O sol da tarde começava a se despedir sobre o vale, tingindo de dourado as folhas das mangueiras no quintal. Seu Antônio apoiou os cotovelos no parapeito da varanda, observando os últimos raios que insistiam em acariciar a terra seca. Aos oitenta e dois anos, cada entardecer lhe parecia um milagre renovado.
Dentro de casa, netos correm, panelas tilintam, vozes se entrelaçam no ritmo familiar do jantar. Mas ele permanecia ali, imóvel, deixando que a brisa morna lhe trouxesse o cheiro da terra molhada depois da rega. Seus dedos calejados percorreram a madeira áspera do parapeito, sentindo nas ranhuras as marcas de seis décadas de intempéries.
Lembrou-se de Manuela, falecida havia sete anos. Como ela gostava desta mesma varanda ao crepúsculo. “Antônio”, dizia ela, “o dia que termina é como um suspiro de Deus”. Na época, ele apenas concordava com a cabeça, sem realmente compreender. Agora, idoso e com o corpo cheio de dores, começava a entender.
Seus olhos percorreram o horizonte onde as montanhas se encontravam com o céu. E então, baixinho, quase sussurrando, começou a falar consigo mesmo, como tinha feito cada vez mais nos últimos anos.
“Minha alma, você se lembra?” O sussurro se perdeu no ar, mas ecoou dentro dele. “Você se lembra de tudo o que Ele fez?”
Uma lembrança antiga veio à tona, nítida como se fosse ontem. Os tempos de seca, quando a plantação de milho murchava e as vacas mugiam de sede. O desespero que apertava o peito quando as contas se acumulavam na gaveta. E como, de formas que jamais poderia explicar, a providência sempre chegava. Às vezes através de um vizinho que aparecia com sacos de alimento, outras vezes com uma chuva inesperada que caía no momento exato.
“Ele perdoa todas as tuas injustiças”, continuou seu monólogo interior. Lembrou-se das palavras duras que dissera aos filhos quando jovens, das oportunidades perdidas por orgulho, das noites em que chegara em casa embriagado. E lembrava também do alívio que sentira ao perceber que podia recomeçar, que o perdão não era apenas um conceito, mas algo que lavava a alma como a primeira chuva de verão.
Seus olhos percorreram o quintal até o pé de jabuticaba que plantara com as próprias mãos cinquenta anos atrás. A árvore continuava frutificando, ano após ano, mesmo com seu tronco retorcido pelo tempo. Como sua própria vida, pensou. Cheia de marcas, de cicatrizes, mas ainda capaz de dar bons frutos.
“Que sara todas as tuas enfermidades.” Sua mão direita foi instintivamente ao quadril, onde uma artrose insistente lhe roubava o sono algumas noites. Mas lembrou-se da pneumonia que tivera aos quarenta e cinco anos, quando os médicos pouco esperança davam. E como se recuperara, lentamente, sentindo as forças voltarem como a seiva sobe nas árvores na primavera.
Do interior da casa, ouviu a risada de Bento, seu neto mais novo. O menino que nascera prematuro, tão pequeno que cabia em uma das mãos de seu Antônio. E que agora, aos oito anos, corria e pulava como qualquer outra criança. “Que redime a tua vida da perdição”, pensou, olhando para o neto que atravessava o quintal.
A memória o levou então aos tempos mais sombrios, quando a depressão o mantivera preso ao quarto por meses, incapaz de ver beleza em coisa alguma. Como um inverno que nunca acabava. Até que uma manhã, acordou com o canto dos sabiás e sentiu, pela primeira vez em muito tempo, uma ponta de esperança. Como se alguém tivesse soprado suavemente sobre as brasas quase apagadas de sua alma.
“Que te coroa de benignidade e de misericórdia.” Seus olhos se encheram de lágrimas ao pensar em todas as segundas chances que recebera. O emprego que conseguira quando já não acreditava que alguém daria trabalho a um homem de sua idade. A reconciliação com a filha depois de anos de silêncio. A fé redescoberta na simplicidade do amanhecer.
O céu agora se tingia de roxo e laranja, uma tela viva que se modificava a cada instante. Seu Antônio pensou na juventude distante, na força que tinha aos vinte anos, quando carregava sacas de café como se fossem penas. A força física se fora, mas dera lugar a algo mais profundo – uma serenidade que não dependia de músculos, mas da certeza de ser sustentado por mãos maiores que as suas.
“Saciada de bens a tua velhice, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia.” Sorriu ao perceber que, de fato, sentia-se mais leve agora do que em muitos períodos da juventude. As preocupações que antes o atormentavam haviam se transformado em confiança. A ânsia por acumular bens dera lugar à gratidão pelo essencial.
A última lembrança foi da semana anterior, quando toda a família se reunira para seu aniversário. Netos, bisnetos, filhos, genros e noras – uma multidão que transbordava a casa. E ele, no centro, sentado em sua cadeira preferida, olhando para aquela teia de vidas que não existiria se não fosse pela graça que o sustentara através das décadas.
O sol já se despedira completamente quando dona Isabel, sua filha mais velha, apareceu na porta.
“Pai, o jantar está pronto. Está bem aí sozinho no escuro?”
Ele se virou lentamente, apoiando-se no parapeito.
“Estava apenas conversando com minha alma, filha. Lembrando de coisas antigas.”
Ela se aproximou e pousou a mão em seu ombro.
“Coisas boas, espero.”
“Coisas boas e ruins, Isabel. Mas todas transformadas em bênçãos com o tempo.”
Entrou em casa apoiado no braço da filha, sentindo o cheiro do feijão cozido e ouvindo a algazarra dos netos. Na sala, antes de se sentar à mesa, parou diante da estante e pegou a Bíblia mais antiga, aquela que Manuela usava sempre. Abriu-a aleatoriamente e seus olhos caíram precisamente no verso que ecoava em seu coração havia quase uma hora.
Não leu em voz alta. Apenas sorriu, fechou o livro com cuidado e foi jantar com sua família. A gratidão transbordava em seu peito como um rio que, depois de percorrer tantos terrenos, finalmente encontra seu lugar no mar. E naquela noite, enquanto a lua começava sua vigília sobre o vale, seu Antônio dormiu o sono dos justos – não por ser perfeito, mas por saber que era amado pelo Deus que transforma cicatrizes em estrelas e memórias amargas em lições preciosas.
E em seus sonhos, viu-se jovem novamente, dançando com Manuela no terreiro, enquanto ao redor todas as coisas – as árvores, as estrelas, o vento – cantavam em uníssono a canção eterna da misericórdia que não tem fim.




