Bíblia em Contos

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A Traição de Absalão

Era um tempo de grande agitação em Israel. O rei Davi, outrora um herói adorado pelo povo, agora enfrentava as consequências amargas de seus próprios erros. Envelhecera sob o peso da coroa, e seu filho Absalão, um jovem de beleza extraordinária e ambição ainda mais extraordinária, preparava-se nos bastidores para o golpe mais doloroso que um pai pode sofrer.

Absalão possuía uma presença magnética. Desde os cabelos, que cortava anualmente por serem tão pesados, até sua estatura imponente, tudo nele gritava por atenção. Mas sua beleza exterior escondia um coração que fermentava em ressentimento há anos, desde que sua irmã Tamar fora violentada e seu irmão Amnom assassinado. O tempo não curara essas feridas, apenas as transformara em combustível para sua ambição.

Ele adquiriu para si uma carruagem, cavalos e cinquenta homens que corriam adiante dele, imitando a pompa real. Todas as manhãs, posicionava-se junto ao caminho que levava à porta da cidade, onde as pessoas traziam suas disputas para o rei. Quando alguém se aproximava para se prostrar, Absalão estendia a mão, abraçava a pessoa e beijava-a.

“De que cidade você é?”, perguntava com voz melíflua. E quando o homem respondia: “Teu servo é de uma das tribos de Israel”, Absalão suspirava profundamente. “Veja, suas queixas são boas e retas, mas não há ninguém designado pelo rei para ouvi-las.” E com uma expressão de genuína preocupação, acrescentava: “Ah, se eu fosse nomeado juiz nesta terra! Todo homem que tivesse uma queixa ou causa viria a mim, e eu lhe faria justiça.”

Assim, ele seduzia o coração dos homens de Israel. Por quatro anos, esse cerco silencioso continuou. As sementes da insatisfação foram sendo plantadas com cuidado meticuloso. O povo, que outrora via Davi como o ungido do Senhor, começava a ver em Absalão uma alternativa mais acessível, mais simpática, mais disposta a ouvir.

Então chegou o momento que Absalão julgou propício. Com a frieza de um estrategista, enviou mensageiros secretos por todas as tribos de Israel com uma senha combinada: “Quando vocês ouvirem o som das trombetas, digam: ‘Absalão é rei em Hebrom!'”

A conspiração ganhava corpo enquanto duzentos homens de Jerusalém, convidados em boa fé, seguiam com ele para Hebrom, totalmente alheios aos seus verdadeiros intentos. Entre eles estava Aitofel, o conselheiro de Davi, cuja sabedoria era considerada como se viesse do próprio Deus. Essa deserção foi um golpe devastador para o rei envelhecido.

Enquanto isso, no palácio de Jerusalém, um mensageiro chegou ofegante ao rei Davi. “Senhor, os corações dos homens de Israel seguem após Absalão.”

O rosto de Davi, marcado por anos de batalhas e pesares, contraiu-se em dor profunda. Ele compreendeu imediatamente a gravidade da situação. Este não era um levante qualquer – era seu próprio filho, a carne de sua carne.

Com uma serenidade nascida da experiência e da fé, o rei tomou a decisão mais difícil. “Levantemo-nos e fujamos, pois do contrário não escaparemos de Absalão. Apressemo-nos em partir, para que ele não nos alcance de repente e traga o mal sobre nós, e fira a cidade ao fio da espada.”

O exílio começou. A cena era de profunda comoção. Os servos do rei, seus soldados fiéis, e todo o palácio o seguiam a pé. Davi não levava consigo a Arca da Aliança – ordenou que Zadoque a devolvesse à cidade, dizendo: “Se eu achar graça aos olhos do Senhor, ele me fará voltar e me deixará vê-la outra vez. Mas, se disser: ‘Não tenho prazer em ti’, estou aqui; faça de mim o que lhe parecer bem.”

A subida do Monte das Oliveiras foi uma procissão de dor. Davi subia chorando, com a cabeça coberta e os pés descalços – sinais tradicionais de luto. Todo o povo que ia com ele também chorava, com a cabeça coberta.

No cume do monte, onde se podia ver toda a cidade santa, Hushai, o arquita, amigo do rei, veio ao seu encontro com as vestes rasgadas e terra sobre a cabeça. Davi, porém, tinha um plano. “Se você voltar comigo para a cidade, e disser a Absalão: ‘Eu serei teu servo, ó rei; como fui servo de teu pai no passado, assim serei agora teu servo’, então você poderá frustrar por mim o conselho de Aitofel.”

Enquanto isso, Ziba, o servo de Mefibosete, apareceu com dois jumentos albardados, carregados com duzentos pães, cem cachos de passas, cem frutos de verão e um odre de vinho. Davi perguntou: “Para que é isso?” Ziba respondeu: “Os jumentos são para a família do rei montar, o pão e a fruta de verão para os jovens comerem, e o vinho para os que se cansarem no deserto beberem.”

A bondade tocou o coração ferido de Davi. Mais adiante, na descida do monte, veio Simei, da família de Saul, correndo ao lado deles, atirando pedras e amaldiçoando: “Sai, sai, homem de sangue, homem de Belial! O Senhor tornou a cair sobre ti todo o sangue da casa de Saul, em cujo lugar tens reinado; e o Senhor entregou o reino na mão de Absalão, teu filho; e eis que estás em desgraça, porque és homem de sangue.”

Abisai, um dos valentes de Davi, indignou-se: “Por que este cão morto amaldiçoará o rei, meu senhor? Deixa-me passar e tirarei sua cabeça.” Mas Davi, com impressionante humildade, respondeu: “Deixai-o amaldiçoar, pois se o Senhor lhe disse: ‘Amaldiçoa a Davi’, quem dirá: ‘Por que fizeste assim?'” E acrescentou, com uma fé que transcendia a circunstância: “Talvez o Senhor olhe para a minha aflição, e me restitua o bem pela sua maldição hoje.”

Assim continuaram seu caminho, enquanto Simei os acompanhava pela encosta do monte, atirando pedras e levantando poeira. O rei e seu povo chegaram exaustos ao Jordão, onde descansaram.

Enquanto isso, em Jerusalém, Absalão entrava triunfante na cidade, acompanhado por Aitofel. A conspiração parecia bem-sucedida. O filho havia tomado o trono do pai. Mas a história estava longe de terminar, pois o Senhor dos Exércitos ainda tinha um propósito a cumprir através de seu servo Davi, o homem segundo seu coração.

A cidade que outrora vibrara com os cânticos de vitória de Davi agora ecoava com os passos do usurpador. Mas nos corações daqueles que permaneciam fiéis, e nos planos do Deus que nunca abandona seus escolhidos, a esperança continuava viva, como uma pequena chama tremulando na escuridão.

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