Era um dia opressivo e sombrio para o povo de Israel. O rei Saul, com seus três mil homens escolhidos, estava acampado nas proximidades de Gibeá, sob uma romãzeira em Migrom. Enquanto isso, do outro lado do desfiladeiro, os filisteus haviam estabelecido seu acampamento em Micmás, com trinta mil carros de guerra, seis mil cavaleiros e uma infantaria tão numerosa quanto a areia do mar. A situação era tão desesperadora que os israelitas se escondiam em cavernas, buracos e cisternas, e muitos haviam fugido para além do Jordão.
Naquele ambiente de tensão, Jonatas, filho de Saul, um jovem de coragem extraordinária, sentiu um impulso divino em seu coração. Sem contar a seu pai, ele disse ao seu jovem escudeiro: “Vem, subamos ao posto avançado dos filisteus do outro lado. Quem sabe o Senhor não age por nós, pois para o Senhor não há impedimento para salvar com muitos ou com poucos”.
O escudeiro, com fé igual à de seu senhor, respondeu: “Faze tudo o que tens no coração, segue adiante. Eis que estou contigo, e meu coração é como o teu coração”.
Então Jonatas estabeleceu um sinal: “Quando eles nos disserem: ‘Ficai aí, até que venhamos a vós’, então ficaremos no nosso lugar e não subiremos a eles. Porém, se disserem: ‘Subi a nós’, então subiremos, pois isto será o sinal de que o Senhor os entregou em nossas mãos”.
Quando os dois se revelaram ao posto filisteu, os sentinelas gritaram: “Vede, hebreus saindo das cavernas onde se escondiam!” E chamaram por Jonatas e seu escudeiro: “Subi a nós, e vos ensinaremos uma lição!”
Ao ouvir estas palavras, Jonatas disse ao seu escudeiro: “Sobe atrás de mim, porque o Senhor os entregou nas mãos de Israel”. E começou a escalar o penhasco, usando as mãos e os pés, com seu escudeiro seguindo logo atrás. Quando alcançaram o topo, Jonatas atacou os filisteus primeiro, e seu escudeiro os matava logo após ele. Nesta primeira investida, caíram cerca de vinte homens numa área de cerca de meia jeira de terra.
Então sobreveio um pânico enviado por Deus no acampamento filisteu. A terra começou a tremer, e um terror sobrenatural se espalhou entre eles. Os sentinelas nos postos avançados viram os israelitas saindo de seus esconderijos e perceberam que o exército filisteu estava em debandada.
Quando Saul e seus homens no acampamento de Gibeá viram a multidão confusa que fugia em todas as direções, ordenou que contassem seus soldados para descobrir quem havia partido. A verificação revelou que faltavam Jonatas e seu escudeiro.
Saul, em sua pressa, ordenou ao sacerdote Aías que trouxesse a arca de Deus, pois naquele tempo a arca estava com os israelitas. Enquanto Saul falava com o sacerdote, o tumulto no acampamento filisteu aumentava cada vez mais. Então Saul disse ao sacerdote: “Retira a tua mão”, e reuniu seu exército para a batalha.
Quando chegaram ao campo de batalha, encontraram os filisteus em completa confusão, ferrando-se uns aos outros com suas próprias espadas. Os hebreus que antes estavam com os filisteus em seus acampamentos desertaram e juntaram-se a Saul e Jonatas. Todos os israelitas escondidos nas montanhas de Efraim, ouvindo que os filisteus fugiam, também saíram e perseguiram os inimigos.
O Senhor concedeu a Israel a vitória naquele dia, e a batalha estendeu-se além de Bete-Áven. Os homens de Israel estavam exaustos, pois Saul havia feito um juramento imprudente, amaldiçoando qualquer homem que comesse alimento antes do anoitecer, dizendo: “Maldito o homem que comer pão antes do anoitecer, antes que eu me vingue de meus inimigos”. Por isso, todo o povo jejuava, embora estivessem fracos e famintos.
