O sol ainda não havia nascido completamente sobre Jerusalém, mas já se podia sentir a agitação diferente naquele dia. Uma ansiedade sagrada pairou sobre a cidade desde as primeiras horas, quando as famílias começaram a descer das suas casas em direção à praça diante da Porta das Águas. Homens de barbas grisalhas caminhavam lentamente, apoiados em seus cajados, enquanto as mulheres ajustavam os véus e as crianças, sem entender completamente a importância do momento, corriam entre as pernas dos adultos, provocando risos abafados e repreensões carinhosas.
Esdras, o escriba, já estava ali há muito tempo, em pé sobre um estrado de madeira construído apressadamente para a ocasião. Seus olhos percorriam o rolo da Lei que segurava com mãos firmes, embora seu coração batesse com força dentro do peito. Ele sabia que aquele não era um dia comum. Setenta anos de exílio, décadas de reconstrução, e agora o povo estava ali, reunido não por obrigação, mas por um desejo profundo que nem mesmo conseguiam explicar completamente.
Quando o primeiro raio de sol atingiu as pedras do templo inacabado, uma voz ecoou na praça. Não era um grito, mas uma convocação solene. Todos se calaram. As crianças pararam de correr. Os anciãos se apoiaram mais pesadamente em seus bordões. Esdras abriu o rolo, e o som do pergaminho desenrolando pareceu o próprio sussurro de Deus na brisa matinal.
Ele começou a ler. Palavras antigas, palavras esquecidas, palavras que muitos ali só tinham ouvido em fragmentos contados pelos avós. A Lei. A Aliança. As promessas. Sua voz não era dramaticamente projetada, mas tinha uma qualidade peculiar – clara como água de nascente, e cada sílaba chegava aos ouvintes com estranha familiaridade, como se algo adormecido dentro deles estivesse despertando.
E leram no livro, na lei de Deus, distintamente; e deram o sentido, de modo que entendessem o que se lia.
Homens espalhados pela multidão – os levitas – moviam-se entre o povo, explicando em voz baixa, parando aqui e ali para responder a um sussurro perplexo. “O que significa este estatuto?” perguntava um jovem ao lado da mãe. Um levita se aproximava e explicava com paciência, mostrando com as mãos, fazendo comparações com a vida do dia a dia. A compreensão nascia nos rostos como o amanhecer nascia sobre a cidade.
Então algo extraordinário aconteceu. Primeiro foram os anciãos, aqueles que se lembravam dos dias antes do exílio. Seus ombros começaram a tremer silenciosamente. Depois as mulheres, que entendiam nas entrelinhas da Lei todo o sofrimento de gerações. E finalmente até as crianças, contagiadas pela emoção dos pais. O choro não era de desespero, mas de reconhecimento – como um filho que encontra o rosto do pai depois de longa ausência.
Neemias, o governador, observava tudo com olhos sábios. Viu a dor genuína, o arrependimento que brotava não do medo, mas da compreensão. E ele se adiantou, com Esdras ainda ao lado segurando o rolo sagrado.
“Não vos lamenteis nem choreis”, disse Neemias, sua voz firme mas cheia de compaixão. “Ide para vossas casas, comei carnes gordas, tomai bebidas doces, e reparti com aqueles que nada têm preparado; porque este dia é santo ao nosso Senhor; portanto não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa força.”
Houve um momento de silêncio, seguido por um alívio quase palpável. O povo entendeu. Não se tratava de negar a gravidade de seus erros, mas de compreender a natureza do Deus que os chamava – um Deus cuja alegria se tornava sua fortaleza, cujo perdão era mais forte que sua ira.
E assim fizeram. As famílias se reuniram, não mais como indivíduos isolados, mas como um povo renovado. Prepararam festas, compartilharam com os que nada tinham, e pela primeira vez em muitas gerações, a alegria em Jerusalém era tão tangível quanto as pedras de seus muros reconstruídos.
Nos dias seguintes, continuaram reunidos – não por obrigação, mas por fome. Fome das palavras que os faziam lembrar quem eram, e de Quem os tinha chamado. E cada anoitecer, quando se recolhiam às suas casas, levavam consigo não apenas o cansaço do dia, mas uma estranha leveza na alma, como quem encontrou depois de muito procurar.
A alegria do Senhor realmente se tornara sua força. Não uma força que se exibe com arrogância, mas aquela que permite chorar e celebrar no mesmo fôlego, que transforma memórias de fracasso em promessas de restauração, e que faz de um povo disperso uma família outra vez reunida.




