Bíblia em Contos

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O Peso do Trono Vazio

O sol da tarde pesava sobre Jerusalém como uma manta de chumbo. Davi sentiu o suor escorrer pelas têmporas enquanto observava da sacada os comerciantes recolhendo suas tendas no vale. Um cheiro misto de especiarias, esterco e poeira subia até ele, mas seu olhar fixava-se num ponto distante, para além dos muros da cidade, onde o horizonte tremulava no calor.

Há semanas aquela agonia o consumia por dentro. Não era a dor física das antigas cicatrizes de guerra, nem o cansaço das responsabilidades do trono. Era algo mais profundo, uma ferida na alma que latejava com cada batimento do coração. Ele fechou os olhos e suas mãos, calejadas pela funda e pela espada, apertaram a balaustrada de pedra como se buscassem alguma solidez num mundo que parecia desmoronar.

“Guardarei os meus caminhos”, murmurou para si mesmo, repetindo o juramento que fizera em segredo. “Não deixarei que minha língua peque.”

Mas a pressão crescia. Como um odre velho cheio de vinho novo, sentia que iria romper-se. Nas audiências no trono, mantinha o rosto impassível enquanto nobres traziam queixas insignificantes. Nos jardins do palácio, sorria para suas esposas e filhos, mas por dentro uma tempestade rugia. Até mesmo durante os sacrifícios no tabernáculo, quando as trombetas soavam e o incenso subia, ele permanecia mudo como uma pedra, though seu espírito clamava em silêncio.

Naquela tarde particularmente abafada, a luta interior atingiu seu clímax. Enquanto observava um grupo de conselheiros aproximar-se com suas vestes coloridas, sentiu uma pontada de amargura. Eram homens que ele conhecia há anos, companheiros de batalha, mas agora seus sorrises pareciam falsos, suas palavras ocas. Um deles, Obede-Edom, começou a elogiar exageradamente as recentes conquistas militares de Davi.

“O rei é como um leão entre as ovelhas inimigas!”, exclamou o homem, gesticulando amplamente.

Davi sentiu as palavras queimar em sua garganta. Queria gritar que todas aquelas vitórias eram cinzas em sua boca, que a fama era uma prisão dourada, que o poder não preenchia o vazio em sua alma. Suas mãos tremeram. O rosto contraiu-se. E então, como se uma barragem se rompesse, a resolução de silêncio desmoronou.

“Ouvi minha oração, Senhor!”, sua voz irrompeu, mais alta e áspera do que pretendia. Os conselheiros recuaram, surpresos. “Dá ouvidos ao meu clamor! Não te cales perante minhas lágrimas!”

O pátio ficou em silêncio. Apenas o zumbido distante de moscas e o farfalhar das vestes dos homens que se afastavam discretamente. Davi mal os via agora. Seus olhos estavam fitos no céu cor de âmbar, sua mente transportada para além do tempo e do espaço.

“Diante de ti sou como um estrangeiro”, continuou, sua voz baixando para um sussurro rouco, “um peregrino como todos os meus pais foram.”

Ele caminhou até a borda da sacada, seus dedos traçando padrões na poeira acumulada na pedra. Lembrou-se de sua infância em Belém, dos campos abertos onde apascentava ovelhas, da simplicidade daqueles dias. Agora, cercado de ouro e mármore, sentia-se mais pobre do que jamais fora.

“Mede minha vida, Senhor”, suplicou, e suas palavras pareciam misturar-se com a brisa quente que soprava do deserto. “Mostra-me a brevidade dos meus dias.”

E então veio a visão, não como um sonho, mas como uma compreensão súbita que se abria em sua mente como um pergaminho desenrolando. Viu a si mesmo não como rei, mas como uma sombra projetada contra a parede pelo fogo crepitante. Uma silhueta que dançava um instante para depois desaparecer quando as chamas se extinguissem. Todos os seus feitos, seus palácios, suas conquistas – nada mais eram que fumaça dissipando-se no vento.

“Na verdade, todo homem, por mais firme que pareça, não passa de um sopro.” Sua voz agora era quase inaudível, mas cada palavra carregava o peso de uma revelação. “Acumula riquezas sem saber quem as levará.”

Uma imagem de seu avô, Obed, veio à mente – um homem simples que morrera tranquilamente em sua cama, cercado por filhos e netos. Lembrou como, no leito de morte, o velho sorrira e dissera que estava pronto para “voltar para casa”. Davi entendia agora o que aquilo significava.

“E agora, Senhor, que esperança me resta? Minha esperança está em ti.”

Uma tranquilidade incomum começou a invadi-lo, como a brisa fresca que sopra do mar Mediterrâneo ao entardecer. As mesmas questões ainda estavam lá, as mesmas dores e incertezas, mas agora repousavam sobre um alicerce diferente. Já não precisava ter todas as respostas, já não precisava carregar sozinho o peso de seu mundo.

Ouviu passos aproximando-se e virou-se. Era Natã, o profeta, que subira silenciosamente a escada. Seus olhos sábios estudaram o rosto de Davi por um momento antes de falar.

“O rei parece… mais leve”, observou suavemente.

Davi sorriu, um gesto genuíno pela primeira vez em semanas. “Aprendi hoje que um homem pode construir impérios, mas só Deus constrói eternidades.”

Desceu da sacada com Natã, seus passos ecoando no corredor de pedra. Lá fora, as estrelas começavam a pontilhar o céu escuro. A vida continuaria com suas responsabilidades e lutas, mas algo fundamental mudara. Davi entendera que sua verdadeira cidadania não estava nos palácios de Jerusalém, mas em um reino que não podia ser visto, guardado por mãos que não eram humanas.

E naquela noite, quando se deitou em sua cama, o silêncio não era mais um inimigo a ser combatido, mas um santuário onde podia encontrar a Presença que preenche todas as coisas, inclusive os espaços vazios da alma humana.

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