O exército passou por um bosque onde havia mel silvestre escorrendo no chão, mas ninguém ousou levar a mão à boca por causa do juramento do rei. Jonatas, porém, não ouvira o juramento de seu pai. Estendeu a ponta do cajado que tinha na mão, molhou-a no favo de mel e levou-a à boca. Imediatamente seus olhos brilharam e suas forças se renovaram.
Um dos soldados lhe disse: “Teu pai fez o povo jurar solenemente, dizendo: Maldito o homem que comer hoje. E o povo está desfalecido”.
Mas Jonatas respondeu: “Meu pai trouxe problemas sobre a nação. Vede como meus olhos brilharam porque provei um pouco deste mel. Quanto mais se o povo tivesse comido hoje do despojo dos inimigos! Agora a derrota dos filisteus não teria sido maior?”
Naquele dia, os israelitas perseguiram os filisteus desde Micmás até Aijalom, e o povo estava tão esfaimado que se lançou sobre o despojo, tomando ovelhas, bois e bezerros, e os abatiam no chão, comendo a carne com sangue. Informaram a Saul: “Eis que o povo peca contra o Senhor, comendo carne com sangue”.
Saul então disse: “Agistes perfidamente. Rolai para aqui uma grande pedra”. E ordenou: “Espalhai-vos entre o povo e dizei-lhes que cada um traga seu boi e sua ovelha, e os mate aqui, e coma; e não pequeis contra o Senhor, comendo com sangue”. Cada homem trouxe o que tinha, e mataram os animais sobre a pedra.
Saul edificou um altar ao Senhor—aquele foi o primeiro altar que edificou ao Senhor—e disse: “Desçamos à noite atrás dos filisteus, e despojemo-los até o amanhecer, e não deixemos nenhum deles”.
O povo respondeu: “Faze o que bem te parecer”. Mas o sacerdote disse: “Consultemos aqui a Deus”.
Saul perguntou a Deus: “Descerei atrás dos filisteus? Entregá-los-ás nas mãos de Israel?” Mas Deus não lhe respondeu naquele dia. Então Saul percebeu que havia pecado algum no acampamento e declarou: “Todos vós, chefes do povo, aproximai-vos e verificai como este pecado se cometeu hoje. Porque vive o Senhor, que salva Israel, que ainda que seja em Jonatas, meu filho, ele morrerá”. Mas ninguém do povo respondeu.
Saul então disse: “Ficareis de um lado, e eu e Jonatas, meu filho, ficaremos do outro”. O povo respondeu: “Faze o que bem te parecer”.
Então Saul orou: “Ó Senhor, Deus de Israel, por que não respondeste hoje a teu servo? Se esta falta está em mim ou em Jonatas, meu filho, ó Senhor, Deus de Israel, dá Urim; mas se está em teu povo Israel, dá Tumim”. A sorte caiu sobre Saul e Jonatas, e o povo foi inocentado.
Saul disse: “Lançai a sorte entre mim e Jonatas, meu filho”. E a sorte caiu sobre Jonatas.
Então Saul perguntou a Jonatas: “Declara-me o que fizeste”. Jonatas contou: “Provei um pouco de mel com a ponta do cajado que tinha na mão. Eis-me aqui, estou pronto para morrer”.
Saul disse: “Assim me faça Deus e outro tanto, que certamente morrerás, Jonatas”.
Mas o povo interveio e disse a Saul: “Morrerá Jonatas, que operou esta grande salvação em Israel? Não permita Deus! Tão certo como vive o Senhor, não cairá no chão um só cabelo de sua cabeça, porque com Deus fez isso hoje”. Assim o povo resgatou Jonatas, e ele não morreu.
Então Saul deixou de perseguir os filisteus, e estes retornaram à sua terra. Saul consolidou seu reinado sobre Israel e lutou contra todos os seus inimigos ao redor: contra Moabe, contra os amonitas, contra Edom, contra os reis de Zobá e contra os filisteus. Para onde quer que se voltava, ele infligia castigo. Reuniu um exército e derrotou os amalequitas, libertando Israel das mãos daqueles que o saqueavam.



