Bíblia em Contos

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A Saudade de Salomão

O sol da tarde descia suave sobre os vinhedos, tingindo de ouro as folhas de parreira que trepavam pelas colinas de En-Gedi. O ar carregava o perfume doce das flores de romã, misturado ao aroma terroso da terra molhada pelo orvalho que começava a se formar. Salomão caminhava sozinho entre as videiras, seus dedos tocando levemente os cachos que balançavam ao vento suave. Seus pensamentos, porém, estavam longe dali, presos à lembrança daquela que seu coração chamava de “minha perfeita”.

Havia algo na ausência dela que intensificava sua beleza em sua memória. Como se cada hora de separação fosse um ourives polindo ainda mais a imagem que guardava consigo. Ele se lembrava da última vez que a vira descendo do monte, envolta na luz da manhã, seu véu flutuando como as nuvens que às vezes repousavam sobre o cume do Hermon.

“Para onde foi tua amada, ó mais formosa entre as mulheres?” ele murmurou para as videiras vazias, repetindo a pergunta que as filhas de Jerusalém lhe fariam. “Para que lado se voltou tua amada?”

Ele sorriu, sabendo a resposta antes mesmo de formulá-la em palavras. Seus passos o levaram até o jardim real, onde as romãzeiras floresciam entre os canteiros de nardo e açafrão. Ali, entre as flores, ela parecia estar presente em cada pétala, em cada fragrância.

“Minha amada desceu ao seu jardim,” ele disse em voz baixa, como se compartilhasse um segredo com as próprias flores, “aos canteiros de bálsamo, para apascentar os rebanhos nos jardins e para colher os lírios.”

A imagem dela entre as flores era tão vívida em sua mente que quase podia vê-la movendo-se graciosamente entre os canteiros, seus dedos colhendo cuidadosamente as flores mais belas, sua voz suave cantarolando enquanto trabalhava. Ela não era como as outras mulheres que conhecera – as sessenta rainhas, as oitenta concubinas, e as virgens sem número que povoavam os palácios. Todas elas tinham sua beleza, sua graça, seus encantos, mas ela…

“Minha pomba, minha perfeita, é única,” ele sussurrou para o vento que agitava as pétalas aos seus pés. “É a única de sua mãe, a mais querida daquela que a deu à luz.”

Ele se lembrou das filhas que a haviam visto e a chamado de bem-aventurada; das rainhas e concubinas que a elogiaram. E cada elogio, cada palavra de admiração, era apenas um eco fraco da verdade que ele carregava no peito.

“Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, imponente como um exército com bandeiras?”

A pergunta ecoou em sua mente enquanto ele se aproximava do lago dos lírios, onde as águas calmas refletiam o céu que começava a se pintar de púrpura. Foi ali, meses atrás, que a vira pela primeira vez após longa ausência, descendo das montanhas de Gileade como se fosse a própria personificação da alvorada.

Ele se sentou numa pedra próxima à margem, deixando que as memórias o envolvessem completamente. Lembrou-se de quando descera para o jardim das nozes para ver os frutos do vale, para ver se as videiras floresciam, se as romãzeiras estavam em flor. E antes que ele soubesse, sua alma o colocara entre as carruagens do povo nobre.

“Volta, volta, ó Sulamita!” ele implorara naquele dia, como implorava agora em seu coração. “Volta, volta, para que te contemplemos!”

O crepúsculo começava a se instalar quando ele finalmente se levantou, seus olhos fitando o horizonte onde as montanhas se encontravam com o céu. Havia uma dor suave na saudade, mas também uma doce antecipação. Pois ele sabia, com a certeza que só o amor verdadeiro pode dar, que ela voltaria para ele. E quando o fizesse, seria como sempre fora: mais esplêndida que a lua entre as estrelas, mais radiante que o sol entre as nuvens, mais imponente que os exércitos com suas bandeiras desfraldadas.

O jardim parecia sussurrar seu nome enquanto ele se afastava, as flores inclinando-se levemente como se também sentissem sua falta. E em seu coração, Salomão carregava a promessa silenciosa de que logo, muito logo, ela estaria novamente em seus braços – sua pomba, sua perfeita, sua única.

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