniam sob a tamareira na porta da cidade. Agora, a justiça havia se tornado um bolo que não era virado – queimado de um lado, cru do outro. Os príncipes celebravas suas conspirações com risadas altas, mas suas alianças com nações estrangeiras eram como lenha úmida que produz mais fumaça que chama.

Na manhã do sétimo dia, Oséias subiu ao telhado de sua casa e viu os mensageiros partindo em direção ao Egito. Galopavam como loucos, levando ouro e promessas vazias. Israel havia se tornado um pombo tolo e sem juízo – primeiro gritava por ajuda ao Egito, depois corria para a Assíria. Enquanto isso, o Senhor estendia Sua rede sobre eles, trazendo-os para baixo como aves feridas.

O profeta sentiu um nó na garganta ao ouvir os cânticos que vinham dos altares pagãos. Cantavam com vozes roucas de tanto vinho, seus lábios mentiam enquanto suas mãos praticavam o mal. Seus corações se derretiam como cera perto do fogo, mas não em arrependimento – em medo covarde quando as consequências de seus pecados finalmente os alcançavam.

Na escuridão de seu quarto, Oséias escrevia as palavras que ecoavam em sua alma. Efraim chamava ao Egito, Israel recorria à Assíria, mas quando iam para curar suas feridas, apenas as aprofundavam. Como um arco enganador que falha na hora da batalha, seus líderes haviam caído pela arrogância de suas línguas. Em todas as suas crises, eles sequer clamavam ao Céu. Rolavam em sua luxúria como cães, uivavam em seus banquetes enquanto o machado já estava posto na raiz da árvore.

O vento trouxe o som de uma festa distante enquanto o profeta apagava a lamparina. A cidade dormiria mais uma noite em sua ilusão, sem perceber que o forno estava prestes a consumir tanto os padeiros quanto o pão.

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