O sol da tarde descia sobre Jerusalém com uma luz âmbar que parecia tingir até as pedras das muralhas. Abias sentiu o peso dos seus anos nas juntas dos dedos, encurvados sobre o cajado de oliveira. O vento trazia o cheiro das padarias e dos estábulos, mas também algo mais – o perfume distante das amendoeiras em flor nos vales. Era primavera, mas em seus ossos ainda habitava o inverno.
Ele se acomodou no banco de pedra que ficava diante de sua casa modesta, de onde se via o vai e vem do mercado. Seus olhos, embaçados pelo tempo, ainda distinguiam as cores dos turbantes, o brilho das ânforas de barro, o movimento das mulheres com seus cântaros. Tudo lhe parecia agora como um tear divino, cada fio uma história, cada cor um destino.
“Desde a minha juventude, Senhor, em Ti tenho me refugiado,” sussurrou, e a voz saiu rouca, como um instrumento antigo. Lembrou-se de quando era apenas um rapazinho, correndo pelos campos de Belém. Caía, esfolava os joelhos, e sua mãe cantarolava os salmos de Davi enquanto lavava suas feridas. A fé então não era teologia – era o cheiro do pão saindo do forno, o abraço do pai ao voltar do rebanho, a segurança do lar quando as tempestades rugiam lá fora.
Uma dor surda no peito o fez suspirar. Os anos não passam em vão, pensou. São como as águas de inverno que escavam sulcos nas rochas. Mas sua mente viajava para além das dores, para além das limitações. “Não me rejeites no tempo da velhice; não me desampares, quando se for acabando a minha força.” A oração brotava natural, misturando-se com o vozerio da rua, com o grasnar de um corvo pousado no muro.
Fechou os olhos e viu-se novamente jovem, diante do gigante Golias. Não ele, claro, mas seu avô, que servira como escudeiro de um dos homens de Saul. Ouvira a história mil vezes – o fedor do campo de batalha, o suor frio nas nucas, o silêncio pesado que precedeu a funda de Davi. “Inimigos falam contra mim,” murmurava Abias, “e os que espiam a minha alma consultam juntos.” Quantas vezes na vida sentira as setas afiadas da calúnia, os sussurros nos corredores do palácio quando servira como escriba? Mas sempre, sempre encontrara a Rocha.
Um grupo de crianças passou correndo, suas risadas como cascatas. Abias sorriu. “Também com o auxílio do Altíssimo eu mostrarei todas as Tuas obras.” Ensinara seus filhos, e depois seus netos, sobre os feitos do Eterno. Como Ele abrira o Mar Vermelho, como alimentara o povo no deserto, como derrubara os muros de Jericó. E agora, na quietude da velhice, percebia que cada milagre contado era um fio de esperança tecido na alma das novas gerações.
A tarde avançava, e as sombras se alongavam como mantos púrpura. Um frio súbito fez Abias tremer. “Não me desampares, ó Deus, na minha velhice, quando as minhas forças se vão acabando.” A solidão às vezes o visitava, sorrateira, especialmente quando lembrava de Lea, sua esposa, part havia seis anos. Sua ausência era um cômodo vazio na casa, uma cadeira desocupada à mesa.
Mas então vinha a memória da fidelidade divina – a vez em que sobrevivera à febre que levou tantos, o dia em que encontrara trabalho justo quando a despensa estava vazia, a noite em que um salmo inexplicável enchera sua boca de cânticos na hora mais escura. “Tu, que me tens feito ver muitas angústias e males, ainda me restaurarás a vida.” Não era uma esperança vaga, mas a certeza tecida em oitenta anos de caminhada.
Ergueu os olhos para o céu, onde as primeiras estrelas começavam a cintilar. “Eu cantarei louvores ao Teu nome, ó Altíssimo, e entrarei pela tua bondade na casa do Senhor.” Sua voz, agora mais firme, uniu-se ao coro dos grilos que anunciavam o crepúsculo. Não era o canto vigoroso da juventude, mas algo mais profundo – a melodia de quem conhece o Compositor.
Dentro de casa, a lamparina já estava acesa. Seu neto mais novo, Ezequiel, apareceu na porta. “Vovô, está na hora do jantar.”
Abias assentiu, erguendo-se com dificuldade. Cada movimento doía, mas cada dor também o lembrava de que ainda estava aqui, ainda respirava, ainda tinha uma missão. “Vou também falar da Tua força à geração presente, e do Teu poder a todos que hão de vir.”
Enquanto entrava, apoiado no ombro do neto, sentiu que sua história não era apenas sua – era um verso no grande poema do Eterno. E embora suas forças definhassem, sua esperança renovava-se como a águia. Amanhã, quando o sol nascesse novamente sobre Jerusalém, ele estaria aqui, neste mesmo banco, contando outra vez as maravilhas do Deus que fora seu refúgio desde o ventre materno.



